Três clássicos, um ano, uma gravadora

Estadão

09 de julho de 2011 | 07h32

Pedro Antunes

A magia vinha de um prédio, de porta verde e de madeira, acanhado e perdido no meio do centro de Londres. Era a base da gravadora Creation Records. Dali, num mesmo ano, em 1991, viriam três discos que marcariam época, a música inglesa e, posteriormente, a mundial.

O underground subia à superfície sob a resguarda daquele selo ainda tímido frente às grandes potências do mercado fonográfico. Screamadelica, do Primal Scream saiu em setembro. Dois meses depois, chegaram os dois álbuns que faltavam do colossal trio da Creation Records: Loveless, do My Bloody Valentine, e Bandwagonesque, do Teenage Fanclub.

Cada um à sua maneira, incorporando novas influências, apresentou canções que quebraram os paradigmas de um carrancudo cenário musical inglês. Eles conseguiram espaço nas atenções da mídia mesmo disputando com o grunge americano do Nirvana, que, liderado por Kurt Cobain, ganhava o mundo com o disco Nevermind, também de 1991.

A única das bandas a comemorar os 20 anos dos lendários discos, porém, é a mais representativa delas até hoje. O Primal Scream tem percorrido o mundo tocando Screamadelica na íntegra – inclusive com uma atuação festejada no festival inglês Glastonbury, na semana passada, onde eles dividiram as atenções com o U2, que se apresentava naquele mesmo momento, em outro palco. A boa notícia é que o vocalista do Primal, Bobby Gillespie, e companhia estão confirmados para se apresentar em setembro em São Paulo, dentro do festival Popload Gig. O álbum ganhou nova remasterização e foi relançado em edição de luxo no exterior.

Da Escócia veio o power pop do Teenage Fanclub. Com um som mais sujo do que o executado agora, eles debutavam na gravadora, com o seu terceiro disco. E o que fez o quarteto topar trocar de gravadora, naquele momento? Norman Blake, guitarrista e um dos vocalistas da banda – ele, Raymond McGinley (guitarra) e Gerard Love (baixo) dividem os vocais – explica: “O que nos impressionou é que o Alan McGee (criador do selo) nos deu liberdade total para fazermos o que quiséssemos. Ele nos pagava e não se preocupava. Isso foi importante”, lembra Norman Blake, em entrevista ao JT.

O álbum deu tão certo que o concorrente direto, Kurt Cobain, fazia shows com a camiseta do Teenage Fanclub. “Esse disco nos fez tocar para grandes públicos, mudou a carreira da banda”, diz. Além de tudo, o álbum recebeu o título de melhor disco do ano pela revista americana Spin, à frente de Nevermind.

Das três bandas, apenas o My Blood Valentine não continuou o legado de Loveless. Depois dele, sucessor do Isn’t Anything (1988), os irlandeses não lançaram mais nenhum disco. Fizeram alguns shows em 2007 e 2009. O vocalista Kevin Shields chegou a anunciar que eles tinham um disco quase pronto, mas ele nunca saiu.

As experimentações nos três álbuns variavam. De uma ligação com o acid housse do Primal Scream, à distorção e à timidez do My Bloody Valentine e o pop fofo e sujo do Teenage Fanclub, todos são reflexo da política do selo que investiu, pela primeira vez, nas bandas alternativas. Culpa de Alan McGee, um escocês de 50 anos, que criou a gravadora em 1983. Em visita ao Brasil para ser DJ no Festival Cultura Inglesa, em maio, ele tentou explicar. “Era o melhor momento da gravadora (que contratou o Oasis, em 1994). Lançamos três grandes discos no mesmo ano. Foi estranho e mágico. A magia era a chave de tudo”. Bom, pelo menos ele tentou.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.