Um agradecimento ao Restart, o 'Black Sabbath' com emoção

Estadão

09 de setembro de 2011 | 06h51

Marcelo Moreira

“Só tenho a agradecer ao Restart. Essa banda ensinou meu filho a gostar de música boa e decente, coisa que eu não consegui até hoje.” A frase caiu como uma bomba na noite da última quarta-feira, durante um churrasco de aniversário à espera do jogo Atlético-PR e Palmeiras, que foi transmitido pela TV.

Fazia tempo que os xiitas do metal não se reuniam no bairro de Santana, na zona norte de São Paulo. Só se falava no show imperdível que reuniria Judas Priest e Whitesnake neste sábado, e aí o João Carlos, contador de competeência incomparável, saiu com essa, após saber das vaias que o quinteto emo de qualidade nula tinha sido vaiado na entrega do prêmio Multishow – o Restart ganhou como melhor clipe e melhor álbum (???????).

“Esses moleques não tocam nada e sua música é algo tão infantil e tão ruim que deveriam ser enviados para qualquer limbo. Só que eles fizeram um bem danado para o Marquinhos (seu filho de 12 anos): O Restart fez o meu filho gostar de Black Sabbath”, disse João Carlos,para confusão e estupefação do grupo de oito amigos reunidos em torno de um iPod que explodia ao som do novo álbum do Dream Theater, “A Dramatic Turn of Events”.

A explicação é a mais estapafúrdia possível: em maio, o joral paranaense Diário de Maringá repercutiu com os integrantes do Restart, que fariam show na cidade, uma crítica do baterista do Angra e do Shaman, Ricardo Confessori, de que a banda fazia um “rock infantil”. “Eu até gosto de Angra, mas estou farto de preconceito. Somos roqueiros e gostamos de rock. Ouvimos muito Black Sabbath e depois fazems as nossas músicas com emoção”, disse ao jornal o guitarrista Pe Lanza.

Foi o suficiente para que a internet reperticusse, de forma deturpada, a seguinte informaçâo: “guitarrissta do Restart diz que a música da banda é ‘Black Sabbath’ com emoção”. O equívoco só reforçou a ojeriza de parte expressiva do público roqueiro à bandinha emo de laboratório, além das esperadas gozações de praxe.

Quem diria que o Black Sabbath ganharia uma versão com "emoção" no Brasil...

Só que o garoto filho de João Carlos, até então fã de carteirinha do Restart, acompanhou a polêmica e se interessou em saber quem era o tal do Black Sabbath. Apaixonou-se pelo som da guitarra de Tony Iommi, baixou todos os álbuns da fase Ozzy Osbourne pela internet e fez opai gastar uma boa grana em uma guitarra Gianini de segunda mão e em 12 CDs da banda na Galeria do Rock. “Nunca me senti tão feliz gastando dinheiro com rock  naquele final de semana”, disse o pai, ex-baixista de parcos recursos que tocou em bandas pop e de samba na zona norte nos anos 80.

O som do Restart é abominável e, de certa forma, prejudicial à saúde auditiva – em texto mais antigo, eu até questionei se ouvir Restart servia como porta de entradapara se ouvir rock decente, no caso de criança e adolescentes. Mas não dá para ignorar: pelo menos uma única vez na vid a o Restart serviu para alguma coisa: induziu ao menos um garoto a procurar infomação sobre uma banda realmente que vale a pena.

Quase quatro meses depois da polêmica, marquinhos praticamente nem lembra que existe Restart. Deixou o cabelo crescer e ganhou um presente do pai  depois que conseguiu tocar a sua primeira música completa: o hino “Paranoid”. Também já toca com certa habilidade “Mob Rules”, “Neon Knights” e “N.I.B.”, todas da banda de Ozzy Osbourne.

Jamais pensei que escreveria isso aqui no Combate Rock algum dia: obrigado, Restart. Pelo menos serviu para alguma coisa.

 

 

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