The National: melancolia indie em êxtase

Estadão

07 Abril 2011 | 13h18

Pedro Antunes

Faltando poucos minutos para o início do show do The National, na noite de anteontem, no Citibank Hall, havia uma apreensão sobre como o som da banda – um indie-rock de letras melancólicas e melodias que bebem da fonte do pós-punk – funcionaria numa apresentação só deles. Em 2008, vieram ao Brasil para o finado Tim Festival.

Na ocasião, trouxeram o disco Boxer (2007). Desta vez, chegam credenciados pelo sucesso comercial, de público e de crítica, de High Violet, álbum lançado no ano passado, que ocupou o terceiro lugar entre os mais vendidos da Billboard. A banda também virou figurinha carimbada nos principais festivais de música do mundo.

High Violet, no entanto, é o disco mais melancólico do grupo. As guitarras perderam as distorções e a voz de barítono de Matt Berninger ficou ainda mais grave, soturna, sem os então comuns refrões gritados. Com essa mudança na densidade das canções, as dúvidas sobre a animação do público e interação entre banda e plateia deixavam incertezas no ar.

Com 21 minutos de atraso, às 21h51, tudo isso foi mandado às favas com a entrada de Berninger, nos vocais, e das duas duplas de irmãos: Aaron e Bryce Dessner, que se revezavam nas guitarras e no teclado; e Scott e Bryan Devendorf, baixista e baterista, respectivamente.

Se as músicas, em alguns momentos, eram lentas, a energia trocada entre banda e público – de 2.100 pessoas, numa casa em que cabiam 3.148 – transcendia o convencional. Todos os refrões eram sussurrados por grande parte da plateia, que parecia se emocionar ora com as letras de Berninger, ora com sua voz grave e aveludada.

O começo do show não poderia ser melhor, com Runaway, uma das mais tristes de High Violet. Aliás, das 21 músicas tocadas em quase duas horas de show, dez vieram desse disco.

Apenas Lemonworld, a quinta do álbum, ficou de fora. Depois, veio uma sequência de dar inveja, com Anyone’s Ghost, Mistaken For Strangers, Secret Meeting, Bloodbuzz Ohio e Slow Show. Difícil encontrar alguma que o público tenha se emocionado mais. Nesse ponto, passeando pelos três álbuns mais recentes, dos cinco, Alligator (2005), Boxer (2007) e High Violet (2010), o público já estava ganho.

Sem firulas

O que impressiona é que o quinteto de Ohio, nos Estados Unidos, não se mexe muito no palco. Não anda pra lá e pra cá, não faz piruetas, nem dá cambalhotas. Tudo é na base da entrega musical. Berninger ficava a maior parte do tempo parado, no meio do palco, agarrado ao microfone com as duas mãos, cantando de olhos fechados. Além de alguns “obrigado”, ele se mostrou surpreso com um público que conhecia quase todas as canções: “Vocês são muito mais barulhentos que os americanos. É lindo”, disse.

Os irmãos Dessner, quando ambos estavam nas guitarras, davam passos para frente nos momentos dos solos – e isso já era o suficiente para vibrações da plateia. Scott Devendorf fazia linhas agudas de baixo, tirando um pouco o peso das canções, enquanto seu irmão, Bryan, na bateria, fazia as músicas crescerem nos refrões.

A adição de uma dupla de metais deu, também, outra pegada para a banda, que nos CDs faz uso de violinos em certos momentos. O som ficou mais encorpado e ensolarado – se isso for mesmo possível para o The National –, o que funciona bem em shows ao vivo.

Com a plateia ganha, eles só precisaram manter o ritmo. A voz de Berninger, aos poucos, foi ficando mais rouca e menos potente. Os irmãos Dessner, então, começaram a ajudá-lo fazendo backing vocals inexistentes nas versões de estúdio das músicas.

 Ainda assim, Berninger aguentou até o fim. Mais do que isso, ele protagonizou o melhor momento da noite, já no bis. Enquanto cantava Mr. November, o vocalista pulou do palco e começou a circular pelo público. Foi abraçado, beijado, e ovacionado, enquanto cantava o emocionado refrão.

Na linda Terrible Love, o vocalista, já de volta ao palco, se agachou e ficou próximo do público, que estava em êxtase. Por fim, veio a derradeira música, Vanderlyle Crybaby Geeks. Toda a banda desligou os instrumentos. Foi pedido silêncio. E, então, em voz – sem microfone – e violão, com a plateia sussurrando, terminou o show do The National. Foi de arrepiar.

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