Sepultura abusa da ousadia em novo álbum – ainda bem

Estadão

15 de outubro de 2013 | 06h53

Marcelo Moreira

Músicos que não gostam de compor ou não querem compor mais correm o risco de se tornar artistas covers de si mesmos. A frase certeira é de John Petrucci, guitarrista do Dream Theater, em entrevista ao site Blabbermouth.net a respeito do lançamento do álbum mais recente de sua banda. Ele criticava, não de forma direta, artistas que não pretendem mais compor porque “o público não quer mais saber de músicas novas, só os clássicos nos shows”.

Andreas Kisser disse praticamente o mesmo em conversa informal durante a audição para jornalistas do novo álbum da banda em São Paulo. O guitarrista do Sepultura mostrou-se orgulhoso do trabalho em “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” e espera, de alguma forma, que o álbum provoque reações diversas na primeira ouvida. “Como artista eu prezo a criatividade. Estou criando o tempo todo, sinto necessidade disso. Eu ajudei a compor muitos clássicos do Sepultura, e sei que posso fazer coisas muito legais ainda.”

O álbum “The Mediator…”, lançado pela Substancial Music, é um passo ousado na carreira do quarteto brasileiro, e a ousadia é uma característica que deve ser louvada e estimulada em artistas de primeiro escalão, ainda que possa haver algum tipo de contestação ou restrição, mesmo que temporária, ao resultado final. O peso e a fúria de “Kairos”, o ótimo álbum anterior, estão lá, desta vez acompanhados de arranjos mais complexos, várias mudanças de andamentos, passagens intrincadas de guitarra e baixo e percussão espalhada por todo o álbum, cortesia do baterista Eloy Casagrande, que pela primeira vez grava com a banda, e do vocalista Derrick Green.

“A ideia era expandir a música, adicionar coisas novas. Estamos sempre ouvindo música, diferentes tipos e de todos os naipes. É natural incorporar elementos novos em nosso som, é assim desde ‘Arise’ (1991). O resultado é bastante orgânico e ficou bastante satisfatório”, diz Kisser, que elogiou bastante o trabalho de Casagrande. “O garoto é fera, tem um feeling absurdo e uma técnica monstruosa.”

Assim como em “Kairos”, o trabalho de guitarras chama bastante a atenção, com diversas passagens progressivas – por mais que isso soe heresia para uma banda sagrada de thrash/death metal. Os solos permeiam todo o álbum, a maioria à velocidade da luz, mas alguns mantendo uma pegada vigorosa, típica do heavy metal tradicional. “The Vatican”e “Impending Doom” são os maiores exemplos das abordagens diferentes propostas por Kisser. Provavelmente é o grande destaque de “The Mediator…”.

A comparação com “Kairos” é evidente, e não poderia ser diferente, já que o álbum de 2011 se tornou uma referência para a banda no século XXI e principalmente depois da saída do baterista Iggor Cavalera. “Kairos” bebeu bastante na fonte dos anos 80, com a porradaria sonora mais direta e concisa, embora com arranjos bastante interessantes.

“The Mediator…” talvez não atinja o mesmo patamar de qualidade, mas é um álbum muito bom, na comparação com o que o mercado anda oferecendo. De audição um pouco mais difícil, requer bastante atenção em nuances e detalhes, e um pouco de paciência para escutar e – dependendo do do grau de radicalismo – tolerar a profusão de elementos diferentes, como a percussão massiva em “The Bliss of Ignorants” e os barulhos eletrônicos em “The Age of Atheist”.

Trabalhar novamente com Ross Robinson foi um acerto diante da proposta ousada de empurrar a sonoridade do Sepultura mais para a frente. O som está mais na “cara”, especialmente as guitarras, como “Trauma of War”e na hipnótica “Obsessed”. As músicas estão mais densas e climáticas, refletindo a opção já não tão recente de optar por temas total ou parcialmente conceituais.

As faixas mais diferentes do álbum são a versão para “Da Lama ao Caos”, de Chico Science e Nação Zumbi, com Andreas Kisser nos vocais, em uma versão porrada, acelerada e insana, mas deslocada, e “Grief”, um doom metal poderoso e climático, digno dos grandes momentos do Black Sabbath e da fase mais sombria da carreira do mestre Ronnie James Dio. Há um leve “sabor” stoner no vocal gritado de Green, atingindo o efeito esperado, de desespero e pavor. Aqui também tem de se destacar a produção ótima de Robinson, colaborando bastante para o clima extremamente angustiante.

A ousadia normalmente tem um preço, que, na maioria dos casos, é a incompreensão. “The Mediator…” vai sofrer um pouco neste quesito, mas demonstra claramente que o Sepultura atual tem uma vontade imensa de experimentar e inovar, com todos os riscos inerentes de errar, às vezes feio. Não é o caso do novo álbum, que é interessante e de muito boa qualidade, mas terá de conviver por um tempo com a comparação desfavorável com “Kairos”, que é melhor e se tornou um clássico da banda. A nova obra pode não ser memorável, mas é um legítimo produto da usina de ideias que a banda se tornou no século XXI. O padrão de qualidade Sepultura inegavelmente está ali, o q ue já é muito nos dias de hoje.

Assim como o incompreendido “A-lex”, “The Mediator…” terá um árduo caminho para passar no teste do tempo. Vai conseguir, mas não antes de provocar certa estranheza. Diante de algumas enigmáticas respostas sobre a proposta do álbum por parte dos integrantes, provavelmente era essa a intenção. A expressão “The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart” – “O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração”, em português – foi inspirada no filme alemão “Metropolis” (1927), de Fritz Lang, clássico da ficção científica.

 

 

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