Sepultura e a codificação do nacional no heavy metal brasileiro – parte 2

Estadão

23 de junho de 2012 | 12h00

Idelber Avelar – texto publicado no ótimo blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso *

Ao longo do anos 70, a MPB havia hegemonizado o gosto da classe média, incluídos aí seus segmentos mais jovens, que viam na arte de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento um canal de oposição à ditadura militar e também uma forma de distinção estética que os separava dos consumidores “cafonas” ou “popularescos”. 

 Essa coincidência entre o nacional e o jovem na música quebra-se nos anos 80. O maior emblema dessa ruptura me parece ser a rapidez com que a arte de Milton Nascimento perde vigência entre a juventude de Minas Gerais em meados da década, agora substituída na preferência jovem por várias tribos urbanas roqueiras. Em Belo Horizonte, sem dúvida, o heavy metal foi a mais poderosa dessas tribos.

A MPB se consolidara ao longo dos anos 70 não só pela sofisticação melódica, harmônica e poética, e não só pelas condições de censura em que vivia a música popular. Sua canonização também foi expressão de uma relação com o nacional já purgada do sectarismo exclusivista que foi parte da sigla em seu período de emergência, nos festivais dos anos 60.

Nos anos 70, tratava-se de um ideal de sofisticação que operava como medida de distinção no sentido dado ao termo pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu: um produto cultural projetava a fábula de excepcionalidade de uma classe social e construía o cânone da música popular nacional.

A facilidade com que, nos anos 80, punks, metaleiros, góticos e outras tribos viriam a dialogar e colaborar entre si tem algo que ver com a rejeição dessa distinção simbólica da MPB, e com a percepção comum de que as formas canônicas de música acústica no Brasil haviam sido cooptadas pela notável indústria do entretenimento desenvolvida no país sob a ditadura. Para aquelas tribos, “música brasileira” designava um mundo de estrelas dublando em algum programa da Rede Globo.

A institucionalização de uma forma musical inicialmente percebida como contestatária alcançaria seu ápice com a bênção dada por estrelas da MPB à traição da campanha das diretas, quando o bloco PMDB + futuro PFL lançou as candidaturas de Tancredo e Sarney ao colégio eleitoral, em 1985.

A trilha sonora daquele bloco liberal-conservador, tal como sua legitimidade popular, foi roubada da campanha das diretas: com a péssima “Coração de Estudante”, Milton Nascimento e Wagner Tiso coroavam o processo de conversão do imaginário da cordialidade mineira em musak pop do Brasil decente e respeitável da Nova República.

 A sobre-instrumentação nitidamente tentava transformar uma banal balada pop em hino popular e épico. A letra levava a temática mineira do “amigo” a alturas de pieguice ainda não visitadas. O dado é importante porque nos anos 70 a música de Milton — com a rica textura de suas melodias, a alternância inaudita de contraltos e sopranos de sua voz, a melancólica e corrosiva poesia de Fernando Brant, Ronaldo Bastos ou Márcio Borges — havia sido referência obrigatória para a MPB “de oposição”.

A arte de Milton também havia refletido e refratado uma certa iconografia católica das Minas Gerais dos carros de boi, igrejas barrocas e ladeiras de paralelepípedos, todos varridos pela modernização, mas preservados como objetos de luto em elegias musicais (esse luto musical pelo pré-moderno teve seu ápice na faixa “Beco do Mota”, do disco Milton Nascimento, de 1969).

* Idelber Avelar (1968) é licenciado em Letras pela UFMG e doutor em literaturas latino-americanas e teoria literária por Duke University. É autor de Alegorias da derrota: A ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina (1993) e The Letter of Violence: Essays on Ethics, Narrative, and Politics (2004). Co-editou recentemente o volume Brazilian Popular Music and Citizenship (2011). É colunista da Revista Fórum e foi, durante seis anos, o responsável pelo blog O Biscoito Fino e a Massa.

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