The Doors, uma banda que não 'envelheceu bem'

Estadão

05 de junho de 2013 | 06h47

Marcelo Moreira

A morte do bom tecladista Ray Manzarek, o grande mentor da banda The Doors, em maio passado jogou uma luz sobre o seu trabalho e sobre a sua própria carreira com o grupo que se tornou muito cult a partir dos anos 60, em uma idolatria que é inversamente proporcional à qualidade de suas músicas e mesmo a sua fama na comparação com outros grande nomes do rock.

Assim como outros nomes da história musical, The Doors sempre foi uma banda superestimada – bastante superestimada, aliás. Surgida em 1966 em meio ao início do psicodelismo norte-americano, teve uma uma boa estreia em LP no ano seguinte, para depois se acomodar em uma zona de conforto e viver mais das polêmicas de seu vocalista e letrista, Jim Morrison, morto em 1971.

O quarteto não era uma banda ruim, pelo contrário. Teve bons momentos entre 1967 e 1969, mas infelizmente envelheceu mal. Suas músicas hoje soam datadas, no mau sentido, ao contrário dos contemporâneos do Creedence Clearwater Revival, cujas músicas, igualmente datadas, remetem a um momento mais auspicioso da música norte-americana.

Enquanto o Creedence apontava para o futuro, para uma mescla de música regional, folk e rock rural, os Doors não conseguiram se livrar de um certo ranço hippie/psicodélico, reforçado pelo comportamento de Morrison e por algumas de suas letras apenas razoáveis e, em certa medida, pseudo-intelectuais e pseudo-sofisticadas. Não é de se admirar que o maior sucesso da banda, “Light My Fire”, tenha a maior parte da letra composta pelo guitarrista Robbie Krieger.

O californiano foi uma das boas atrações surgidas na segunda metade da década de 60, mas esteve longe de ser a melhor do período ou mesmo de seu país. Ok, a concorrência era de peso, com Creedence, Buffalo Springfield, The Byrds, Jefferson Airplane, Grateful Dead, entre outras bandas. Todas eram bem melhores do que Doors. Entretanto, o diferencial do quarteto californiano era o carisma de seu cantor, que se tornou um ícone da cultura ocidental da segunda metade do século XX.

Jim Morrison era um cantor mediano, para ser bem legalzinho. Era fraco, mas teve o grande mérito de aprender na marra na estrada. Nunca foi um aficionado por rock, o que teve seu lado bom e o seu lado ruim. Não curtia muito ser o rockstar que achava que era e que se esforçava para encarnar.

Aspirante a escritor e poeta, era inteligente o suficiente para manipular a faminta imprensa norte-americana de entretenimento e inteligente o suficiente para criar uma “persona” envolta em uma aura mística em torno de suas origens e supostas experiências pessoais.

Carismático e charmoso, adotou o comportamento decadente e excessivo de alguns de seus ídolos, como o poeta francês Arthur Rimbaud, e o de expoentes importantes da literatura alternativa/marginal, como Jack Kerouac (autor do clássico “On The Road”) e William S. Burroughs.

Conseguiu levar essa quantidade de influências para o palco e se transformou no astro de rock atormentado e errático, com um comportamento extremo de roqueiro bêbado e eventualmente drogado ao mesmo tempo em que se achava um líder espiritual e, de certa messiânico, disposto a quebrar regras e a encarnar um briga contra o “sistema”.

Infelizmente o momento mágico durou pouco e o combustível dos Doors foi acabando. As boas ideias foram rareando, ao mesmo tempo em que o comportamento insano de Morrison no palco começou a causar problemas para o grupo.

Enquanto isso, os ingleses, para variar, atropelavam todo mundo, com a criatividade em alta de bandas como Rolling Stones, The Who Pink Floyd, Cream, Pink Floyd, um pouco mais tarde, Led Zeppelin e Derek and the Dominos. Em comum, todas essas bandas abandonaram muito rápido qualquer influência da psicodelia e da cultura hippie e seguiram em frente.

Os Doors, aparentemente, perderam o bonde e assistiram, de forma incrédula, o festival de Woodstock, em 1969, anunciar a mudança dos tempos.

O grupo tentou reagir com boas ideias, como as boas músicas “Riders on the Storm” e “LA. Woman”, bem construídas e flertando, de certa forma, com o rock progressivo, mas a fase final de Morrison com os Doors é mais lembrada pela veia pop de “Touch Me” e “Hello I Love You”, que tiveram bom desempenho nas paradas de sucesso e nas emissoras de rádio, mas que não passam de canções pop medíocres e comuns.

Os teclados de Manzarek criaram sem dúvida um estilo imediatamente reconhecível, com seus fraseados elegantes e uma linha de baixo simples, mas acabaram colando na banda um rótulo de “sessentista” na pior acepção do termo – teclados aliás copiando largamente mundo afora, em especial pelos produtores e arranjadores de Roberto Carlos na época. A estagnação criativa após o álbum “Waiting Fort the Sun” (de 1968, o quarto, já bem inferior aos anteriores) pode ser uma das explicações pela “datação” da música do quarteto.

Embora Robbie Krieger seja um guitarrista subestimado, e Ray Manzarek seja bastante citado, ao lado de Jon Lord (Deep Purple), como uma inspiração e influência para vários músicos dos anos 70, 80 e 90, a banda patinou em certo momento na virada dos anos 60 para os anos 70 e acabou superada, de longe, por muita gente.

A julgar pelo cartaz que sempre ostentou desde o final dos ano 70, fica difícil encontrar argumentos que sustentem tamanha devoção (e ovação). The Doors é mais uma banda superestimada, cuja fama “alternativa” e “misteriosa”, aliada ao imenso carisma de um cantor apenas mediano, superam em muito a verdadeira qualidade musical – uma banda de razoável para boa, mas nada mais do que isso.

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