Um encontro de irmãos há 40 anos mudou a história do rock australiano e mundial

Estadão

02 de julho de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

O Velvet Underground caminhava, mais uma vez, para a irrelevância, e o guitarrista Malcolm Young, pela primeira vez, estava sem saber o que fazer com a sua carreira de músico. O cenário de Sydney, uma das grandes cidades australianas, não inspirava muita confiança – ele conhecia todo mundo, já tinha tocado com todo mundo, e nada parecia engatar.

Seu irmão mais novo, Angus, também guitarrista, apareceu na sala de estar da casa da família e contou-lhe os problemas em suas bandas, como falta de talento e de comprometimento. Respirando fundo, Malcolm decidiu que era hora de tentar alguma coisa ao lado do irrequieto, talentoso e performático Angus, por mais que os dois brigassem muito ente si em casa, na rua e nos bares. Essa foi a decisão mais importante da história da música australiana.

Malcolm e Angus decidiram formar uma banda no começo de 1973. No final daquele ano, ganharia o nome de AC/DC. Os dois divergem sobre a origem do nome nops principais livros sobre a banda, mas a versão mais aceita é que a sugestão veio de uma das irmãs mais velhas, que teria lido a expressão (sigla de corrente alternada-corrente contínua, em inglês) em uma etiqueta em um aspirador de pó.

AC/DC atual: da esq. para a dir., Cliff Williams (baixo), Phil Rudd (bateria), Brian Johnson (vocais), Angus Young (guitarra) e, agachado, Malcolm Young (guitarra). FOTO: DIVULGAÇÃO

Com Dave Evans nos vocais e uma série de bateristas e baixistas que passaram pelo grupo em menos de um ano, os irmãos Young transformaram um quinteto garageiro em um dos mais importantes da história do rock. São 40 anos de fúria, potência e riffs maravilhosos, despejados sem dó. É um imenso trator sonoro que passa devastando as estruturas de estádios e ginásios.

Dave Evans não durou muito, graças a algumas brigas e rusgas com Angus, e foi substituído por então motorista de van que já tinha sentido um gostinho de ser cantor de rock com The Valentines e outras bandas no final dos anos 60 e começo dos anos 70. Bon Scott era alma que faltava ao rock barulhento e pesado do AC/DC.

Finalmente efetivado no início de 1975, o novo vocalista mostrou carisma, competência e qualidade como letrista. Logo a banda seria a número um na Austrália, embora demorasse mais três anos para consolidar seu nome na Inglaterra e na Europa. Os Estados Unidos só seriam definitivamente conquistados a partir de 1979.

Scott morreu em fevereiro de 1980, mas o que deveria ser o fim da linha se tornou o combustível para que o AC/DC se tornasse um fenômeno mundial já com Brian Johnson. A dor da perda de um amigo e parte vital de uma estrutura gerou uma das obras-primas do rock pesado, “Back in Black”. O quinteto subiu de patamar: de gigante passou a ser monstruoso.

Angus e Malcolm sempre trabalharam para isso, mas jamais imaginariam que aquela decisão na acanhada sala de estar da casa dos pais 40 anos atrás pudesse levar ao estrelato de forma tão magistral. O irmão caçula sempre dizia, de forma presunçosa, que o AC/DC seria a maior banda do mundo, Malcolm até ria, mas concordava em parte. O quão longe chegaram era inimaginável.

Somente uma pessoa tinha certeza que iriam atingir o patamar de lendas: George, um dos irmãos mais velhos – era oito filhos, todos nascidos na Escócia, sendo Malcolm e Angus os mais novos. Sete anos mais velho do que Malcolm, George era a referência musical da família e um dos músicos-produtores mais famosos da Austrália no começo dos anos 70. Integrante da banda Easybeats, fez enorme sucesso entre 1964 e 1968 em seu país, até que a boa fase da banda foi acabando aos poucos.

Ao lado do amigo e colega de Easybeats Harry Vanda, formou uma requisitada dupla de produtores de música pop, e foi o grande incentivador da união dos irmãos mais novos. No começo do AC/DC, acompanhou de perto os shows e as primeiras gravações do iniciante e jovem grupo. Sentiu o potencial e acolheu o grupo para burilar as pedradas pesadas e transformar a energia em algo vendável. Foi produtor, empresário e também músico do grupo, tocando vários instrumentos em estúdio.

“Nunca tive dúvidas de que seriam grandes. Mas quando os vi nos palcos em 1976 e 1977, percebi que seriam gigantes. Não havia nada igual ou levemente parecido no mundo”, afirmou George Young no livro “AC/DC – Rock’n’nroll ao Máximo”, de Murray Engleheart e Arnaud Durieux.

O gigante segue mantendo a qualidade e a energia do começo de carreira, mas os álbuns e as turnês têm sido menos frequentes. O último CD é “Black Ice”, de 2008, sendo que o combo CD/DVD “Live at River Plate”, gravado ao vivo na Argentina, foi lançado no final de 2009. Antes disso, somente “Stiff Upper Lift”, de 2000.

Há rumores de que novo álbum de inéditas surgirá em 2014 ou começo de 2015. Ninguém confirma. Nem Malcolm nem Angus acusam o peso dos 40 anos de carreira, mas está claro que a existe cada vez menos disposição para turnês mundiais de dois anos, como a de “Black Ice”. Aposentadoria? Parece ainda estar longe, e ainda bem.

Além do livro já citado, lançado no Brasil pela Editora Madras, que é a melhor biografia da banda em português, outra opção é “Let There Be Rock – A História do AC/DC”, da jornalista norte-americana Susan Masino. Não é detalhado ou completo como o primeiro livro citado, mas tem um diferencial: está recheado de relatos e anedotas pessoais da autora, amiga íntima de todos os integrantes.

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