The Troggs ganhou o mundo com uma canção de três acordes

Estadão

27 de agosto de 2013 | 06h51

Cornélio Melo* – publicado originalmente no site Garota FM

The TroggsThe Troglodytes foi formado em Hampshire, Inglaterra, em 1964. Reginald Maurice Ball, ou Reg Presley (1941/2013), nasceu em Andover, condado de Hampshire e começou tocando saxofone inspirado por seus familiares que, bastante musicais, mantinham uma banda e animavam suas próprias festas. Passou para o violão e escreveu sua primeira música, “With a Gril Like You”. Feliz com sua composição, formou os Troglodytes com os amigos Chris Britton na guitarra, Pete Staples no baixo e Ronnie Bond (morto em 1992) na bateria. Reza a lenda que o empresário dos Kinks, Larry Page, descobriu o grupo, que, assim que assinou com a gravadora, trocou o nome para The Troggs.

Reg queria gravar um compacto simples, tendo sua “With a Girl Like You” como lado “A”, mas, enquanto negociavam e escolhiam a música que seria o lado “B”, a gravadora recebeu uma “fita demo” do cantor e compositor americano Chip Taylor, onde tocava guitarra e cantava uma canção de sua autoria chamada “Wild Thing”. Ao ouvir a fita, Reg deslumbrou-se imaginando aquela música tocada por uma banda completa. Imediatamente telefonou para Chris, que teria estudado oito anos de violão clássico antes de adotar a guitarra e, ao ouvir a música, disse: “Pôxa, Reg, mas são só três acordes!” Não teve jeito. “Wild Thing” não só foi gravada como ganhou o lado “A” do compacto simples. O resultado foi  conquista do primeiro lugar em todas as paradas britânicas e americanas, vendendo milhões de cópias e ganhando também excelentes colocações na América do Sul e no restante da Europa. No Brasil, fez muito sucesso e até ganhou a versão “Gata”, gravada pela banda The Brazilian Bitles, que fazia parte da Jovem Guarda. As canções “I Can’t Control Myself” e “With a Girl Like You” também ganharam, respectivamente, as versões “Não Posso me Controlar” e “Tem Que Ser Você”, ambas gravadas pela principal banda da Jovem Guarda, Renato e seus Blue Caps.

Com o sucesso, a gravadora tratou de colocar na rua o primeiro álbum dos Troggs, intitulado “From Nowhere The Troggs”, tendo “Wild Thing” como música de trabalho. O disco superou expectativas de venda e destacaram-se ainda as músicas “Hi Hi Hazel”, “From Home” e “Louie Louie”, esta última um cover da banda “The Trashmen”. Vale lembrar que “Wild Thing” voltaria com toda a força no festival de Monterey, em 1967, numa versão pesada e quase teatral, de ninguém menos que Jimi Hendrix. A partir de então, The Troggs fica conhecido como o grupo responsável pela primeira manifestação punk de que se tem notícias, inspirando bandas que viriam depois, como os Ramones.

The TroggsPara felicidade de Reg, sua “With a Girl Like You” logo alcançaria também os primeiros lugares. Na seqüência, as canções “Give It Tome” e “I’ Can’t Control Myself” causaram polêmica por serem consideradas “provocativas” pela imprensa. A partir de então, muitos dos seus lançamentos foram banidos. Em 1968, com a popularidade já não tão em alta, a banda deu uma guinada na carreira com a canção escrita por Reg “Love Is All Around”, que fez muito sucesso e foi revivida pela banda Wet Wet Wet em 1994, noo filme “Quatro Casamentos e Um Funeral” e, em 2003, fez parte da trilha de “Simplesmente Amor”, interpretada pelo ator Bill Nighy, só que como “Christmas is All Around”. Antes disso, em 1992, houve a gravação de um disco com os caras do R.E.M, fãs confessos assim como Ozzy Osbourne, Bylly Idol e o pessoal do Ohio Express. Todos tem os Troggs como uma das maiores influências.

“Hits nunca perdem a magia e, por isso, o que mais gosto nos shows da banda é a reação do público quando nós tocamos”, diz Reg no Imperdível DVD lançado pela Indie Record “Live And Wild In Preston”. Neste show ao vivo da banda, realizado em 20 de março de 2002 no Preston Guild Hall, Reg e Chris, membros originais, estavam à frente junto a Pete Lucas no baixo (que substituiu Tony Marray, que substituiu Pete Staples) e Deve Maggs na bateria (que substituiu Ronnie Bond). À exceção de “Wild Thing”, todas as composições do show são de Presley.

A discografia da banda vai além do disco de estreia e dos demais sucessos aqui citados, mas os Troggs, e isso não tem jeito, serão sempre lembrados por “Wild Thing” e “Love is All Around”. Reg, sempre inquieto, lançou em setembro de 2002 o livro “Wild Things They Don’t Fell Us” sobre o assunto que mais o fascina depois da música: discos voadores e círculos misteriosos. Recorrendo hoje ao site dos Troggs, entristeci-me ao ver “cancelados” shows e turnês por toda a Europa e Estados Unidos no ano de 2013, por conta da morte recente, em fevereiro de 2013, de Reg Presley. Mas, como diz meu primíssimo Luiz Antônio Mello, o LAM, fã como eu dos caras, “Reg se foi, mas fez seu papel enquanto esteve entre nós”; além disso, sua obra nos aproximou na adolescência, quando tentamos formar nossa primeira banda e tentamos construir uma guitarra, mas isso, um dia, eu ou ele contará com detalhes. Ou quem sabe nós dois juntos?! Até porque, nós só queríamos ser iguais aos Troggs. O engraçado foi que, por coincidência, nesta mesma época fui convidado a tocar numa banda chamada Os Trogloditas, que tinha alguns fãs dos Troggs como integrantes e algumas músicas deles no repertório.

* Cornélio Melo é engenheiro e arquiteto de formação e músico de coração. Nas décadas de 60 e 70, integrou as bandas Os Trogloditas e Melody. Em 1989, formou a Máquina do Tempo. Multi-instrumentista, gosta de escrever sobre bandas que admira.

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