Sob a regência do rock – astros caem de cabeça na música erudita

Estadão

27 de outubro de 2010 | 08h18

João Marcos Coelho – especial para o Estado de S. Paulo

“Músicos clássicos estão tocando música contemporânea e incorporando elementos do rock e do pop mainstream, enquanto artistas populares estão escrevendo para orquestra e se apresentando em salas de concerto.

Não está claro no que desembocarão estas novas liberdades formais, mas eu sempre me inspirei em artistas que mostram curiosidade musical e intelectual – especialmente os que têm a coragem de assumir riscos.”

A frase de Renée Fleming, uma das maiores cantoras líricas da cena atual, qualifica de modo abrangente e correto o momento que vivem os músicos. Em décadas passadas, o pop e o erudito flertaram, namoraram e produziram o chamado ‘crossover’.

Noventa e nove por cento destas fertilizações cruzadas resultaram em música banal, inconsistente, descartável.
É possível que agora estas incursões inesperadas ultrapassem o óbvio e resultem em música que valha a pena. Alguns lançamentos recentes indicam, em ambos os lados da cerca, música de melhor qualidade. Estariam os artistas pop ganhando maturidade para com o universo erudito e vice-versa? Parece que sim.

Será que é mesmo tão difícil para um músico popular arriscar-se no erudito? As incursões malogradas de Paul McCartney ajudam a fortalecer o preconceito. Seu pífio oratório Liverpool, de 1991, deve ser creditado mesmo ao maestro e compositor Carl Davis, nada tem a ver com o universo artístico do ex-Beatle. Há pouco, outro roqueiro ilustre, Sting, acaba de cometer “Symphonicities” (Deutsche Grammophon/Universal).

Pra que encher de cordas os arranjos de suas canções tão conhecidas? Tudo postiço. Melhor ficar com o velho e bom Sting do Police, nos anos 80.

Sting em ação com sua turnê "Symphonicity" em Vancouver, no Canadá (REUTERS/Andy Clark )

O que une todas estas tentativas, a maior parte delas frustrante? Provavelmente, o DNA europeu destes músicos, que tiveram desde a infância uma formação clássica – e por isso, no seu inconsciente, enxergam sempre no fim do túnel uma moldura erudita. Dois outros músicos britânicos deram-se muito bem em suas aventuras clássicas. São casos recentíssimos – e bem-sucedidos – que reforçam bastante nosso argumento.

Comoção clássica

O primeiro é o célebre Jeff Beck. Em Emotion & Commotion, que ele vem lançar no Brasil no dia 25 de novembro, na casa de espetáculos Via Funchal, o talentosíssimo guitarrista faz um passeio fascinante pelo universo erudito.

Seu experiente produtor Steve Lipson (ex-engenheiro de som dos Rolling Stones, que produziu trabalhos de McCartney, Pet Shop Boys e Simple Minds, entre outros) colocou-o à frente de uma orquestra de 64 músicos. E faz seu instrumento cantar de modo eruditamente refinado já na primeira faixa, Corpus Christi Carol, onde o compositor inglês Benjamin Britten chora os mortos na Segunda Guerra Mundial.

Gratas surpresas

Sutil o arranjo sinfônico de Peter Murray. Outra leitura emocionante é a da famosíssima ária “Nessun Dorma”, da ópera Turandot, de Puccini: começa erudita e o pulso regular, aos poucos, propicia 6 minutos contemplativos de Beck.

Ainda com a orquestra a seus pés, ele expõe o tema e depois acompanha a cantora Olivia Safe na meditativa Elegy for Dunkirk, tema de Desejo e Reparação, filme de 2007 baseado no romance de outro inglês, Ian McEwan. Uma das gratas surpresas do CD é o arranjo ‘erudito’ de Murray para Somewhere over the rainbow, a clássica canção do filme O Mágico de Oz.

Jeff Beck toca a cerimônia de 25 anos do Hall of Fame norte-americano em 2009 (REUTERS/Lucas Jackson)

Mas o exemplo mais impactante desta tendência é o do também inglês Peter Gabriel, em seu mais recente CD, Scratch my Back. Num vídeo disponível em seu site (www.petergabriel.com), ele afirma que seus ídolos são Igor Stravinsky e Arvo Pärt – duas escolhas surpreendentes mas compreensíveis quando se ouvem as músicas.

Gabriel atinge aqui um nível raro entre intérpretes populares: acrescenta a linguagem da música sinfônica a suas canções e de outros compositores sem que a música erudita entre a marteladas. Ao contrário, parece que Peter Gabriel as compôs assim mesmo, neste formato: sem guitarras nem bateria; só voz e instrumentos sinfônicos.

Duvida? Ouça “Mirrorball” (Elbow), “Heroes” (David Bowie), “Listening Wind” (Talking Heads), “The book of love” (The Magnetic Fields) ou “Philadelphia” (Neil Young). Os reponsáveis pela proeza são o compositor e arranjador John Metcalfe (ex-Durutti Column) e o produtor Bob Ezrin (trabalhou no célebre “The Wall” de Pink Floyd e em “Berlin”, de Lou Reed).

É, a música erudita está mesmo no DNA, senão de todos os roqueiros em geral, ao menos no dos britânicos. Gabriel, Sting e Jeff Beck estão aí para provar a teoria.

Peter Gabriel e orquestra tocando em Roma, em setembro passado (REUTERS/Denis Balibouse)