Tame Impala faz show de som cheio

Estadão

19 de outubro de 2013 | 07h00

Rafael Abreu – O Estado de S.Paulo

O sucesso da apresentação da banda australiana Tame Impala no Cine Joia, na noite de quarta, é uma questão de espaço. Mais especificamente, o desdobramento de um espaço que o grupo começou a criar no EP de estreia autointitulado, amadurecido em Innerspeaker, o primeiro álbum de estúdio, e explodido no universo de eletronismos e reverberações de Lonerism, o último disco do conjunto, transposto para a vida real, longe da magia sem limites de um mp3 player.

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Se o que Kevin Parker e Cia. fazem é space rock de contrassenso maravilhoso – toneladas de guitarras à Led Zeppelin e à Black Sabbath numa trama de ecos intergaláticos e gravidade zero – é previsível que a sonoridade esteja sempre em expansão. O grande feito, então, é recriar tudo isso como se o Cine Joia fosse um estúdio em que tudo é gravado ao vivo, a edição quase zero e os erros pouquíssimos.

Sim, o lugar é pequeno o suficiente para que se tenha um senso razoável de controle sobre o set e o som chegue imaculado à maioria da plateia, mas a tarefa continua impressionante porque (1) denota excelência técnica e (2) requer uma quantidade inimaginável de controle e planejamento. Todos no palco parecem muito profissionais, de fato, durante a hora e meia de show, e não é a toa que houve pouco espaço para conversa com a plateia. A ideia era fazer um som milimetricamente certo e ir embora. A grande ambiguidade do show é justamente o imprevisível planejado das faixas, ocasionalmente mais viajandonas que suas gêmeas de estúdio, selvagens e civilizadas, ensandecidas e centradas.

O show do Tame Impala, portanto, é um show de jams calculadas, frequentemente com um quê de música eletrônica, as batidas, linhas de guitarra e baixos incrivelmente repetitivos, sendo a novidade de cada segundo minúsculas alterações de timbre e de efeito.

E embora tenha sobrado algum espaço para indulgências de “guitar hero”, quando a viagem é extensa e pesada demais para que se aguente no improviso, as jams sabem muito bem o que querem: após algum tempo, eliminam a memória da faixa “prescrita” (a do estúdio, a de cantar junto) e suspendem a plateia num mar difuso de reverb – até o momento em que, num segundo, retomam o fio que tinham abandonado. E é por isso que a noção de espaço para o show e para a banda é tão importante, porque a impressão é que os minutos ficaram mais gordos e o palco mais volumoso, quando a panorâmica sonora de It Is Not Meant to Be dá as caras. Com canções gigantes, o Tame Impala faz um show túrgido, robusto, de som cheio.

E não foi só a sonoridade da banda que ganhou corpo: é a segunda vez em pouco mais de um ano que o grupo vem ao Brasil, e sua reputação cresceu bastante nesse meio tempo.

Com o lançamento de “Lonerism”, já despontava um fanatismo de nicho, mas a vinda ao mesmo palco, no ano passado, foi o suficiente para deixar a casa lotada com mais de um mês de antecedência neste ano. A capitulação do público, ontem, é prova: o Tame Impala é um blockbuster indie. E Mind Mischief, Apocalypse Dreams e Feels Like We Only Go Backwards são os hits de uma rádio metafórica. Primeiro para ouvir de fone de ouvido; depois, quando as circunstâncias permitirem, como ontem, para envolver centenas de pessoas, desavisadas de que música é capaz de preencher tant

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