Shows internacionais: 'nova indignação' e mais choramingos contra a concentração em SP

Estadão

05 de setembro de 2011 | 06h40

Marcelo Moreira

O rock no Brasil está concentrado em São Paulo e os promotores de shows internacionais esquecem do resto do Brasil, ignorando “milhões” de fãs em outros Estados. Essa cantilena já não é nova e aborreceu bastante gente no passado mas, lentamente, está voltando.

Na última edição da revista Roadie Crew, do mês de agosto, na seção de cartas, uma revoltada leitora de Salvador fez um protesto contra o que chamou de discriminação sulista. Reclamou da concentração de eventos na capital paulista, muitas envolvendo três ou quatro bandas gringas tocarem no mesmo dia, “congestionando” a agenda de todo mundo. “O Nordeste sempre fica de fora, obrigando muita gente a gastar dinheiro que não tem para comprar ingresso, reservar hotel, pagar táxi…”

O ótimo site de rock Whiplash também recebe com frequência neste 2011 queixas do tipo. E agora elas chegam ao Combate Rock via Facebook.

A choradeira é cansativa, mas creio ser necessário recolocar as coisas nos seus devidos lugares. É muito mais simples culpar a entidade amorfa e difícil de identificar chamado “promotor de shows internacionais”. Por que será que ninguém se pergunta sobre os motivos de bandas legais, grandes ou médias, não tocarem em suas cidades?

Um grande jornalista de economia do Brasil afirmou nos anos 80 que o empresariado brasileiro estava muito empenhado em criar o que ele batizou de “capitalismo sem risco”: a ideia é sempre ganhar bastante dinheiro, e fazer de tudo para que não haja risco, de preferência se aninhando em alguma sinecura ou mamata junto ao poder público.

Guardadas as devidas proporções, esse pensamento é dominante na área de entretenimento no Brasil. Vai desde conseguir o máximo de isenções fiscais possíveis, como no caso dos cineastas brasileiros que amam se pendurar no governo para “filmar” até cantoras decadentes de MPB que buscam dinheiro público para criar “blog de poesia”.

Na área musical não é diferente. São poucos os que arriscam, até para verificar qual é a resposta do público. Quem arriscou – com competência e muita informação, é básico -, como Roberto Medina, criador do Rock in Rio, se deu bem.

São frequentes as críticas de supostos jornalistas musicais deste país de que as bandas internacionais só veem ao Brasil quando estão em decadência, entre outras sandices. Foi assim no caso dos Rolling Stones, quando aportaram aqui somente em 1995. “Hoje são velhos caquéticos e decadentes. Por que não vieram ao Brasil quando estavam no auge, nos anos 70?”, escreveu um idiota incensado pela imprensa musical medíocre da época.

A resposta é bastante simples: porque ninguém quis pagar, bancar o risco. Simples assim. Mick Jagger e Keith Richards adoravam o Brasil naquele tempo e passavam férias longas por aqui ano sim ano não até 1977.

Rolling Stones durante a turnê norte-americana de 1975

E foi numa destas passagens pelo Rio, em 1975, que empresários do meio conseguiram acesso a Jagger e perguntaram quanto eles cobravam para tocar no Brasil. O cantor não perdeu tempo, tirou um cartão da carteira e entregou ao empresário. “Ligue para o nosso tour manager”, respondeu o músico.

A conversa assustou. O preço na época do cachê seria o equivalente hoje a R$ 2 milhões, mais todas as despesas pagas, fora os custos de infraestrutura, como hospedagem e transporte. Os brasileiros desistiram no ato. Os três shows mais recentes do U2 custaram mais de US$ 10 milhões só em cachês, fora o resto. E mesmo assim lotou e todo mundo cansou de ganhar dinheiro.

Portanto, os Rolling Stones não tocaram aqui em 1975 porque ninguém aceitou bancar o risco do evento. O mesmo ocorreu com o Led Zeppelin em 1977. Esse pensamento domina quem se aventura a tentar promover shows de rock fora de São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília e Porto Alegre.

Aqui no Combate Rock já escrevi sobre o Rio de Janeiro ser o “túmulo” do rock no Brasil, por conta de não receber vários eventos internacionais. Se o Rio, com sua força econômica, não consegue atrair eventos de porte com frequência, imagine então outras cidades do Brasil.

O fato é que existe um agravante na questão da aversão ao risco de promotores de fora do Sudeste: a falta de um público cativo de rock para justificar a ida de uma banda de porte para o resto do Brasil.

E olha que ultimamente a coisa tem melhorado um pouco, já que Iron Maiden esteve recentemente em Recife, assim como Scorpions e outras bandas. O Blind Guardian vai tocar em São Luís, no Maranhão, neste segundo semestre, e o Deep Purple se apresentará em outubro em Fortaleza.

Seja como for, não dá para desprezar que cada promotor local sabe o público que tem. Um show do Iron Maiden lota estádios em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba, mas não leva mais do que 10 mil pessoas no Rio de Janeiro e com muito custo levou 15 mil em Recife. É uma quantidade insuficiente para justificar a realização de um show caro e de porte. Por isso é que o U2 só toca em São Paulo e, de vez em vez, no Rio.

Iron Maiden na última turnê pelo Brasil, no começo de 2011 (FOTO: JF DIORIO/AE)

Assim sendo, antes de reclamar da “discriminação sulista” ou da suposta miopia dos “promotores de shows internacionais”, é bom que se olhe para os “parceiros” locais e que se pergunte a eles por que não arriscam a levar mais eventos para estes locais. O problema é que a resposta não será interessante, porque não será que os chorões e comodistas querem ouvir.

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