Tin Machine, o David Bowie que não deu certo

Estadão

30 de novembro de 2010 | 16h10

Marcelo Moreira

Um astro de rock super-criativo e dinâmico, mas que estava entendiado e cansado da mesmice dos anos 80, com seus excessos de produção dos álbuns e com o comercialismo dominando dava vez o mercado. Com saudades da simplcidade dos anos 70, rompe com tudo e decide ser apenas mais um em uma banda de rock pesado.

David Bowie deu uma guinada na vida em 1988. O astro pop inglês abandonou o sucesso até certo ponto fácil dos discos “Let’s Dance” (1983), “Tonight” (1984) e “Never Let Me Down” (1987), casou-se com uma modelo africana  e chamou amigos de longa data. Com Reeves Gabrels (guitarra), Tony Sales (baixo) e Hunt Sales (bateria e vocais), criou o Tin Machine, uma banda de hard rock onde Bowie apenas cantava e tocava saxofone.

Tin Machine I

O Tin Machine teve recentemente seus dois discos de estúdio remasterizados e remixados na Inglaterra. Estão sendo vendidos na Amazon.com e na loja virtual CD Universe. O terceiro álbum, o ao vivo “Oy Vey Baby”, de 1992, por enquanto está fora do pacote.

O Tin Machine é surpreendente pelo peso e pela simplicidade. Tendo como modelo os Stooges, de Iggy Pop, pais do punk rock no início dos anos 70, o quarteto apostou em um rock acelerado e com guitarras na cara, além de uma bateria marcante e martelada em algumas músicas. Deu certo, mas principalmente por causa de Bowie.

“Tin Machine” foi gravado rapidamente e lançado em 1989 contendo várias músicas excelentes, como “Heaven’s in Here”, “Under the God”, “Amazing” e uma visceral versão para “Working Class Hero”, de John Lennon. As letras estavam mais raivosas e as melodias construídas por Gabrels eram marcantes.

O sucesso foi absoluto e rendeu uma bem-sucedida turnê norte-americana. Um breve intervalo para ajudar o amigo Iggy Pop na gravação e produção do album deste, “Lust for Life”, e mais turnê, desta vez pela Europa.

Tin Machine II

O qurteto resolveu dar uma pausa, enquanto Bowie cumpria compromissos na utbrê solo “Sound + Vision”, de 1990. Ao final desta, não parou: entrou logo em estúdio para gravar “Tin Machine II”.

O peso e as letras inspiradas ainda estavam lá, mas a mão de Bowie marcou grande presença no direcionamento mais pop do grupo, o que desagradou Reeves Gabrels, sem muito espaço para sua guitarra inventiva e barulhenta.

Longe de ser ruim, o álbum tem grandes momentos, como “You Belong To Rock’n Roll”, “If There is Something” (versão para uma canção do Roxy Music), “Baby Universal”, “Goodbye Mr. Ed” e o ótimo blues “Stateside”, cantada pelo baterista Hunt Sales.

Ao contrário do primeiro, as vendas decepcionaram. Gabrels afirmou em 1995 que a banda acabou porque o direcionamento acentuadamente pop afugentou um público diferenciado conquistado em 1989 com a mistura de hard rock e blues do primeiro álbum. Já Bowie afirmou que as músicas compostas ficaram aquém do que ele esperava em qualidade. O rompimento, amigável, ocorreu no começo de 1992. 

Oy Vey Baby - Live

“Oy Vey Baby”, lançado no final daquele ano, também fracassou nas vendas. É um bom disco, mas não captou a essência da banda, que estava a todo vapor na turnê do primeiro disco. Esse disco ao vivo traz alguns momentos pinçados durante a turnê europeia de “Tin Machine II”. O grupo estava bem, mas sem a energia demonstrada nos shows iniciais.

De qualquer forma, o Tin Machine é uma das boa surpresas da carreira de David Bowie, marcada por viradas importantes e direcionamentos bastante criativos ao longo de 44 anos.

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