Tim Rice Superstar

Estadão

23 de março de 2013 | 18h15

Ubiratan Brasil – O Estado de S.Paulo
Sir Tim Rice adora desafios. Gosta, na verdade, de ostentá-los na forma de prêmios. O inglês de 68 anos que chega a São Paulo no dia 25 para a estreia da versão nacional de um de seus maiores sucessos, o musical O Rei Leão, tem duas enormes caixas em seu escritório cheias de Discos de Ouro e outras estatuetas reluzentes, recebidas ao longo de quase cinco décadas de uma carreira de sucesso – e ousadias.
Cena do espetáculo 'O Rei Leão' - Divulgação
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Cena do espetáculo ‘O Rei Leão’

Afinal, são dele as letras das ‘pecaminosas’ canções de Jesus Cristo Superstar, ópera-rock de 1970 que fez a Igreja estrilar por conta da paixão de Madalena pelo filho do Senhor, além da vulgarização de cultos messiânicos. Ou mesmo Evita, outro fruto da parceria com Andrew Lloyd Webber, que tornou mundialmente conhecida outra mártir, a dos argentinos. “Gosto de me reinventar”, diverte-se Timothy Miles Bindon Rice em conversa por telefone com o Estado. É o que explica, por exemplo, seu próximo projeto, uma versão musical de A Um Passo da Eternidade, história de soldados americanos durante a 2.ª Guerra Mundial já filmada nos anos 1950, mas sem as insinuações de homossexualismo que agora constarão em sua versão. Ou ainda uma peça sobre a tragédia pessoal do escritor florentino Nicolau Maquiavel, que mostrou como a política obedece a uma lógica própria, nem sempre a mesma dos atos humanos. Em São Paulo, Rice vai conhecer a versão brasileira de um de seus grandes sucessos, O Rei Leão, primeira parceria com Elton John, em 1997 – eles voltariam a se encontrar três anos depois, em Aída, sem repetir, porém, o êxito anterior. O Rei Leão ainda é uma exceção entre os musicais. Para se ter uma ideia, está em cartaz há 16 anos e já faturou, no mundo todo, cerca de US$ 4,8 bilhões, batendo nas bilheterias um super peso pesado, O Fantasma da Ópera, que está há muito mais tempo na estrada – estreou em 1986. Com estreia marcada para o dia 28, no Teatro Renault, o musical dirigido por Julie Taymor será também a maior produção do gênero no Brasil, realizada pela Time For Fun. Sobre o trabalho, Rice – um amante de críquete, a ponto de formar a própria equipe em 1973 – concedeu a seguinte entrevista. Como foi trabalhar com Elton John em O Rei Leão? Foi ótimo, sempre fui fã dele, o que facilita a identificação – já conhecia bem suas músicas, assim, sei como funciona seu gosto musical. No total, entre O Rei Leão e Aída, trabalhamos em algo como 30 ou 40 músicas. Mas foi uma parceria fácil? Foi difícil no início, pois estou habituado a escrever a letra com a melodia já composta. Com Elton, eu não tinha nenhuma pista pronta, apenas um papel em branco à minha frente, pois ele prefere o contrário, ou seja, criar a música com a letra já escrita. O que me ajudou foi ter discutido a história com a equipe de produção, que me permitiu compreender o espírito da história. Como foi a criação de uma canção tão importante como O Círculo da Vida? Foi um processo criterioso. Sabíamos o que cada música tinha de expressar e, numa primeira versão, O Círculo da Vida era mais específica no tocante aos diferentes animais, mas não funcionou. Elton também criou uma melodia muito bonita, mas claramente desesperançada. Assim, decidimos seguir um novo rumo: escrevi uma letra mais séria e tive o privilégio de acompanhar Elton compondo: no estúdio, ele leu a letra várias vezes, testando melodias. Foi fascinante. Uma hora e meia depois, o trabalho ficou pronto. Ele estava tão envolvido que me pediu até para criar mais um verso, para que a canção ficasse mais alegre. Ele estava certo, pois músicas engraçadas precisam rimar – as sérias, nem sempre. A versão brasileira foi feita por Gilberto Gil. Vocês conversaram sobre a tradução? Não falei com ele, adoraria que ele tivesse me telefonado para tirar alguma dúvida, pois é um músico muito famoso e respeitado. Espero conhecê-lo pessoalmente, quando estiver aí para a estreia brasileira. Comenta-se que as letras em um musical representam o trabalho mais difícil. Você concorda? Não é apenas mais difícil como também muito importante, pois o objetivo é contar uma história. Se você consegue fazer isso, meio caminho está percorrido. Veja bem, o sucesso de um musical depende exclusivamente do balanço entre uma boa história e uma ótima trilha. Na criação de um musical, vem primeiro a letra ou a música? Em musicais, o normal é que a trama esteja definida para então se pensar na música. A exceção foi Elton John, que indiquei para a Disney para O Rei Leão. Quando ele estava contratado, tivemos uma primeira conversa por telefone em que perguntei se tinha músicas guardadas – sempre acreditei que artistas como ele têm material guardado. Para minha surpresa, ele respondeu: “Jamais escrevo uma música sem ter a letra”[LLOYD WEBBER]. O seu estilo de trabalhar varia de acordo com o parceiro do momento? Sim, alguns compositores são mais românticos, outros ligeiramente mais cômicos, há ainda os dramáticos. Mesmo que não queira, você é obrigado a se adaptar ao estilo do criador das melodias. Sempre tentei escrever letras que têm um sentido quando lidas. É quase como um teste ler a letra de uma música para ver se é convincente. O senhor iniciou sua carreira ao lado de Andrew Lloyd Webber, mas depois ficou mais espaçada a parceria. O que houve? Depois de Evita, que fizemos em 1976, ele decidiu fazer Cats, que não exigia letra especialmente composta pois utilizava a poesia de T.S. Eliot. Uma decisão acertada, pois o musical se tornou um imenso sucesso – talvez não tivéssemos a mesma sorte em nossas carreiras se ficássemos juntos. Há algum arrependimento em relação ao seu trabalho? Pergunto isto por causa de Evita, que foi um trabalho muito contestado. Evita foi algo muito positivo. Claro que não imaginava isso no começo, pois foi um trabalho muito exigente, só tive a certeza no final, com o sucesso garantido. Gosto especialmente de Não Chore por Mim, Argentina. Fiquei muito feliz com a letra. A principal crítica no caso era de que havia uma série de clichês. Mas foi escrita como uma cena de um espetáculo e não como um single pop. Os musicais são produções cada vez mais caras, com efeitos especiais. Qual a sua opinião? Musicais serão mais populares, especialmente em teatros. E a explicação é simples, mas verdadeira: porque são espetáculos encenados ao vivo, com música executada na frente do espectador. Isso oferece uma experiência cada vez mais sensorial ao público, mais acostumado a dispor de material digital. Aliás, creio que esse pode ser o risco do cinema no futuro, já que um show apresentado ao vivo é diferente a cada dia, oferece uma experiência única, o que sacia o tipo de plateia que temos hoje em dia, cada vez mais ávida por novidades e exclusividades. O senhor ainda costuma assistir a musicais? Sim, gosto muito de ver novos projetos, mas sempre alternando com peças do repertório tradicional. Ultimamente, porém, tenho me dedicado mais à ópera. Recentemente vi todo o Anel de Wagner, mais de 15 horas de puro prazer. E como vai sua adaptação para musical do filme clássico A Um Passo da Eternidade? Trata-se de uma adaptação do romance de James Jones, de 1952, que inspirou o filme de Fred Zinnemann. Como todos devem saber, conta histórias de amor e tensão entre soldados americanos que estavam no Havaí, em 1941, quando aconteceu o ataque japonês que ficou conhecido como Pearl Harbor. Há muita tensão na trama entre os soldados e, como alguns deles eram gays, a versão do cinema não pôde mostrar isso por conta da censura da época. Eu preferi me manter fiel ao original, conservando esse tipo de amor que, muitas vezes, era latente. É um espetáculo adulto, mas com muito humor. Mania de grandeza * 50 milhões de reais é o custo total que teve a Time For Fun na produção da versão nacional de O Rei Leão * 11 milhões de reais daquela quantia foram conseguidos por meio das leis de incentivo Fiscal * 66 milhões de espectadores já assistiram ao musical em todo o mundo, onde foi encenado em 15 países * 57 atores é o total do elenco que in
clui oito africanos. Eles preservam o idioma nas canções Originais

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