Stevie Ray Vaughan, o tornado do Texas

Estadão

20 Fevereiro 2013 | 06h40

Gabriel Vituri, Especial para o Estado

“Nós tocávamos no festival de Montreux, em 1982, quando encontramos Jackson Browne. Ele realmente deve ter gostado, porque nos convidou para usar o estúdio dele na Califórnia. Alguns meses depois, carregamos os instrumentos no velho caminhão de leite e fomos de Austin até lá. Chegamos e precisamos pegar alguns rolos de fitas emprestados, já usados, para conseguir gravar as demos. Fizemos oito faixas no primeiro dia e duas no segundo. Essas dez músicas se transformaram no Texas Flood”.

 

O depoimento acima, concedido pelo baixista Tommy Shannon ao Estado, revela a atmosfera que envolvia o trio formado por Stevie Ray Vaughan e a Double Trouble, banda que tinha Shannon no baixo e Chris Layton na bateria.

Juntos, os três sacudiram a década de 1980 com álbuns que, embora mantivessem as raízes, reinventavam o gênero e atraíam a atenção de quem já dava o blues como um fenômeno antigo. Lançado em 1983, Texas Flood, o primeiro disco do trio, agora ganha uma reedição para celebrar os seus trinta anos. O relançamento vem em dose dupla: o primeiro CD traz o setlist original, com dez faixas, e o outro resgata a gravação inédita de um show que a banda fez no dia 20 de outubro daquele ano, na Filadélfia.

Stevie Ray Vaughan nasceu em Dallas, Texas, em 1954, mas foi em Austin que ele deu os principais passos que o transformaram em um fenômeno. Na década de 1970, em gigs da cidade – incluindo aí o clube Antone’s, por onde muitos bluesmen passaram – ele conheceu parceiros e montou algumas bandas, como a Blackbird, da qual Tommy Shannon já fazia parte. Após diferentes configurações, no início de 1980 o trio consolidou a formação que assumiria pela década seguinte.

Embora não fossem mais iniciantes na época do lançamento de Texas Flood, a ficha dos três só caiu mesmo algum tempo depois. “Antes do disco, nós tocávamos algumas vezes em um clube na Califórnia, sempre com umas cinquenta pessoas no lugar todo. Um dia, voltamos para um show e vimos uma fila dando a volta no quarteirão para entrar na casa. Pensamos que eles estavam lá para prestigiar alguma outra atração, mas éramos nós. Foi aí que percebemos o que realmente estava acontecendo”, lembra o baixista da Double Trouble. Além disso, Tommy conta que o Sky King, caminhão de leite que servia como transporte improvisado para o trio, foi então deixado de lado. “Já era hora de comprarmos um ônibus de verdade para turnês”.

O produtor John Hammond, um dos nomes essenciais para alavancar a explosão de Texas Flood, ainda é lembrado com carinho pela Double Trouble. “Hammond era o cara dos ouvidos de ouro. Quando ele escutou as demos do disco, nos levou direto para a Epic, da CBS. Nós devemos tudo a ele. Nós o amamos. Foi uma honra estar por aí com alguém que descobriu tantos grandes artistas”, diz Tommy Shannon.

O sucesso nos palcos, entretanto, veio acompanhado de um problema: adepto da mistura de altas doses de álcool e cocaína, Stevie Ray Vaughan foi aos poucos se debilitando e acabou sendo internado em uma clínica de reabilitação, no meio da década de 1980.

Recuperado não muito tempo depois, Stevie voltou a usar o que tinha de melhor: solos explosivos e um feeling visto em poucas figuras, sendo comparado com frequência a Jimi Hendrix. Irmão do também bluesman Jimmie Vaughan, que sofreu um ataque cardíaco recentemente, o guitarrista desenvolveu linhas e timbres únicos, reconhecíveis a duas léguas de distância.

Dentre tantas outras, SRV teve a ousadia de usar em sua Stratocaster cordas de calibre 0.13, muito mais espessas do que a maioria dos guitarristas costumava ter (o.9 mm), afinadas meio-tom abaixo, deixando seu som mais pesado e venenoso a cada nota.

Morto precocemente em 1990 em um acidente de helicóptero durante uma turnê, SRV lançou apenas quatro álbuns de estúdio, sendo difícil mensurar o que poderia ter feito nos anos seguintes.

Segundo o baixista da Double Trouble, o último disco da banda (In Step, de 1989) estava ainda mais bem acabado, e menos influenciado pelo abuso de drogas que marcara a produção dos anteriores, tornando o ambiente mais propício para grandes inovações. “Stevie tinha um jeito de fazer com que as nossas músicas soassem frescas em todas as noites em que tocamos, e nunca repetia a mesma forma duas vezes”, diz Shannon.

“Ele influenciou todos os guitarristas que vieram depois dele. Você pode ouvir suas frases em muitos músicos novos hoje em dia. Assim como Johnny Winter fez na década de 1960, e como Gary Clark Jr. tem feito hoje, ele ajudou a expor uma geração ao blues. E isso é algo muito bom.”

Entrevista

Tommy Shannon Baixista de Stevie Ray Vaughan: ‘Ele era o melhor em ritmo e solo’

Tommy Shannon fez parte da banda do guitarrista albino Johnny Winter na década de 1960, dividiu o palco com incontáveis lendas do blues e foi o baixista da Double Trouble durante toda a carreira de Stevie Ray Vaughan. Ao Estado, ele falou sobre a gravação de Texas Flood e relembrou o dia em que encontrou Jimi Hendrix.

Quais são as suas maiores lembranças dos dias em que vocês gravaram o disco?

Foi tudo feito ao vivo, era cru e poderoso. Nós sentamos os três (Tommy, Stevie e o baterista Chris Layton) em um canto da sala, voltados um para o outro, e só tocamos. Isso mostra que você não precisa de um monte de equipamentos ou efeitos especiais para fazer um grande álbum.

Qual o segredo para manter o som tão completo e vigoroso como o que se ouve em Texas Flood, sendo que vocês eram apenas um trio?

Eu precisava estar sempre tocando, não importava o quê, para preencher todas as lacunas. Anos depois, quando Reese Wynans chegou e assumiu os teclados na banda, passei a ter mais flexibilidade. Eu tinha alguns truques, tocava acordes no baixo e usava o que chamamos de notas fantasmas, mas a principal razão para soarmos tão completos era Stevie. Ele era o melhor em conciliar ritmo e solos ao mesmo tempo na guitarra. Ninguém conseguia superá-lo, e ninguém o fez até hoje.

Como exatamente aconteceu seu encontro com Jimi Hendrix?

Foi na época em que eu tocava com Johnny Winter, no fim da década de 1960. O empresário do Johnny tinha um clube em Nova York onde muita gente costumava ir, como Janis Joplin, por exemplo. Eu estava no palco tocando baixo uma noite quando alguém cutucou o meu ombro. Olhei para trás e era Jimi Hendrix, pedindo para tocar. Eu parei e, na mesma hora, no meio da música, tirei e passei o instrumento; ele inverteu o lado, porque era canhoto, e aquilo soou muito bem. Ainda tenho esse baixo, e gravamos os discos de Stevie com ele. Stevie e Jimi tocavam com a mesma intensidade e paixão. Ambos tinham esse dom.