Stevie Wonder em novo ritmo

Estadão

07 de setembro de 2011 | 17h00

Roberto Nascimento – O Estado de S. Paulo, de Curaçau

Wonder. Hits e duetos com os grandes nomes do passado - Evelyn Rodrigues/Divulgação
Evelyn Rodrigues/Divulgação
Wonder. Hits e duetos com os grandes nomes do passado

 “Deus é bom. O amor é bom”, improvisa Stevie Wonder no meio da canção Jammin’, tocada logo no início do show. Não fosse a série de hits românticos que viria em seguida – ou o fato de Stevie ter acabado de fazer um solo, deitado no chão, ondulando o quadril lascivamente – seria razoável suspeitar que o gênio do soul enveredara de vez para o gospel, já que suas canções sempre dialogaram com o sagrado, traduzindo, mesmo nos momentos mais carnais, ideais de superação e amor eterno.

O que não quer dizer que Stevie não seja um pastor, pois como mostrou neste domingo, 4, no festival caribenho Curaçau North Sea Jazz, o paradoxal equilíbrio entre o divino e o profano, força motriz de seu soul, ainda é capaz de submeter multidões à catarse.

Stevie está confirmado para o Rock in Rio, que acontece no fim do mês, e se a zica que tem assombrado artistas negros norte-americanos este ano não atrapalhar (Prince, Cee Lo Gree e Jay-Z já foram prometidos e desmarcados) o astro deve trazer sua turnê ao Brasil, no dia 29.

O show vai do saudosismo monótono de I Just Called to Say I Love You a uma vertiginosa sequência final que inclui hits de sua fase áurea, como Boogie on Reggae Woman, Sir Duke e Superstition.

Como é de se esperar, a banda voa baixo e contagia com um suingue viçoso, liderado pelo órgão e o piano de Stevie, que, entre as canções, mostra flashes despretensiosos de sua genialidade: uma melodia composta na hora para o filho que acaba de completar 10 anos, outra para pedir água ao assistente de palco, uma terceira para o público cantar (como as de qualquer grande show, mas uma que poderia facilmente tornar-se o refrão de um hit).

Na metade da apresentação, em que Stevie toca pérolas românticas como Overjoyed, perde-se o ímpeto brevemente, e o interesse é sustentado somente pela sua voz, patrimônio histórico da humanidade, impecável aos 61 anos.

Em Curaçau, isso foi acentuado quando a diva Dionne Warwick, graciosa porém fragilizada, se entregou à nostalgia de Walk on By e That’s What Friends Are For em dueto com Stevie. O marasmo durou até o ponto em que Philip Bailey, do Earth Wind and Fire, que tocara na noite anterior, recebeu o microfone de Dionne e foi acompanhado por Stevie em Shinning Star, clássico do funk.

Harmonizadas, entoando agudos estridentes e graves viscerais, as duas vozes foram a fagulha que faltava para Stevie incendiar a plateia até o final. Deste ponto em diante, só funk soul de primeira. O brilhante arranjo de Sir Duke, a melodia pulsante do baixo de I Wish, o inigualável dueto de guitarras de Do I Do.

Outros heróis do groove, de soulmen a titãs do funk, aos cubistas do jazz moderno, deram o tom do primeiro dia de apresentações no Curaçau North Sea Jazz Festival, edição do importante festival holandês realizado na ilha caribenha pela segunda vez, neste fim de semana. Os shows anteciparam o primeiro aniversário de independência da ilha, que ficou independente das Antilhas Holandesas no ano passado.

Mesmo com uma programação arquitetada para agradar a turistas e curaçulenhos de meia-idade (Chic, Earth Wind and Fire, Sting e Kassav, supergrupo de zouk, dos anos 80, estavam no programa) – curadoria que muitas vezes é sinônimo de apresentações mornas e acomodadas – não houve falta de propulsão rítmica por parte dos escalados.

Nile Rodgers, guitarrista, superprodutor, bamba da disco music, abriu o festival com sua histórica banda Chic. Ao contrário do que poderia se esperar de um veterano que se recupera de um câncer, Nile faz um show vigoroso, liderando o glamour setentista do Chic com firmeza por hinos de pista como Le Freak e Good Times, e hits produzidos nos anos 80 para outras estrelas como Madonna (Like a Virgin) e Sister Sledge (We Are Family).

Sua guitarra é o núcleo da banda, que ainda pulsa elegante e suave, tantos anos depois de seu auge, como uma relíquia viva da música negra, guardiões de uma estética que ainda ecoa toda a vaidade e sensualidade de uma das belles epóques da dance music.

Na mesma veia nostálgica, o festival trouxe os veteranos do Earth Wind and Fire, titãs do pop dos anos 70 que já completaram 40 anos de estrada. Mas a nostalgia é secundária ao impacto físico da banda, pois se houvesse um prêmio para medalhões de antigamente que ainda arrasam com o baile, este iria para o coletivo liderado por Philip Bailey e Verdine White, que toca com a energia de um trio elétrico do início ao fim, sem tirar o pé do acelerador.

 Relendo clássicos como September, Reasons, Hearts on Fire, o grande trunfo da banda é conseguir traduzir sua infectante dinâmica rítmica para o grande palco, feito complicado, incomum nos shows de muitos ídolos do pop novo (Black Eyed Peas) e antigo (George Clinton).

O que torna o suingue do EWF tão intenso ao vivo é a maneira com que a banda trabalha o ritmo, se assemelhando mais a uma orquestra de salsa, com diversos percussionistas e funções econômicas do baterista, do que uma banda de funk nos moldes tradicionais, onde o batuque cabe inteiramente ao homem atrás dos pratos.

No palco, são onze músicos, muitos dos quais alternam seus instrumentos com timbales, pandeiros, calimbas e outros, equilibrando o som. Com a lendária pulsação do baixo de Verdine White, é receita para estopim de pista. Igualmente lendários são os falsetes de Philip Bailey, que embora não tenham a pressão de antigamente, continuam com um alcance impressionante.

Na noite de sexta-feira, Bailey alcançou tons mais agudos do que os próprios assobios desferidos pela plateia ao ouvir suas façanhas. Os arranjos do EWF, que mesclam poliritmia africana com pitadas de harmonia erudita constam como milagres do pop do século 20. Não fossem os timbres datados, que marcaram época e hoje em dia remetem a hits da Antena 1 (Hearts on Fire sendo um dos mais emblemáticos) a banda ainda estaria conceitualmente à frente de seu tempo.

Clássicos dominam o repertório do show

How Sweet It Is To
Be Loved by You Jammin”
We Can Work It Out
Higher Ground
Happy Birthday
Overjoyed
I Just Called To Say I Love You
Boogie on Reggae Woman
Sir Duke
I Wish
Do I Do
My Cherie Amour
Sign Sealed, Delivered
Superstition
As

 

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