Sepultura e a codificação do nacional no heavy metal brasileiro – parte 3

Estadão

23 de junho de 2012 | 17h00

Idelber Avelar – texto publicado no ótimo blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso *

Na reserva poética de rituais de migração e abandono criada pela música de Milton Nascimento, a imagem recorrente é a do matuto interiorano que parte e regressa com o diploma, num ritual em que Belo Horizonte é terra estranha, metonímia da modernidade e objeto de desejo. De lá o sujeito em geral volta como visita, de preferência com uma sinhá mocinha para apresentar.

O momento em que Milton, de mãos dadas com Tancredo e Sarney, coloca o imaginário fraternal-progressista a serviço dos palanques da Nova República coincide com o abandono definitivo, por parte da adolescência urbana mineira, de qualquer identificação com a MPB.

 Não por acaso, o ataque violento à iconografia católica é a pedra de toque do heavy metal que se articulava no mesmo bairro de Santa Teresa em que havia surgido, quinze anos antes, o Clube da Esquina (note-se que saem do mesmo bairro de Belo Horizonte as duas mais ilustres contribuições de Minas Gerais à música popular do planeta). Enganaram-se os que viram no satanismo do primeiro Sepultura uma mera cópia de Slayer. A resposta à pesada herança cristã de Minas Gerais era nítida.

A música de Milton havia se apropriado dos símbolos de caridade e fraternidade da herança católica de Minas Gerais, dotando-lhes de um sentido político e emancipatório, num processo que culmina nos discos Sentinela (1980) e Missa dos Quilombos (1982).

O heavy metal, por outro lado, mergulharia na iconografia católica para articular não uma reapropriação, mas uma estratégia de radical negação, inversão e esvaziamento de seus conteúdos. Ao contrário de Milton, o metal não distinguia uma mensagem recuperável na religiosidade mineira. Cancelava-a através de um uso descontextualizador, que esvaziava seu aparato simbólico.

As cruzes invertidas, as alusões satânicas e a obsessão escatológica negavam aquilo que a música de Milton ficou famosa por expressar: a esperança de que por trás do universo religioso, tradicional e conservador do catolicismo mineiro residisse um núcleo emancipatório e fraternal de compaixão politicamente disponível. O metal em Minas emerge não como cópia do satanismo de bandas europeias e americanas, mas como negação dessa disponibilidade. A aliança entre a MPB e uma Nova República rejeitada pela juventude foi a mola propulsora definitiva dessa negação.

* * *

P.S.: O texto acima é um trecho do capítulo 3 de Figuras da violência: Ensaios sobre ética, narrativa e música popular, livro do meu amigo Idelber Avelar com oito ensaios independentes, que têm em comum o tratamento da interseção entre as dimensões retórica e política da violência.

 

* Idelber Avelar (1968) é licenciado em Letras pela UFMG e doutor em literaturas latino-americanas e teoria literária por Duke University. É autor de Alegorias da derrota: A ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina (1993) e The Letter of Violence: Essays on Ethics, Narrative, and Politics (2004). Co-editou recentemente o volume Brazilian Popular Music and Citizenship (2011). É colunista da Revista Fórum e foi, durante seis anos, o responsável pelo blog O Biscoito Fino e a Massa.

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