Um resgate descontraído do rock setentista paulistano

Estadão

15 de janeiro de 2013 | 17h00

Marcelo Moreira

O resgate dos anos 70 virou um movimento, e tendo a música como principal fio condutor. O saudosismo evidente da iniciativa não parece incomodar os mentores: mais do que a preservação da memória de um período intenso e importante da história cultural da cidade de São Paulo, pretendem se divertir e celebrar a criação daquela época.

O Movimento 70 de nOvo (assim mesmo, com o primeiro o de novo em maiúscula) surgiu espontaneamente no Saracura Bar-Teatro na rua 13 de Maio, no bairro do Bixiga, em 2006 – um dos núcleos de criação cultural da capital paulista desde sempre. O nome foi sugerido pelo escritor, poeta e letrista Nico Queiroz, que lidera o movimento ao lado do músico Zé Brasil (Apokalypsis) e da cantora Silvia Helena.

O braço musical é a banda 70 de Novo – atração da exposição “SP_Rock_70_Imagem”. Conta com Brasil, Cezar de Mercês (ex-O Terço), Gerson Conrad (ex-Secos & Molhados), Pedro Baldanza (ex-Som Nosso de Cada Dia) e Silvia Helena. “O show 70 de Novo tem como objetivo reapresentá-los ao público atual que se interessa pela cultura musical e visual dessa época e para quem teve oportunidade de participar daqueles acontecimentos nos anos 70. É um resgate histórico, uma oportunidade de entretenimento cultural para todos os envolvidos e uma interação de gerações que se identificam com a proposta 70 de Novo”, diz Zé Brasil.

Formação do Apokalypsis em 1975

O Apokalypsis durou de 1974 a 1979 e fez parte da onda progressiva que tomou conta do rock paulistano na segunda metade da década de 70. A banda talvez tenha sido a que mais avançou na área progressiva entre suas contemporâneas – mais até do que o Som Nosso de Cada Dia. Em 2005 a banda lançou o CD “1975”, pela Natural Records (selo de Zé Brasil) com a gravação de um show realizado naquele ano.

Zé Brasil resiste um pouco a considerar o show de 23 de março, no encerramento da exposição  “SP_Rock_70_Imagem”, como o ponto alto do “supergrupo” de rock setentista. “Todo show, todo encontro é um ponto alto deste projeto. O que nasceu de forma despretensiosa em um bar cresceu por conta do interesse das pessoas em escutar a música que fizemos na década de 70. Ainda tem público interessado nesses trabalhos. Mais do que resgatar as músicas, tentamos recriá-las e mostrar a qualidade delas, que as fazem atuais e interessantes quase 40 anos depois.”

Além do saudosismo, o movimento ainda apresenta resquícios de um romantismo nostálgico que ainda persiste em algumas áreas culturais – não que isso seja ruim, ao contrário. Faz parte do contexto e o 70 de nOvo faz questão de preservar esse elemento, como é possível perceber em um não tão antigo texto de divulgação do movimento, ainda que um pouco exagerado:

“Entre todas as formas de resistência contra a ditadura uma das mais interessantes e atuantes foi a ação do underground brasileiro, ou melhor, do udigrudi tupiniqim. Os artistas e simpatizantes empreenderam uma verdadeira guerrilha cultural a favor da liberdade em todos os seus aspectos. Os jovens rockeiros cabeludos constituíram uma dessas falanges idealistas. Pouco divulgada e muito reprimida na época, essa moçada conseguiu realizações importantes que inspiraram as gerações que a sucederam, propiciando a explosão do rock nacional nos anos 80.”

Zé Brasil (FOTO: RAFAEL CONY)

A aura underground permanece. O músico reforça o espírito batalhador de quem sente no bolso e na logística as dificuldades de apresentar um trabalho que ainda desperta pouco interesse comercial. O jeito é continuar a ser independente e usar o saudosismo para se divertir e, quem sabe, catapultar outros projetos, como a gravação do CD “Cabelos Dourados”, que tem a faixa-título como principal atrativo.

“Essa é uma parceria minha com Arnaldo Baptista logo que ele saiu dos Mutantes, em 1974. Achei essa música em casa não faz muito tempo e pensei que era o momento de gravá-la. Ela capta bem o momento da época, quando o Arnaldo estava criando o projeto Space Patrol, que virou logo depois o Patrulha do Espaço”, relembra Zé Brasil.

Apesar de eventos distintos, o Movimento 70 de nOvo e a exposição “SP_Rock_70_Imagem” se conectam pela participação de Zé Brasil em ambos. Ele é um dos entrevistados do documentário dirigido por Moisés Santana e pode ser considerado uma das principais fontes quando o assunto é rock brasileiro setentista. “Trabalhei comos principais nomes da cena e vi a coisa boa que foi criada. Presenciei momentos importantes da música brasileira e lamento que não tenha tido o reconhecimento que merecia. E se existe gente que se interessa por esses trabalhos, nada melhor do que alguns de seus protagonistas recuperarem esse legado.”

 

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