Sisters of Mercy, trilha da civilização maquinista

Estadão

12 de março de 2012 | 22h00

Jotabê Medeiros

Fundamental banda dos anos 1980, o grupo britânico Sisters of Mercy, que tocou no último sábado em São Paulo, continua sendo um marco do gothic rock. Em um quarto do Hilton paulistano, hospedado sob o codinome Austin Spacey, uma lenda do rock britânico atendeu o telefone.

“Sim, aqui é Andrew Eldritch”, confirmou o hóspede à reportagem do Estado, com sua voz tonitruante de narrador de série de literatura fantástica. Ex-acadêmico de literatura francesa e alemã em Oxford, o cantor e compositor fundou (com o guitarrista Gary Marx) o Sisters of Mercy em 1980, em Leeds (Inglaterra) tirando o nome da banda de uma canção de Leonard Cohen. Sua antevisão mudou a face do pop – até o insight de usar uma máquina para fazer uma batida artificial, batizada de Doktor Avalanche, foi visionário.

Eldritch estima que já tocou umas quatro vezes no Brasil. Não está em turnê com um disco novo, mas conta que metade do concerto no Via Funchal será preenchida com músicas novas, nunca gravadas antes.

Ele diz que não se importa que essas músicas apareçam no YouTube no minuto seguinte. “Não me incomoda. O que me incomoda é ver que, em alguns lugares, só consigo enxergar câmeras e celulares olhando para cima, em vez de rostos. Não consigo entender como alguém gasta seu dinheiro para comprar um ingresso e depois vê a coisa inteira numa câmera”, afirmou.

Copiar suas músicas novas, entretanto, não é algo que o deixe chateado. “Mesmo antes de a indústria musical ter morrido, já era uma prática comum copiar e vender algo que não lhes pertencia. Não há o que se possa fazer.”

O que o deixa chateado é fazerem relação entre o som do Sisters of Mercy e a cultura gótica. “Isso me desagrada. Sou um modernista, se não um futurista. Nós abordamos temas espirituais em algumas das nossas canções, mas sempre como uma metáfora de algo mais.”

Eldritch declarou profundo interesse pela pintura italiana dos anos 20 e 30. “Há um cara chamado Crali (Tullio Crali, 1910-2000), que pintou a tela Diving on a City. É um dos meus favoritos. É algo que olha para a frente, e celebra o maquinismo. Às vezes pode ter uma leitura fascista, às vezes não. Mas o modernismo fala comigo.”

Eldritch comentou declarações dos ingleses Morrissey e Roger Waters sobre as Ilhas Malvinas serem argentinas, e não britânicas: “Não há controvérsia: é uma inevitabilidade geográfica. Se eu gosto ou não, não importa. Acho que as companhias mineradoras podem argumentar de outro jeito. Se perguntar à maioria dos ingleses se eles querem lutar por uma ilha a milhões de milhas de distância, vão dizer: ‘Não!’. O tema está quente agora porque é tempo de eleição. Muitas coisas estranhas surgem de forma barulhenta em tempos de eleição. Mas não acho que seja algo com o qual o povo argentino ou o britânico se importem muito neste momento”.

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