Trinta e cinco anos sem Keith Moon, o mestre insano da bateria

Estadão

08 Setembro 2013 | 16h14

Marcelo Moreira

Uma banda iniciante, mas com muito gás, toca alucinadamente clássicos do rhythm and blues norte-americano em um pardieiro no oeste de Londres. O quarteto até que é bom, mas o baterista, mais velho que os moleques da frente, sua literalmente para acompanhar o ritmo.

Ao final da apresentação, o cara está esgotado, enquanto os três moleques vibram com o show energético. Antes mesmo de desligar a guitarra do amplificador, o guitarrista escuta um garoto feio, narigudo e cheio de espinhas, com um cabelo ridículo e vestido de forma cafona berrar que o baterista da banda é péssimo e que toca muito melhor.

O guitarrista é arrogante e pedante e detesta ser desafiado. Mandou o moleque sentar na bateria. Quatro minutos depois, o instrumento estava em pedaços e o garoto feio contratado. Foi assim que Keith Moon entrou no Who aos 17 anos de idade, em uma noite fria e chuvosa de 1964 – o grupo ainda atendia pelo nome de High Numbers. Doug Sandom, o demitido, sumiu do mapa. ´

A última semana de maio de 2013 marcou os 35 anos da última aparição do gênio da bateria do Who ao vivo, em um palco, com seus colegas, no Shepperton Studios, em Londres. O Who tocou “Baba O’Riley” e “Won’t Get Fooled Again” para um seleto público de amigos e fãs da banda, e as duas performances foram gravadas e incluídas no documentário “The Kids Are Alright”, lançado em 1979.

Quatro meses depois de tocar pela última vez ao vivo, Moon morreria em Londres, no dia 7 de setembro, vitimado por uma overdose acidental de remédios – foi no dia 7 de setembro de 1978. O baterista estava feliz, apesar de ter incomodado alguns convidados de Paul McCartney no lançamento de um documentário sobre Buddy Holly, na noite anterior. Trinta e cinco anos sem o mestre insano da bateria.

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Deus do instrumento, ele simplesmente era o ídolo de John Bonham, do Led Zeppelin, que era apenas um ano mais novo. Com seu jeito alucinado de tocar, com as viradas impossíveis e os andamentos improváveis, mudou o jeito de se tocar bateria no rock, asim como John Entiwistle, seu companheiro de banda, revolucionou o baixo.

Nos dois primeiros álbuns do Who – “My Generation” e “A Quick One” – a força rítmica da dupla conduzia as bases pesadas e rápidas de guitarra criadas por Pete Townshend, o líder, mentor e principal compositor do grupo. Moon não só conduzia, como inovava e criava passagens que surpreendia até mesmo os produtores mais experimentados de álbuns. O jeito alucinado e anárquico virou sinônimo de virtuosismo e inovação, o que era verdade.

O seu modo de tocar era reflexo de sua vida pessoal conturbada e acelerada. Adorava sacanear com todos, bebia além da conta, batia em seguranças, quebrava quartos de hotel, jogava carros em piscinas de hotéis e até  atropelou e matou seu motorista e segurança quando saía de um clube nortuno em Londres, em 1970.

A vida insana de excessos foi demais para a esposa , uma modelo britânica, e para a filha de três anos, que o abandonaram em 1973. Neste mesmo ano, mudou-se para Los Angeles, o que só piorou a situação.

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Ao final deste mesmo ano, em um show em San Francisco, após mais excessos de bebidas e tranquilizantes para cavalos (!!!!!), desmaiou durante a execução de uma música. Retirado desacordado, tentou retornar após 15 minutos, mas desmaiou de novo. Irritado, Pete Townshend não pensou duas vezes: ao microfone, chamou alguém da platéia que soubesse tocar bateria para terminar o show.

Um maluco de 17 anos, indicado pelo colega, chamou a atenção do guitarrista e a plateia insuflou Scott Halpin, petrificado de medo e vergonha, para subir ao palco. Halpin conseguiu de forma lamentável tocar três músicas e encerrar o trágico show.

Por ironia do destino, quando parecia ter tomando um pouquinho de juízo, mantendo-se na maior parte do tempo sóbrio, acabou morrendo acidentalmente em 7 de setembro de 1978, ao ingerir um excesso de pílulas que usada em tratamento contra o alcoolismo.

Moon estava feliz ao lado da modelo sueca Anette Walter-Lax. Tinha acabado de gravar e lançar “Who Are You”, álbum do Who mais voltado para a música pop e se mostrava em forma na bateria. No dia 6 de setembro tinha comparecido à premiére londrina do filme-documentário “Buddy Holly”, produzido e financiado por Paul McCartney. Passou longe da bebida, mas perturbou muita gente com assuntos desconexos e piadas bobas.

Outra ironia: quem mais o tolerou naquela noite foi Kenney Jones, baterista dos Small Faces e dos Faces (banda que tinha Ron Wood e Rod Stewart). Jones estava prestes a ficar novamente desempregado, depois do fracasso do retorno dos Small Faces em 1976 (o grupo acabara em 1969). Mal sabia que seria o substituto de Moon no Who, escolhido sete meses depois por Pete Townshend, mesmo com a oposição do vocalista Roger Daltrey.

Nenhum baterista chegou ao menos perto da genialidade e criatividade do insano Moonie the Loonie. Seu discípulo, amigo e igualmente monstro e bêbado John Bonham preferiu outra vertente, investiu no peso e na técnica mais apurada, se transformando igualmente em lenda.

Pena que trilhou o mesmo caminho do companheiro, morrendo dois anos depois, também em um mês de setembro, (de 1980),  após um porre homérico de vodca na casa de Jimmy Page, onde ensaiava com a banda.

P.S.: Como curiosidade, os amigos e lendas Moon e Bonham tocaram juntos em uma única vez, em 23 de junho de 1977, em Los Angeles, quase no final do show do Led Zeppelin.Foi nas músicas “Rock’n Roll” e  ”Moby Dick”, no bis, que inclui um longo solo de John Bonham. Os dois tocaram de forma divina em um momento raro do rock. É possível encontrar na internet vídeos de qualidade muito ruim sobre o evento, assim como a gravação em MP3.

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