Teenage Fanclub: eternos quase famosos

Estadão

11 de maio de 2011 | 07h30

Pedro Antunes

Em 2002, o hábil escritor pop Nick Hornby se preparava para o lançamento da coletânea de contos no livro Falando com Anjo, quando deparou com uma versão acústica de Your Love is The Place Where I Come From, executada pelo quarteto escocês Teenage Fanclub. Ele estava com medo de que a noite fosse um fiasco. Ao ouvir aquilo, porém, teve a certeza de que tudo seria um sucesso. E foi.

No ano seguinte, Hornby, autor dos celebrados Alta Fidelidade e Um Grande Garoto, lançaria o livro 31 Canções, uma reunião de memórias e músicas memoráveis.

A canção escolhida para abrir o livro não poderia ser outra: “Your Love is The Place Where I Come From, uma das mais adoráveis músicas de um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos: Songs from Northern Britain”, escreveu ele. Em 22 anos de estrada, os quatro integrantes do Fannie – como a banda também é chamada – sempre estiveram a um passo de se tonarem pop. Nunca o fizeram.

Ainda assim, o grupo conseguiu reunir fãs como Nick Hornby, que, aliás, lista na sua obra outra música da banda, Ain’t That Enough – o Teenage é a única banda com duas canções citadas no livro do escritor. S

e alguém fica em dúvida da força que o grupo ainda exerce nos seus fãs, basta saber que os mil ingressos colocados à venda para a apresentação na The Week, hoje, às 22h, dentro do festival Whisky Festival, acabaram em questão de horas. Muito dessa adoração indie se deve aos três vibrantes shows que o grupo fez no Sesc Pompeia, em 2004.

“Aquilo nos deixou uma impressão muito positiva. Foram três noites seguidas, de casa lotada, com todo o público dançando”, lembra o guitarrista e um dos vocalistas da banda, Norman Blake, que de teenage não tem mais nada. Aos 45 anos, ele falou ao JT por telefone, do Canadá, onde mora há um ano e meio. “E os ingressos já acabaram, não é? Isso é demais”.

Quando perguntado sobre Hornby e a importância sobre ter duas músicas listadas em seu livro, Blake faz elogios comedidos ao escritor. “O Nick é amável e gosta muito de música”, diz. O fato é que o Teenage Fanclub nunca atingiu o status de popstars e nunca vendeu milhões de discos. O último álbum da banda, Shadows, de 2010, vendeu 800 mil em todo o mundo.

A efeito de comparação, o último CD de John Mayer vendeu 286 mil cópias, só nos Estados Unidos, na primeira semana. Ainda assim, a banda escocesa é a preferida de muitos. Kurt Cobain, ex-vocalista do Nirvana, por exemplo, costumava usar camisetas do grupo e dizia que os escoceses formavam a melhor banda do mundo.

Nos anos 90, a gravadora do Teenage Fanclub tentou emplacar a banda como o Nirvana da Escócia. Mas nunca deu certo. A revista de rock americana Spin, no entanto, elegeu o disco Bandwagonesque o melhor lançamento de 1991.

Detalhe: naquele mesmo ano, foi lançado o Nevermind, obra-prima de Cobain à frente do Nirvana. Apesar da badalação, o quarteto escocês mantém uma aura de banda fora do mainstream e da superexposição, essencial para 9 entre 10 indies.

“Seria muito difícil ser popstar. Só queremos ser honestos com o nosso público. Não vendemos milhões de discos, mas temos uma conexão muito grande com os nossos fãs”, analisa Blake.

Em outubro do ano passado, o Teenage Fanclub lançou seu nono disco, Shadows, depois de um hiato de cinco anos – o álbum anterior tinha sido Man-Made. Trata-se do segundo disco que sai pelo selo criado pelo grupo, a PeMa Records.

“Estamos na estrada há muito tempo (22 anos). Conhecemos as pessoas. Com Man-Made, nos preocupamos demais com a distribuição e outras questões logísticas do disco. Dessa vez, não. Tivemos tempo e demos prioridade total para as músicas”, diz Blake.

No novo CD, as guitarras distorcidas foram deixadas de lado. As melodias coloridas, românticas e fofas ganharam mais destaque. É também um disco que mostra a maturidade da banda, todos quarentões. Uma forma musical de encarar a idade, sem perder a inocência que os fez famosos. Ou quase.

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