System of a Down e Stevie Wonder não salvaram a segunda etapa do Rock in Rio

Estadão

03 de outubro de 2011 | 06h45

 Marcelo Moreira

A banda norte-americana System of a Down quase salvou o segundo final de semana do Rock in Rio 2011. Mas, assim como no futebol jogador sozinho não ganha jogo, uma banda sozinha não consegue ressuscitar um morto. Assim, a sentença foi dada no dia 26 de setembro aqui mesmo neste Combate Rock: o festival começou no dia 25, e teminou ao final da madrugada do dia 26, após o show majestoso do Metallica.

Um final de semana que tem no mesmo palco Ivete Sangalo, Shakira, Kesha e Evanescense não pode ser promissor. Não há Guns N’Roses que aguente. Stevie Wnder tentou, mas foi soterrado pelo lixo musical que o cercava.

Ganhou o multiculturalismo, ganharam as caixas registradoras dos organizadores e até mesmo alguns artistas defuntos que reviveram, mesmo que por dez segundos antes de voltarem para o limbo. Perderam o rock e o púbico que foi em busca de boa música mas teve de suportar o barulho e a poluição sonora criada por gente quete que jamais poderia er pisado em um palco do Rock in Rio.

Na parte que interessa, a boa música (que andou rara no último final de semana), nada como ver um mestre no palco. Stevie Wonder trouxe a melhor música negra dos anos 70 para colocar o público brasileiro em êxtase, seja para curtir, seja para dançar.

Wonder fez o que quis e realmente pareceu se divertir no Rock in Rio. Esbanjou bom humor, simpatia, humildade e despejou uma tonelada de hits: “Overjoyed”, “My Cherie Amour”, “Signed, Sealed, Delivered, I’m Yours”, “Isn’t She Lovely”, “You Are the Sunshine of My Life”, “I Just Called to Say I Love You”, “Another Star” e “Superstition”. Um legítimo e verdadeiro show de música pop, no sentido positivo do termo.

Peso e inteligência

Outro vencedor do final de semana foi o System of a Down, que era visto com bastante pessimismo antes da apresentação de São Paulo, ocorrida dosi dias antes. Erroneamente inserido no contexto do asqueroso new metal, o quarteto norte-americano surgiu com as bandas do subestilo, mas logo se distanciou daquele som limitado e infantil.

Com personalidade e músicas inspiradas, surpreendeu os paulistas e cativou os fãs do Rock in Rio com muito peso e rompantes de rock progressivo, além das habituais esquisitices. Serj Tankian (vocalista) e Daron Malakian (guitarra e vocais) fizeram interessantes duetos, lembrando os bons tempos de apresentações ao vivo de Frank Zappa. A bizarrice se tornou um diferencial importante em um dia em que ninguém surpreendeu (ou não quis surpreender).

Para quem tinha dúvidas se o show dos descendentes de armênios funcionava ao ar livre, em um festival gigante, a resposta foi um show tecnicamente perfeito e carismático, por mais difícil e intrincado que o som do System seja em boa parte da apresentação. Eles superaram o rótulo de banda chata com muita competência.

Serj Tankian, vocalista do System of a Down, no Rock in Rio 2011 (FOTO: JF DIORIO/AE)

Tentando resgatar o passado

Definitivamente não foi uma boa ideia para o Guns N’Roses encarar a plateia após a energia do System of a Down. Axl Rose e seus músicos contratados bem que tentaram, mas nao se livraram da pecha de banda cover mais bem remunerada do mundo.

Se há dez anos, no Rock in Rio 3, havia ainda a expectativa de ver o que seria o Guns após anos de hibernação e com nova formação, desta vez não dava para esconder a apreensão por conta de uma eventual decepção com o que estava por vir. Se não foi um desastre, o Guns N’Roses esteve longe de ser maravilhoso – como era de se esperar. O que subiu ao palco era apenas uma versão caricata de si mesmo. Pode ate ter agradado boa parte do púbico, mas foi perfeitamente dispensavel.

Também havia muita expectativa pelo retorno do Evanescense após longa hibernação e mudança de formação. Não houve decepção, mas não houve surpresa. A banda apresentou o mesmo pastiche de sempre, com a usa mescla de gothic metal e new metal com pitadas emo, com toneladas de saturação e uma vocalista que mais gritou do que cantou. Foi apenas um aquecimento razoável para o System of a Down.

Rock baiano

Diante de um quadro complicado de um dia atípico, a baiana Pitty se deu muito bem. Esperava-se algo morno e insosso, já que a cantora decidiu por um som mais voltado para o pop rock nos seus últimos dois álbuns. E não é que ela resolveu colocar as guitarras lá em cima? Agradou em cheio ao público com uma apresentação energética e bem calibrada. Mostrou boa presença de palco, repertório mais rápido e pesado e visível garra. O destaque negativo fcou por conta da dispensável homenagem ao Nirvana.

Entre os outros brasileiros, merecem menção honrosa Skank, com seu pop rock de boa qualidade – mas fazendo mais do mesmo, o de sempre, o que, no caso deles, sempre é bom sinal – e os Titãs, que fizeram um show pesado, coeso e energético, incluindo homenagens a Raul Seixas.

Frejat não inventou e acertou em cheio. Com arranjos um pouco mais pesados e guitarras na cara e mais altas, agitou bastante e agradou, ao lado de uma banda muito competente e virtuosa. Mutantes? Outra banda que fez covers de si mesmo – apresentação desnecessária, para variar…

Amy Lee, vocalista do Evanescense (FOTO: EVELSON DE FREITAS/AE)

Falta de carisma e mesmice

Sobrou mais alguma coisa? Coldplay fez um show correto, mas sem inspiração, nos limites da burocracia. Com músicas climáticas e com arranos densos, seu show perde bastante em palcos gigantes. Maroon 5 apenas fez número com seu rockzinho pseudoagressivo e sem carisma.

O grupo mexicano Maná mostrou todos os clichês possíveis do pop rock na ânsia de agradar, mas nem mesmo competência para incoodar eles tiveram. Passou batido. Jamiroquai fez o mesmo de sempre e aradou os mesmos de sempre. Não é rock, mas agradou os mesmos de sempre com seu funkzinho agitadinho. buric

Decepção mesmo ficou por conta de Lenny Kravitz. Esperava-se mais rock e menos firulas.  Seus hits foram enfileirados, mas sua performance não empolgou. Em lugar do carisma que ele sempre ostentou, apenas pose e burocracia.

O saldo do final de semana ficou devedor para a boa música. Stevie Wonder (que não é rock) e System of a Down foram bem, mas não conseguiram salvar o festival da mesmice em sua segunda etapa. O evento em si e o “conceito” até podem ter se fortalecido, mas, para quem gosta de rock, o Rock in Rio é apenas uma marca forte que ficou perdida no passado.  

 

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