Shows em 2010: um ano irretocável

Estadão

08 de janeiro de 2011 | 09h11

Jotabê Medeiros

Música ao vivo, música viva, música para os vivos.  Da esfera alternativa à seara dos megashows, o ano de 2010 foi excepcional – em diversidade, qualidade e quantidade.

São Paulo firmou-se no ano como a cidade com a agenda mais forte da América Latina, superando definitivamente a Cidade do México e Buenos Aires.  Ampliou sua oferta e expandiu seu território (instalando em Itu o campestre SWU, sucesso em outubro).
 Em contrapartida, o Rio de Janeiro saiu do centro de influência do show biz, com o desaparecimento daquele que era o festival de música pop internacional mais importante, o TIM Festival.  Tenta mudar essa situação, trazendo de volta o Rock in Rio e criando novas condições de segurança e investimento na capital carioca.
Artigo do economista José Roberto Mendonça de Barros, no início deste mês, fazia a contabilidade da euforia musical em São Paulo.  “Tivemos na cidade três grandes festivais de música: F1 Rocks (Atrações: Eminem e N.E.R.D.); Ultra Musica Festival (Atrações: Fatboy Slim, Carl Cox, Moby, Above & Beyond, etc.); Planeta Terra (Atrações: Pavement, Mika, Phoenix, Empire of the Sun, Girl Talk, Holger, Hurtmold, etc.), que mobilizaram 72 mil expectadores.
Além dos festivais, tivemos a apresentação de quatro megashows internacionais: Black Eyed Peas, Jonas Brothers, Norah Jones (o único espetáculo gratuito do período) e culminando com os grandes espetáculos de Paul McCartney.

Paul McCartney em São Paulo (FOTO: FILIPE ARAÚJO/AE)

 Shows menores (com cerca de 6 mil espectadores cada) contaram com Tokio Hotel, Rammstein e Echo & The Bunnymen.  Esses eventos tiveram um público de 240 mil pessoas”, escreveu Mendonça de Barros, explicando sua tese de porque o Sudeste está voltando a puxar o crescimento brasileiro.
Mais do que números, no entanto, interessa ao apreciador da música a qualidade.  E esse foi o aspecto mais interessante do período.  Em setembro, o festival Invasão Sueca trouxe dois shows de extrema originalidade: a cantora Anna von Hausswolff, discípula de Nico, a trágica voz do Velvet Underground; e a dupla de gêmeas Taxi Taxi, Miriam e Johanna Eriksson Berhan, uma experiência musical cósmica.
O jazz não deixou por menos: foi arrojado, com a revelação Christian Scott, o trompetista rebelado; e foi ainda mais arrojado, com os shows de Ornette Coleman no Sesc Pinheiros.  O ano abriu espaço para o experimentalismo mais radical, com o show Metal Machine Trio, de Lou Reed, no Sesc Pinheiros.
Na área dos megashows, a excelência do som (e do legado) de Paul McCartney, em duas apresentações no Morumbi e uma em Porto Alegre, em novembro, não deixou margem a dúvidas: foi o concerto do ano para 10 entre 10 observadores profissionais da música.
 O cantor, de 68 anos, apresentou-se para cerca de 178 mil pessoas no País.  Ficou 17 dias por aqui, andou de bicicleta pela Rua Tabapuã, no Itaim-Bibi, e foi até o Parque do Povo.
McCartney foi mais do que um show, foi uma celebração, um instante de trégua e irmandade.  Pelo estádio do Morumbi, durante seus shows, empunhavam-se orgulhosamente bandeiras do Ceará, de Minas Gerais, ouviam-se sotaques do Rio e de Pernambuco, conversas de jornalistas chilenos e fãs peruanos.
Ainda carente de um digno espaço público para shows de grande porte, São Paulo viu o Morumbi tornar-se a principal praça da música no ano.  Por ali passaram ainda Metallica, em janeiro, Beyoncé, em fevereiro; Rush, em outubro; e Black Eyed Peas, em novembro.  O Parque Antártica, enquanto esteve aberto, deu guarida para os também grandalhões Guns’N Roses (abril) e Aerosmith (maio).

Geddy Lee, do Rush, no Morumbi (FOTO JF DIORIO/AE)

Shows médios, como o do grupo escocês Franz Ferdinand em março, no Via Funchal, e o do Stereophonics, do País de Gales, em novembro, no Citibank Hall, mostraram grande poder arregimentador – não só de multidões, mas de roqueiros sem pose e sem frescura.  
O veterano grupo ZZ Top estreou em terras brasileiras 41 anos depois de seu início, sob as bênçãos de Jimi Hendrix.  “Robert Johnson cantou o blues e Hendrix forçou as cordas.  Aquelas coisas distantes, desde então, reverberam através das gerações.  Fender, Gibson, Gretsch: segure-as bem firme e espanque-as!”, disse o lendário guitarrista Billy Gibbons ao Estado de S. Paulo.
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O último herói da guitarra, Jeff Beck, fez um show impecável no Brasil em novembro, armado com sua Stratocaster.  Um dos pioneiros do blues rock inglês, com o Jeff Beck Group e os Yardbirds, também foi um dos primeiros a abandoná-lo e aventurar-se em outras praias, como o jazz fusion, o funk e a música erudita.  No show do Via Funchal, o veterano apresentou sua nova baixista, Rhonda Smith, que ensandeceu a plateia.

O guitarrista Jeff Beck mostrou técnica e versatilidade no show de são Paulo (FOTO: STEPHAN SOLON/DIVULGAÇÃO)

Na linha “saudade não tem idade”, o astro que veio não deixou ninguém a ver navios.  Lionel Brockman Richie Jr., de 61 anos, também foi outro a dar o ar de sua graça pela primeira vez no Brasil.  O homem tem 30 anos de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos, uma verdadeira instituição da música soul, ex-integrante do mítico conjunto The Commodores.  No Ginásio do Ibirapuera lotado, fez mais de três mil mulheres cantarem a parte feminina da canção “Endless Love”, que ele tornou célebre em parceria com Diana Ross.
Em Itu, teve lugar a primeira edição do SWU (Starts With You) Festival, talvez o festival com o melhor elenco artístico em anos no Brasil.  Dali, saíram alguns dos mais festejados shows do período: Pixies, Rage Against the Machine, Mars Volta, Queens of the Stone Age.  Mas houve também momentos de visionarismo na jornada, como o estranho e belo concerto de Regina Spektor, e as explosões elétricas de CSS e Lucas Santtana.
Quando parecia que a fatura de 2010 já estava praticamente encerrada, eis que desceu na Vila Olímpia o piromaníaco grupo alemão Rammstein, um show de grande poder de combustão e teatralidade.  Liderada por um excelente vocalista performático, Till Lindeman, a banda trabalha em uma fronteira entre o teatro físico e o heavy rock, e foi tão impactante seu show que tiveram de marcar um segundo no dia seguinte, às pressas, tal a procura.

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