Smashing Pumpkins, quase alternativos

Estadão

19 de novembro de 2010 | 16h19

Jotabê Medeiros

Nos anos 90, o grupo norte-americano Smashing Pumpkins elevou o termo “alternativo” à categoria de gigante, fundindo rock progressivo com psicodélico, heavy metal com gótico, pop com grunge. Tornou-se um modelo para todos os alternativos – de como caminhar “à margem”, mas não tão à margem assim que não possa encher estádios, vender milhões (foi o que aconteceu com seu disco “Siamese Dream”, de 1993) e flanar em Hollywood (estão na trilha do filme “Batman e Robin”, por exemplo).

Naquela mesma década, o grupo tocou no extinto festival Hollywood Rock, no Pacaembu, e foi um dos melhores shows daquela noite. Mas seus integrantes – o líder e criador do seu conceito, Billy Corgan, o guitarrista James Iha e a baixista D’Arcy (depois trocada por Melissa Auf der Maur) e o baterista Jimmy Chamberlin – nunca viveram exatamente em paz. Sempre foi um terror, até que em 2000 eles dissolveram o grupo.

Formalção atual do Smashing Pumpkins (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Neste sábado, o festival Planeta Terra promove o retorno dos Smashing Pumpkins ao Brasil, 12 anos depois de seu derradeiro show. A banda agora tem Billy Corgan (voz, teclados, guitarras, composição, management, etc.), e mais Mike Byrne (baterista de 20 anos recrutado pelo cantor) e Nicole Fiorentino (baixista que já tocou com Spinnerette e Veruca Salt) e Jeff Schroeder (guitarra). Billy Corgan, já uma lenda do rock, falou ao Estado de S. Paulo por telefone, na semana passada.

Você está com uma banda totalmente nova. Do grupo que veio aqui há 12 anos, só sobrou você. De vez em quando, no palco, não tem saudade dos velhos companheiros?

Não. Porque eles estão no passado, e eu estou levando o Smashing Pumpkins para o futuro. O que fazemos agora não está no passado. Meus antigos parceiros não são mais os mesmos, e eu também não sou. Tudo muda, nada fica parado no tempo. E não sinto falta deles, não tenho saudade de nada.

Você lançou um disco, em maio, com quatro músicas que não têm nada a ver com a outra. E pretende lançar outro, este mês, que segue o mesmo princípio. É uma espécie de álbum anticonceitual, um antiálbum?

Acho que tudo começou com a ideia de que o álbum não é mais tão importante quanto costumava ser. As plateias não estão mais ouvindo um disco inteiro, elas selecionam aquilo que lhe interessa e jogam o resto fora. Antes, era comum a gente fazer um disco inteiro pensando em como dar uma unidade a tudo aquilo, tentar que as canções “funcionassem” como um todo.

 Era muito foco na procura de um significado comum do que no potencial intrínseco daquela canção. E, hoje, há o fato de que a nova forma de divulgação, de acesso às músicas, se dá separadamente, na internet. Sempre acreditei que os artistas podiam edificar todo um conceito compactadamente, canalizar toda a energia para uma só canção.

Uma única música pode contar toda a história, ela pode se encerrar em si mesma. Ouve-se muita coisa ao mesmo tempo, e o desafio do artista é fazer com que aquilo que se ouve do seu trabalho contenha muitos significados, que seja fundamental.

Isso também não tem algo a ver com a crise na indústria fonográfica? Não há mais uma indústria organizada como havia antes, a rigor.

Sim, tem tudo a ver. Não me vejo mais colocando minha energia numa indústria quebrada, obsoleta. O último disco do Smashing Pumpkins foi lançado pela WEA, e a gravadora não o tratou como prioridade. Quando fomos fazer uma turnê internacional, não tivemos nenhum apoio, é como se não existisse uma gravadora. Então, decidi que, de agora em diante, o foco será apenas naquilo que podemos fazer com nossas próprias forças, sem ficar esperando nada. A relação com as companhias de discos, atualmente, é doentia, disfuncional.

Mas é dureza ter de organizar uma excursão, não? Por exemplo, agora vocês estão vindo à América do Sul.

Para um artista, é complicado, de fato. Muita gente não sabe o tanto de esforço que isso dá. Os fãs veem o vídeo, mas não têm ideia de quantas pessoas foram necessárias para filmar aquilo, para produzir algo com qualidade. Não se dão conta de que muitos artistas relevantes têm vida curta no show biz porque não aguentam, ou não tem habilidade, para fazer todas as funções e acumular todas as responsabilidades de levar a música até as pessoas.

Não sabem que, quando baixam irregularmente algo, muitos artistas não ganham nada. Por outro lado, há uma imensa oferta de bandas na internet, muita gente berrando por atenção, e isso não significa necessariamente que estejam fazendo boa música. Talvez até mesmo haja novos parâmetros, que não são os da qualidade. Acho que ainda sou capaz de compor boa música, e ela não precisa necessariamente estar limitada a um formato.

Entre as músicas que você lançou, há uma muito acústica, “Widow Wake My Mind”, e outra muito elétrica, pesada, “Stitch in Time”. E ainda uma outra, “Song for a Son”, que lembra muito “House of Rising Sun”, ou seja, tem aquele tipo de abordagem do rock clássico.

Sim, é isso. Você está certo. Em Song for a Son, a ideia era justamente essa, buscar um tipo de sonoridade que ajudasse a criar cenas na memória das pessoas, como num filme. Em geral, a gente lembra de cenas de filmes e a música está conectada àquelas imagens. Busquei algo parecido.

Você tem feito muitos shows beneficentes. O que o move a fazer esse tipo de ação?

Gosto de fazer o que posso para ajudar. Não me sinto culpado em relação a nada. Mas tenho a impressão que posso convencer mais gente a acreditar que pode ajudar. Não tenho a pretensão de salvar o mundo, mas sei que posso fazer alguma coisa, e se não fizer não ficarei satisfeito. Mas só faço o que quero fazer, ninguém me obriga a nada.

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