Thurston Moore mostra novo álbum em São Paulo

Estadão

14 de abril de 2012 | 12h00

Roberto Nascimento

Não há limites para a sede criativa de Thurston Moore. Em um show nada menos que demolidor, realizado nesta quinta-feira, no Cine Joia, o mestre guitarrista transitou de forma imprevisível entre canções e devaneios experimentais, indicando que o provável fim de sua banda, o Sonic Youth, em nada minou sua produtividade.

Aliás, se Thurston ainda não se esgotou aos 53 anos – 30 deles passados construindo um currículo brilhante, que o coloca entre os grandes compositores do século 20 –, é provável que isto nunca aconteça. O repertório de quinta-feira teve foco nas canções acústicas de seu excelente último disco, Demolished Thoughts, de 2011.

Tocadas com violões de aço, de seis e de 12 cordas, acompanhadas por violino, bateria e guitarra, as composições ganham a voltagem necessária para terem vida fora do disco e, ainda assim, mantêm o intimismo acústico.

Em um violão, as harmonias antiortodoxas de Thurston lembram Bartók. São releituras de uma linguagem tradicional, impulsionadas por um cacoete harmônico dissonante e familiar ao mesmo tempo: quando Thurston saca o 12 cordas, o que se ouve é algo como uma moda de viola vinda de um sertão paralelo.

Thurston Moore toca no cine Joia, em São Paulo (Foto: JB NETO / AE)

Mal nos acomodamos com esta onda prazenteira e a banda embarca em delírio experimental, fritando cordas, palhetas e castigando tambores na construção de uma parede sonora corrosiva e dissonante. Outra canção e mais um devaneio. Desta vez, criam um zumbido dilacerante, modulado por pedais e microfonia, que dura alguns minutos, antes que Thurston, quase cínico, volte para a tranquilidade bucólica com In Silver Rain With A Paper Key.

Nesta quinta, foi a calma antes da tempestade. E progressivamente, tocando canções de Demolished Thoughts e Psychic Hearts, disco de 1995, a banda escureceu a pegada, densificou os timbres e se entregou ao caos. Estopim para momentos negros de perversão sonora que nos deixam hipnotizados pela intensidade brutal, quase perniciosa, não de um moleque angustiado, mas de um roqueiro de 50 anos.

Antes que tudo enveredasse pelo caos, acabasse por se dissolver em um magistral improviso de microfonia (daqueles que fazem o desgaste dos tímpanos valerem a pena), Thurston fez um cover de It’s Only Rock And Roll (But I Like It). Conta-se nos dedos da mão direita quantos músicos conseguem reler uma canção tão batida com tanto espírito. Thurston vale pelo indicador e pelo médio.

Mais cedo, para o show de abertura, o Joia recebeu uma ótima apresentação do roqueiro indie com pé no rock setentista, Kurt Vile. O cantor lembra todos os grandes da época – Springsteen, Dylan, Young, Reed – ao mesmo tempo em que sua banda tem raízes no rock alternativo: Thurston e o Sonic Youth, por exemplo, são seus padrinhos musicais.

Sua banda, os Violators, toca deliciosamente arrastada, deixando espaços a serem preenchidos por camadas de distorção e pela voz propositalmente cansada de Vile. Dono de uma extensa cabeleira setentista, o cantor vez ou outra nos dá a sensação de que está se escondendo atrás das mechas.

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