'Seventh Star', outro álbum cult e de qualidade do Black Sabbath

Estadão

29 de março de 2011 | 08h39

Marcelo Moreira

Glenn Hughes estava nervoso nos camarins do antigo Tom Brasil, no bairro do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo. A casa era sofisticada, moderna e com ótimos recursos acústicos. Era raro que roqueiros se apresentassem ali, e o ex-baixista e vocalista do Deep Purple era o maior nome internacional a tocar ali até então – 1999.

Era a terceira visita ao Brasil, mas somente o segundo show em terras brasileiras. Ele havia prometido uma grande surpresa ao público brasileiro, uma música que nunca havia tocado em sua carreira solo.

Os mais fanáticos especulavam qual seria a surpresa e a maioria não pensou duas vezes: cravou “No Stranger to Love”, ótima balada gravada por ele na rápida e conturbada passagem pelo Black Sabbath em 1986. A aposta foi certeira e a música trouxe abaixo o Tom Brasil, com o público de 2 mil pessoas cantando alto a bela música do álbum “Seventh Star”.

Pois esse álbum do Black Sabbath, assim como “Born Again”, virou cult na América do Sul. A produção e a mixagem não foram toscas e malfeitas como no álbum de três anos antes, em que Ian Gillan foi o vocalista. Entretanto, as gravações e a própria construção do trabalho foram extremamente conturbadas.

Black Sabbath em 1986, da esq. para a dir.: Dave Spitz (baixo), Hughes, Iommi, Eric Singer (bateria) e Geoff Nicholls (teclados)

“Seventh Star” era para ser um álbum solo de Tony Iommi após a saída de Ian Gillan do Black Sabbath em 1984. O futuro incerto e a dificuldade de encontrar um vocalista no ano seguinte fizeram com que o baixista Geezer Butler também saísse bem no meio dos testes realizados com os cantores Dave Donato e Jeff Fenholt.

Decidido a fazer um álbum solo e congelar temporariamente o Sabbath, Iommi convidou vários amigos para cantar no álbum, entre eles Gillan, Glenn Hughes, Robert Plant, Rob Halford e Geoff Tate, então emergente no Queensryche. Os dois primeiros aceitaram na hora.

Durante as gravações, no final de 1985, a gravadora mudou os planos de forma asquerosa e colocou o guitarrista na parede: ou o álbum saía com o nome do Black Sabbath ou seria cancelado. Ao mesmo tempo, apenas Hughes já tinha feito a sua parte – os outros voclaistas estavam sem tempo para participar.

O jeito foi convencer Hughes a cantar o álbum todo – o vocalista revelou mais tarde, em São Paulo, em 1994, sua mágoa por ter descoberto que seria um CD do Black Sabath somente após as mixagens.

Capa de 'Seventh Star"

Seja como for, “Seventh Star” é um álbum irregular, desconexo, sem um elo que conseguisse ligar faixas tão distintas e heterogêneas – exatamente como em “Born Again”, só que de forma mais acentuada. Entretanto, a produção se esmerou em tentar dar uma “cara” para o trabalho e, de certa forma, foi bem-sucedida.

Mesmo em seu inferno astral particular, afundado no álcool e nas drogas, Glenn Hughes fez um trabalho digno e bastante aceitável. Cantou muito na pesada e rápida “In For the Kill”, mostrou que tem o blues no sangue na excelente “Heart Like a Wheel” e muito feeling hard em “Seventh Star” e “Danger Zone”.

Naquela que seria o ponto baixo do álbum, a brega “No Stranger to Love”, o vocalista mostrou todo o seu talento e a transformou no destaque  do álbum, colocando um acento bluesy em uma interpretação soberba, apesar da camada exagerada de teclados – o clipe da música teve a atriz Denise Crosby contracenando com Iommi; a moça teve papel de destaque na série “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração, como a tenente Natasha Yar.

“Seventh Star” teve uma trajetória errática nas paradas, assim como “Born Again”. Se este inicialmente vendeu bem nos Estados Unidos para depois cair no esquecimento no resto do mundo no biênio 1983-1984, o álbum com Hughes passou despercebido desde o começo, apesar do sucesso inicial de “No Stranger to Love” nas rádios e na MTV.

A turnê de 1986 do álbum foi um fracasso, com desavenças entre os músicos e a substituição de Hughes por Ray Gillan no quinto show norte-americano. Muitos shows foram cancelados e Iommi rezou para que os shows acabassem.

O trabalho “Seventh Star” foi redescoberto graças a reedição de todo o catálogo do Black Sabbath em LP na Argentina e na estreia em CD do álbum no Brasil, em 1989. Nostalgia ou não, o fato é que foram necessárias seis prensagens portenhas de “Seventh Star”, “Eternal Idol”, “Headless Cross” e “Tyr” em LP para saciar a sede dos argentinos.

Por conta das importações dos vinis da Argentina, que viraram objetos de desejos dos fãs brasileiros, a Universal rapidamente providenciou uma reedição dos quatro álbuns tanto em LP como e em CD. E o sucesso foi ainda maior do que na Argentina. Pouco tempo depois “Born Again” voltou ao mercado, com sucesso igual.

Por que “Seventh Star” também é cultuado no Brasil como “Born Again”? O disco com Gillan, ao menos, é uma obra-prima, com ótimas músicas (“Trashed”, “Hot Line” e “Disturbing the Priest” se tornaram clássicos, mesmo que tardiamente).

“Seventh Star” está longe de ter a mesma qualidade que “Born Again”. Foi um álbum feito às pressas e teve uma quantidade imensa de problemas na definição dos músicos e nas gravações. Mesmo assim, tecnicamente apresenta um resultado superior ao de “Born Again” – graças à mixagem de Jeff Glixman, Ray Staff e Greg Fulginiti.

Quem tem a chave para entender a questão é o próprio Glenn Hughes. “Brasileiros, argentinos e japoneses costumam valorizar alguns aspectos da produção musical que vão além da questão mercadológica. Meu trabalho com Pat Thrall(“Hughes and Thrall”, de 1982) teve um desempenho inacreditável no Japão e até hoje vende bem, sendo que no resto do mundo ele não teve tanta repercussão ao longo dos anos. ‘Seventh Star’ é cultuado na América do Sul porque ele é diferente, não se parece com nada na minha discografia e nem com a do Black Sabbath – nunca eu e Tony (Iommi) fizemos algo parecido com aquilo e nem voltaríamos a fazer, com quem quer que fosse. É de certa forma acessível, nem tão pesado, um contraponto ao hard rock norte-americano que dominava as paradas. Não sei se é bom ou ruim, o público é deve dizer, mas considero que nele há músicas interessantes e fortes”, disse o músico em entrevista a três jornalistas em um hotel pauoistano após o show do Tom Brasil.

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