SWU: muita espuma para pouca qualidade

Estadão

07 de outubro de 2010 | 08h19

Marcelo Moreira

Um festival que tem como grande nome um guitarrista sul-africano que faz música de elevador? Não dá para levar muito a sério, independentemente do conceito “moderno” e “filosófico”, que nada mais é do que uma muleta apoiada na sustentabilidade. Coisa de gente politicamente correta e chata (ou ecochata).

Falta rock de verdade no SWU, festival que começa em Itu no dia 9 de outubro. Falta peso. Faltam artistas bons, que fazem música de verdade e que ignorem essa conversinha boba de “vamos mudar o mundo, vamos fazer isso e vamos fazer aquilo”.

Woodstock e Ilha de Wight ocorreram há 40 anos com o mesmo papinho hippie-comunista-maleta, e não deu em nada. Todos que participaram viram que o sonho tinha acabado – ainda bem – e se preocuparam somente em fazer música. Nada mais.

Até mesmo os festivais mais sérios, como o Concert for Bangladesh (1971) e o Concert for Kampuchea (1979), com intenções mais nobres e concretas, causaram desgosto aos seus organizadores. Digo o mesmo do Live Aid, de 1985, com suas toneladas de boas intenções e seus milhões desviados por guerrilheiros e governos corruptos da Etiópia e da Eritreia, então um país só (será que ainda existem?).

Entre as bandas moderninhas, a única banda que merece algum respeito é o Queens of the Stone Age, que faz um som que remete ao stoner metal, que tem algumas guitarras pesadas e faz algum barulho.

 Josh Homme, o guitarrista-dono, é bom, mas canta mal, e compõe de forma hedionda. As músicas são ruins, típica de bandas que tentam fazer algo diferente de forma premeditada para ficar marcada na história do rock. Pelo menos tem atitude rocker.

Queens of the Stone Age

Atitude é o que não falta para o Rage Against the Machine. Talvez seja a banda mais politizada da atualidade, independente de sua ideologia datada e dos equívocos ao se aliar a causas discutíveis. Não soa falso e messiânico como o U2, já que o vocalista Zack de la Rocha é um militante de verdade, daqueles que se engajam pessoalmente em causas, que enfrenta polícia e que põe a mão na massa.

Surgiu como novidade quando lançou o primeiro disco, embora o vocal gritado à la hip hop estragasse completamente as bases criativas do guitarrista Tom Morello.

Rage Against the Machine

Rocha sempre foi o ponto baixo do gruopo, tanto é que, quando houve a separação – os três instrumentistas se juntando no bom Audioslave com o vocalista Chris Cornell (ex-Soundgarden) e o cantor se dedicando a causas sociais – ninguém sentiu falta do Rage Against the Machine.

O Audioslave deu certo, gravou três bom álbuns e manteve a verve política nas atitudes e nas palavras de Tom Morello. “The Battle of Los Angeles” é um dos CDs mais chatos de todos os tempos. 

Alguém escreveu por aqui que Mars Volta é rock progressivo. Isso é um insulto a gênios como Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Robert Fripp, Keith Emerson, Rock Wakeman, Peter Gabriel, Steve Hackett, Greg Lake, Ian Anderson, David Gilmour e Roger Waters, entre tantos outros.

Não passa de um pop bem produzido em cheio de penduricalhos, com pouca criatividade e execução calcada  em instrumentos eletrêonico irritantes. Tem alguns bons momentos nos álbuns “The Bedlam in Goliath” (2008) e “Octahedron” (2008), algumas boas ideias, mas insuficientes para dar alguma qualidade e coerência aos trabalhos.

The Mars Volta

Prefiro os ingleses do Muse, com o seu mais novo trabalho, “Resistance”, que arrancou elogios de gente que entende do assunto, como Mike Portnoy (ex-baterista do Dream Theater) e Jon Anderson (ex-vocalista do Yes). Se alguma banda nova e de orientação pop que mais se aproxima do rock progressivo é o Muse.

Dave Matthews é um artista repetitivo e maçante, sem atitude e completamente cooptado pelo sistema – não que isso seja ruim, mas no caso dele é. Previsível e com a criatividade aparentemente esgotada, acredita ser o cruzamento de Bob Dylan e Bruce Springsteen, embora seja um músico extramente humilde e simples. Mesmo assim, não merece o cartaz que tem.

Qualquer guitarrista de blues da atualidade – Joe Bonamassa, Eric Gales, Joony Lang, Derek Trucks, Kenny Wayne Shepherd, Chris Duarte, Philip Sayce – tem mais conteúdo e feeling.

Kings of Leon começou bem, mas caiu na vala comum do “alternativo puxado para o southern rock”. Padece do mesmo mal de Dave Matthews: é repetitivo e sem imaginação, com músicas ruins e sem pegada.

Pixies tem uma história bonita, uma carreira consistente e um compositor inspirado e inteligente, mas completamente alucinado. Frank Black – ou Black Francis – deu um sentido à palavra rock alternativo, ao lado do intragável Sonic Youth.

Pixies

Entretanto, a guetificação fez mal à banda, que posou de radical por muito tempo e acabou patinando. As boas ideias ficaram nos anos 80 e a carreira solo de Frank Black e The Breeders, banda da baixista Kim Deal, se perderam na mediocridade pop dos anos 90. O Pixies é apenas um arremedo de grupo importante de duas décadas atrás.

O rock pesado – ou pretensamente pesado – é o que de melhor há no festival. Incubus e Linkin Park nem merecem muitas palavras, são mais um subproduto do new metal que infestou o mundo na segunda metade dos anos 90. São músicos que confundem música alta conseguida por meio de reverberação com heavy metal. Agradam a ouvidos pouco exigentes e moleques iniciantes neste tal de rock pesado. Mas não enganam ouvintes mais qualificados.

Avenged Sevenfold e Cavalera Conspiracy são os únicos resquícios de vida inteligente e de música de qualidade no SWU. O primeiro é da nova safra da música pesada.

Tem um pé no new metal, mas é formado por bons músicos e compositores, que têm estofo para buscar variações melódicas e linhas instrumentais mais instrincadas.  Não é à toa que devem contar com a presença de Mike Portnoy na bateria para dar uma força. Um gigante do metal coo ele não se associaria a um bando de moleques pedantes se estes não fossem bons.

Quanto ao Cavalera Conspiracy, o nome da banda já entrega o pedigree. Max e Iggor, a alma, o coração e o cérebro do Sepultura, fazem um heavy metal moderno, pesado, barulhento, aprofundando o death-thrash que sempre fizeram. 

Cavalera Conspriracy

Não é uma reencarnação do Sepultura – ainda bem, e nem eles quiseram isso. Também não é algo novo nem fantástico. Mas é extremamente honesto e bem feito, que exala integridade e inteligência.

Muito pouco, contudo, para dar algo mais de qualidade para o elenco do festival, que foi feito na medida para ouvidos pouco exigentes.

É importante para o meio musical nacional? Claro que é, pois mostra a vitalidade do Brasil como local fundamental para a realização de eventos de grande porte. Tomara que dure 30 anos e que seja realizado ano a ano, com cada vez mais patrocinadores. Entretanto, não será memorável. Por enquanto, será apenas mais um festival com atrações de segunda linha.