The Who, a trilha sonora do nosso caos

Estadão

16 de agosto de 2013 | 06h56

Luiz Antonio Mello* – publicado originalmente no site Garota FM

who_pic_21.tifThe Who nasceu em 1964 como The High Numers, mas foi no ano seguinte, já com o novo e lendário nome, que entrou em estúdio para gravar seu primeiro disco “Sings My Generation”. Não conheci a banda atravaés deste disco, mas em “Live at Leeds”, o melhor disco ao vivo que já ouvi (até hoje), lançado (nas coxas) no Brasil no mesmo 1970.

O impacto do Who em minha vida foi imediato. Gastei o vinil “Live at Leeds”. Depois, com 15 anos, peguei uma barca e fui até as lojas de Copacabana onde comprei “Tommy” importado (de 1969) e, aí sim, “Sings My Generation”. Eu tinha uma professora de inglês linda e caridosa que fez a gentileza de traduzir “Tommy” para mim. Não, ela nunca me deu mole, mas suas letras redondas e simétricas naquele papel me deixavam louco. A mim e aos outros 44 alunos da turma.

Aquele que não viveu o caos da adolescência está mentindo ou bebeu querosene de aviação. Pois Pete Townshend, meu herói, giga poeta, guitarrista, compositor, cantor, escritor, cineasta, que fez 68 anos no dia 18 de maio, escrevia e escreve sobre o caos existencial. Ele mesmo era a personificação desse vulcão emocional que, dizem, engole todos os não imbecis do planeta.

The Who só tinha cachorro grande em sua formação. Pete Townshend, líder, Roger Daltrey (vocal e gaita), Keith Moon (bateria) e John Entwistle (contrabaixo). Com essa formação a banda demoliu o festival “Monterey Pop”, em 1967, “Woodstock” (1969) e “Ilha de Wight” (1970). Para Townshend e Moon, demolir era destruir palcos, guitarras, kits de bateria e amplificadores por onde passavam, um hábito que marcou a banda.

Moon (que batizou o Led Zeppelin), doido do bem, foi considerado várias vezes o melhor baterista da história do rock. Morreu em 7 de setembro de 1978, aos 31 anos. Ele estava tentando se livrar do alcoolismo e tomava um remédio para inibir a fissura. Na noite de 6 de setembro, ele e sua mulher jantavam com Paul e Linda McCartney, em Londres, e na madrugada de 7 de setembro, no meio da madrugada, Moon resolveu comer um pedaço de cordeiro. Teria bebido, dizem. Morreu intoxicado.

Eu estava de plantão no departamento de Jornalismo da Rádio Jornal do Brasil nesse dia. Para a minha sorte, o plantão era chefiado por Cezar Motta, grande jornalista e amigo que deixou que eu fizesse uma nota sobre a morte do baterista. Contendo o choro, escrevi umas oito linhas e a Rádio JB deu. Na época, o que a JB dava era lei. Todos os jornais repercutiram no dia seguinte.

The Who lançou discos que, literalmente, mudaram a vida dos seus fãs. O que dizer de “Who’s Next” (1971)? E de “Sell Out (1967)?”. E do disco de minha vida, o magistral álbum duplo “Quadrophenia” (1973), cuja primeira vez que ouvi foi através de Zé da Gaita, que estava em Teresópolis? Peguei a Variant de meu pai e desci a serra com o Zé ouvindo berrando um K7 de “Quadrophenia” no volume máximo.

A banda chegou aos anos 80 detonada por causa de morte de Moon. De propósito, Townshend convidou o econômico e eficiente Kenney Jones para a bateria. A banda gravou dois álbuns de média qualidade: “Face Dances” (1981) e “It’s Hard” (1982). Decidiu parar. Pete Townshend estava alcoólatra e viciando em cocaína. Buscou tratamento com a médica inglesa Meg Pettarson e curou-se.

Townshend continuou em sua bem sucedida carreira-solo, Daltrey insistiu em fazer cinema (péssimo ator) e, nos anos 90, com o demolidor Simon Phillips na bateria, a banda voltou à cena com uma versão de “Tommy” luxuosa e quase fútil. Continuava sem gravar um disco inédito e, no ano 2000, inexplicavelmente Townshend demitiu Simon Phillips e contratou o filho de Ringo Starr, Zak Starkey, para a bateria. Zak, que teve Keith Moon como padrinho (quando fez 11 anos Moon lhe deu uma bateria Premier de presente) estava no Oasis mas aceitou o desafio de cair na estrada com o Who tocando, inclusive, “Quadrophenia”. Lembro que a turnê foi adiada porque Zak queria estudar mais “Quadrophenia”. E veio a primeira e bem sucedida turnê.

No dia 27 de junho de 2002, eu estava num bar conversando com amigos e meu celular tocou. Era meu irmão, Fernando Mello, dizendo que acabara de ver no Jornal Nacional a notícia de que John Entwistle tinha morrido. Foi fulminado por um ataque cardíaco em Las Vegas, onde o Who iria se apresentar no dia seguinte. Fiquei arrasado. Afinal, segundo Paul McCartney e Chris Squire (Yes), Entwistle, vulgo “The Ox”, era o melhor baixista de rock do mundo. Com o tempo a perícia identificou um pouco de cocaína no sangue dele.

Bom, fato é que a pedido da viúva de John (por telefone, ela implorou a Townshend que o Who não parasse), no dia seguinte, Pino Palladino (amigo de Pete e grande baixista) desembarcou em Las Vegas indo direto para o palco. The Who seguiu e segue com ele até hoje.

Em 2006 a banda lançou mais um álbum de inéditas, “The Endless Wire”, que é sensacional. Mas a turnê que a banda fez pelos Estados Unidos e Canadá de novembro de 2012 até abril deste ano, e vai fechar em julho e julho no Reino Unido, com certeza entrará para a história. Prova de que Peter Dennis Blanford Townshend é a alma dessa incrível banda chamada The Who.

P.S. – Conheça www.thewho.com

Pete TownshendDiscografia:

The Who Sings My Generation – 1965

A Quick One (Happy Jack) – 1966

The Who Sell Out – 1967

Tommy – 1969

Live at Leeds – 1970

Who’s Next – 1971

Quadrophenia – 1973

The Who by Numbers – 1975

Who Are You – 1978

Quadrophenia [Music from the Soundtrack of The Who Film] – 1979

The Kids Are Alright – 1979

Face Dances – 1981

It’s Hard – 1982

Who’s Last – 1984

Join Together – 1990

Endless Wire – 2006

Luiz Antonio Mello é jornalista, radialista e escritor. Foi diretor geral da Fluminense FM nos anos 1980 e transformou-a em uma rádio rock. Com o slogan ‘Maldita’, a emissora ajudou a alçar à fama Paralamas do Sucesso, Titãs e Legião Urbana.

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