The National e sua poesia melancólica

Estadão

06 Abril 2011 | 08h26

Roberto Nascimento

As canções do The National investigam o emaranhado de desejos, mágoas e incertezas que ferve por trás da meia-idade masculina. É uma fórmula incomum, feita sem concessões e com ambições estéticas refinadas que, não obstante, levou a banda ao sucesso mainstream no ano passado, com o lançamento de High Violet.

O disco ficou duas semanas no topo da Billboard e recebeu elogios da crítica internacional, tornando-se o terceiro em uma sequência de excelentes álbuns (disponíveis no Brasil), que mostra a banda, que vem ao País em abril, cada vez mais afiada em sua capacidade de narrar a melancolia do macho.

Ao centro da introspecção está o vocal de Matt Berninger, um barítono escarpado que soa como se estivesse prestes a entregar os pontos e revelar toda sua fragilidade, mas mantém a compostura. Em volta dele se desenvolve uma trama instrumental equilibrada entre rock visceral e experimentações sonoras, frutos de uma constante lapidação.

“Há tantas maneiras de se estragar uma música”, conta Berninger em entrevista ao Estado. “Bloodbuzz Ohio (um dos hits de High Violet), por exemplo, foi regravada inúmeras vezes até eu sacar que tinha que cantá-la como um acalanto enquanto a banda tocava pesado”, explica o cantor, que trabalhava com design gráfico em Nova York antes de formar a banda.

Berninger é um líder genioso. Ano passado, um perfil do New York Times apurou Resmungão, Câmara de Eco e Sr. Headfone como alguns dos apelidos do cantor. Seu parecer é final na hierarquia de uma banda que trabalha canções obstinadamente e cria sob influências diversas.

 O guitarrista e arranjador Bryce Dressner, por exemplo, é formado em violão clássico pela Universidade Yale e colabora constantemente com pesos pesados da vanguarda nova-iorquina como o festival Bang On a Can e Steve Reich.

Dressner manda arquivos para Reich para saber sua opinião, o influente cantor Sufjan Stevens e Richard Parry, do Arcade Fire, passam no estúdio, e desta variedade de talentos surge a discórdia e a essência do The National.
“É estressante, caótico, demorado. Mas é assim que as coisas funcionam. É assim que achamos a personalidade de cada canção. Muitas delas têm dezenas de versões que não funcionam”, diz.

A banda The National (FOTO: SUSANNA HOWE/DIVULGAÇÃO)

Berninger cita Tom Waits, Nick Cave e Leonard Cohen como as principais influências de seu modo de cantar. Mas em termos de poesia, o cantor vê o The National cada vez mais distante do lirismo do homem solteiro. “Os primeiros discos são intimistas, mas tenho tentado escrever além dessa perspectiva”, diz.

“Sou casado agora. Tenho um filho. Se eu compusesse da mesma forma seria falso. Mesmo assim, ainda há um turbilhão de coisas que entram e saem da minha cabeça como homem casado, como chefe de família. Há tanta confusão emocional quanto antes, mas tento narrá-la da minha perspectiva atual”, afirma.

A história do The National é clássica: um grupo de amigos resolve levar a sério a bandinha de fim de semana e passa por todas as etapas do rock and roll nova-iorquino, do boteco vazio à grande casa de show, antes de chegar ao estrelato. Mas nesse caso, a fama não veio da noite para o dia.

Da formação aos dois primeiros discos, o homônimo e Sad Songs for Dirty Lovers, ambos ótimos, o National foi uma espécie de fenômeno caseiro, com uma base de fãs consistente no Brooklyn, mas pouco sucesso além de Manhattan.

Só em 2005, depois de um show no Mercury Lounge e Alligator, outro ótimo álbum, as coisas tomaram um rumo mais popular. “Para nós, o processo tem sido sempre lento e gradual. Conquistamos fã por fã, casa por casa”, conta Berninger. “Mesmo com High Violet. Não é que a gente explodiu como alguns dos nossos colegas que de repente estão vendendo centenas de milhares de discos”, lembra.

A demora e a sonoridade curtida dos discos da banda são recíprocas. Fosse de outra maneira, a banda jamais teria conseguido chegar ao sucesso com uma sonoridade tão distinta e criativa. “Tentar ser acessível é uma coisa tão abstrata”, conta Berninger quando indagado sobre os próximos passos de uma banda depois do sucesso.

 “O primeiro disco do Strokes era supostamente inacessível. A mesma coisa com o Radiohead. É por isso que tantos erros são cometidos na indústria musical: eles acham que sabem o que o público vai gostar de ouvir, mas eles estão um passo atrás.”

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