‘Spotify é ruim para artistas independentes’, diz guitarrista dos Dead Kennedys

Estadão

04 de março de 2013 | 12h03

Camilo Rocha – caderno Link – O Estado de S. Paulo

 

Para nosso especial de streaming musical, ouvimos também o lado dos músicos. Alguns se mostram indignados com o modelo de pagamento dos serviços, acusando-o de injusto e explorador. Conversamos com dois artistas cujas queixas repercutiram pela rede: Damon Krukowski, do Damon and Naomi, e East Bay Ray, dos Dead Kennedys.

Por motivos de edição, é claro que entraram só algumas frases dessas entrevistas. Como o material todo era muito bom, resolvemos publicá-lo aqui no site. Aqui a íntegra da entrevista com East Bay Ray, guitarrista dos ícones do punk californiano, Dead Kennedys.

1) Em outubro, os Dead Kennedys se queixaram de só ter recebido “algumas centenas de dólares” de pagamentos do YouTube, apesar de terem tido 14 milhões de visualizações. O que exatamente aconteceu? Alguma coisa mudou de lá para cá?

As coisas ainda não mudaram. Aqui está uma rápida olhada em como um YouTube paga os artistas. O YouTube ganhou US$ 1.2 bilhão de lucro ano passado e pagou aos artistas US$ 577 milhões. Significa que eles ficaram com 66% e dividiram 35% com os criadores. Em comparação, o iTunes paga 70% aos criadores e fica com apenas 30%. Então o lucro excedente do YouTube é de US$ 610 milhões, que é o equivalente (tomando como base US$ 50 mil ao ano) ao ganhapão de talvez 12 mil músicos independentes de classe média que agora se foram. As empresas de internet trabalham duro para esconder essa realidade dos fãs – que eles são cafetões repulsivos que não pagam o suficiente às suas damas!

Não é legal que homens de negócios distribuindo a música ganham muito mais que as pessoas que a criam. E essa empresas tem a mesma atitude de exploração quando se trata de diretores de cinema, fotógrafos, escritores, artistas etc, qualquer um que cria conteúdo para eles venderem para os anunciantes. Não são os criadores que fazem a vida mais interessante para nós em vez dos anunciantes?

E ainda fazem piada com todos nós. Google, que é dono do YouTube, tem como slogan a frase “Não seja mau”. Ha!

2) Mas a banda não considera que o YouTube também pode ser útil como plataforma promocional e que isso de certa forma é uma compensação?

Rapaz, esse é um mito cansado que é espalhado há anos pelos homens de negócio da internet. Embora certamente existam algumas estrelas do YouTube, para a maior parte dos artistas isso não acontece. No geral, existem 45% menos músicos trabalhando hoje (Serviço de Estatísticas do Trabalho dos EUA) do que havia em 2002, quando a internet começou a decolar. Então, apesar de que o YouTube ajuda alguns artistas individuais, eu realmente não vejo como as pessoas podem continuar dizendo que ele ajuda quando no geral existem menos músicos trabalhando hoje?

3) E outros serviços de streaming como Spotify e Grooveshark, qual é a experiência da banda com eles?

O Grooveshark é basicamente um roubo. Eles dizem que pagam, mas isso não é verdade. Eles ficam com todo o dinheiro do artista. O Spotify paga, mas são micro-quantidades e é especialmente ruim para artistas independentes. As gravadoras grandes tem interesse de proprietário no Spotify então recebem pagamentos maiores. Seja como for, as bandas têm que ter dez vezes mais audiência para ganhar o mesmo que o download de iTunes. Então, todos precisam parecer mais com Justin Bieber para ter um apelo maior.

Uma solução que está acontecendo na Suécia, onde o Spotify começou, é que todo mundo pode ter música no seu computador ou telefone por uma mensalidade mensal, equivalente a outras mensalidades de internet. Isso poderia gerar renda sustentável para músicos e artistas. Outro remédio seria as adnetworks (segundo a IAB Brasil, rede que conecta diversos websites e disponibiliza o inventário para comercialização de publicidade para agências e anunciantes) dividirem a renda de maneira justa com artistas em vez de ficarem com ela toda ou pagarem só uma fração mínima.

4) Alguns argumentam que o negócio de streaming musical ainda está no começo e que as coisas podem melhorar com o tempo. Por exemplo, Donald S. Passman, conhecido advogado de música e autor do livro All You Need to Know About the Music Business. Ele disse: “Os artistas também não ganhavam muito quando os CDs apareceram. Eles eram uma coisa de especialista, e tinham uma taxa de royalty baixa. Daí, quando eles se tornaram populares, os royalties melhoraram. E é isso que vai acontecer aqui. Você acredita que isso poderia acontecer?

Os serviços de streaming poderiam e provavelmente irão amadurecer mas o problema agora é que eles estão competindo com negócios de distribuição ilegal que dão música de graça e vendem publicidade para ganhar dinheiro. A isso se chama de “monetização”. Mesmo se um empresário quiser fazer a coisa certa, é difícil competir com o gratuito.

Não se trata de garotos em porões, são grandes negócios e sites piratas que estão na folha de pagamento de corporações multinacionais e adnetworks. Alguns tentam confundir a questão, mas existe uma grande diferença moral entre dividir arquivos com amigos e família, o que é bacana, e distribuir ilegalmente por dinheiro. Estes vermes exploradores enriquecem as custas de artistas e não pagam nada aos criadores! Quando tiver pessoas o bastante sabendo disso e querendo retomar a internet da ganância corporativa, ela mudará para melhor.

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