Trio sueco entre o ensolarado e o sombrio

Estadão

14 de agosto de 2011 | 16h36

Pedro Antunes

Vindo da gelada Estocolmo, o trio de indie rock Peter, Bjorn and John nunca teve medo de experimentar. Em 2008, por exemplo, eles abriram mão dos vocais para colocar no mercado o disco Seaside Rock, totalmente instrumental.

Um instrumental ensolarado, diga-se de passagem; ainda assim, uma ousadia se pensarmos que essa aposta sucedeu o terceiro aclamado Writer’s Block, do ano anterior, cuja terceira faixa, Young Folks, é uma espécie de hino do indie pop fofo dos anos 2000. O assovio que abre a música conquistou até o rapper Kanye West.

“Ainda tocamos essa música. Em shows grandes é mais comum. Nos menores, às vezes, preferimos apresentar coisas mais raras, lado b”, explica Peter Morén, vocalista e guitarrista do trio. Mas, como é comum quando uma banda tem um grande sucesso, a relação do grupo com o seu maior clássico tem altos e baixos.

Agora, os rapazes estão de bem com a canção, garante Morén, e eles devem executá-la em São Paulo, no festival Planeta Terra, que será realizado no Playcenter, no dia 5 de novembro deste ano.

O repertório, porém, será baseado no ótimo Gimme Some, sexto disco do grupo, lançado agora no Brasil, pelo selo Vigilante. O álbum tem momentos ensolarados que lembram muito a micareta indie feita pelo Vampire Weekend, de Nova York (EUA), mas, aos poucos, vai ganhando mais densidade, com letras tristes e a guitarra de Morén levando o ouvinte para algo mais nebuloso.

O que o vocalista e guitarrista mais gosta na liberdade do pop, seja ele mainstream ou alternativo, é a capacidade de adaptação da canção. Ela pode, ao mesmo tempo, despertar alegria e tristeza? O disco Gimme Some prova que sim. “Esse é o grande milagre do pop!”, diz ele, entusiasmado.

“As boas músicas pop têm um pouco de melancolia. Afinal, a vida nem sempre é feliz, nem sempre estamos com um sorriso no rosto. Mas também não é sempre triste. Existe esse balanceamento. Gimme Some é como nosso cotidiano”.

Harmonicamente, o novo trabalho do trio sueco traz essa alegria ponderada. A guitarra de Morén e baixo de Björn Yttling conduzem um som leve, marcado ao fundo pela bateria singela de John Eriksson. A voz de Morén é desleixada e lamuriosa e quebra a delicadeza do instrumental.

Mas são suas letras, normalmente escritas de forma “vomitada e furiosa”, segundo ele, que trazem a melancolia do disco. Tratam de solidão e fim de relacionamento de forma direta, vide I Know You Don’t Love Me, faixa que encerra o disco.

O próprio trio produziu os cinco primeiros álbuns, em 12 anos de banda. Quando começaram a gravar o novo disco, no ano passado, decidiram, de comum acordo, segundo Morén, procurar uma quarta opinião. O escolhido foi Per Sunding, da também sueca Eggstone, uma precursora da cena de indie pop em seu país.

“Gostávamos muito do trabalho dele. Dissemos a ele que queríamos soar como se estivéssemos no palco. Com uma sonoridade crua”. A experiência foi aprovada. “Foi ótimo. Pudemos nos preocupar apenas com a música, com o que iríamos tocar. Definitivamente, faremos um próximo álbum assim”, garante ele, apesar de não imaginar voltar aos estúdios tão cedo.

A princípio, Gimme Some deveria ser um disco de punk. No fim, num balanço de todo o trabalho, ainda se trata de um pop mais pesado, algo como o power pop de bandas como o Teenage Fanclub, do início dos anos 90. “Sim, é uma música mais agressiva do que a que fizemos no disco anterior (Living Thing, de 2009). São músicas curtas. A liberdade que tivemos no estúdio nos fez voltar ao som do nosso começo, no fim dos anos 90. Vamos ver o próximo”. No caso do trio, arriscar normalmente funciona.

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