Sepultura e a codificação do nacional no heavy metal brasileiro – parte 1

Estadão

23 de junho de 2012 | 06h40

Idelber Avelar – texto publicado no ótimo blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso *

Enquanto a “Nova República”, eleita indiretamente, sucedia o regime militar em 1985, bandas de heavy metal em Belo Horizonte, Santos, São Paulo, Rio de Janeiro e outras metrópoles começavam a fermentar um fenômeno cultural de consideráveis proporções.

Influenciados por Motorhead, Iron Maiden, Slayer, Metallica, Megadeth, essas bandas levaram o gênero conhecido nos anos 1970 como “rock pauleira” a outro nível de distorção, volume e agressividade. Do improvável estado do Pará, distante dos centros culturais do país, a banda Stress viajou até o Rio de Janeiro em 1982 para gravar o memorável álbum que os fãs depois reconheceriam como o momento fundacional do metal brasileiro.

Em Belo Horizonte, bandas como Sepultura, Sarcófago, Sagrado Inferno, Morg, Armaggeddon, Holocausto, Chakal e Overdose (além do Minotauro, de São Paulo), participaram de uma ou ambas edições do BH Metal Festival, eventos que catapultaram a maioria dessas bandas à gravação de seus primeiros compactos, EPs ou LPs.

A intensa cena metal de Belo Horizonte congregava-se na Cogumelo Records, loja que foi fundada em 1980, se tornou um selo independente em 1985 e lançou o disco que o Sepultura dividiu com o Overdose, Bestial Devastation–Século XX. Lenda do underground mineiro, esse “split LP” ajudou a fazer da Cogumelo o primeiro selo de metal bem sucedido no Brasil.

 Em São Paulo, uma compilação intitulada Metal SP, lançada pelo selo roqueiro independente Baratos Afins, trouxe nomes como Salário Mínimo, Avenger, Vírus e Centúria. Na vizinha Santos, os pioneiros do Vulcano lançaram o compacto “Om Pushne Namah” (1982), o LP Live (1985), e o marcante Bloody Vengeance (1986), até hoje um objeto de culto entre os fãs.

No Rio de Janeiro o heavy metal sempre teve menos seguidores que outros gêneros jovens como o funk e o hip hop, mas de lá vem uma das mais respeitáveis bandas de metal, a Dorsal Atlântica, ativa desde o EP Ultimatum (1985), passando pelo LP de estreia Antes do Fim (1986) e uma sequência de discos marcantes lançados ao longo de uma carreira que duraria até o final da década de 90.

A cena nacional recebeu um ímpeto maior com a primeira edição do mega-festival Rock in Rio (1985), um evento de dez dias onde todas as bandas heavy eram internacionais: Iron Maiden, Ozzy Osbourne, White Snake, Scorpions e AC/DC, os quatro últimos em uma única e longa noite de puro metal.

Gigantes do death e do thrash metal, como Metallica, Slayer e Venom. Surgiram revistas como Heavy ou edições nacionais de fanzines estrangeiros como Rock Brigade. Seguindo a iniciativa da Cogumelo, outras lojas também investiram na produção de álbuns independentes e de baixo custo.

Entre aquelas que consistentemente produziram álbuns de metal estão a Baratos Afins e a Devil Discos, em São Paulo, e a Heavy e a Point Rock, no Rio, responsáveis pelos primeiros lançamentos de dezenas de novas bandas.

O bloqueio anti-metal nas rádios começou a ser suspenso semanalmente por uma hora em algumas estações, com programas como Comando Metal (na 89 FM, de São Paulo), Metal Massacre (na Liberdade FM, de Belo Horizonte), e Guitarras para o Povo (na Fluminense FM, no Rio). Tudo isso contribuiu para constituir a cena mais tarde descrita por um crítico como “formigueiro de camisas negras trocando informações por todo o Brasil”.

Não é uma mera coincidência o fato de que Belo Horizonte começa a se consolidar como a capital latino-americana do heavy metal por volta de 1984-5, data de formação do Sepultura. A ascensão do metal tem muito a ver com o processo político que se desenrolava no país naquele momento.

Ali toma impulso a separação, marcante para a década de 1980, entre a música nacional e a música jovem, ou seja, a dissociação entre a canção popular entendida como genuinamente brasileira e a música consumida pela juventude do país.

* Idelber Avelar (1968) é licenciado em Letras pela UFMG e doutor em literaturas latino-americanas e teoria literária por Duke University. É autor de Alegorias da derrota: A ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina (1993) e The Letter of Violence: Essays on Ethics, Narrative, and Politics (2004). Co-editou recentemente o volume Brazilian Popular Music and Citizenship (2011). É colunista da Revista Fórum e foi, durante seis anos, o responsável pelo blog O Biscoito Fino e a Massa.

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