Sem baixar: música em streaming ganha espaço

Estadão

19 de maio de 2011 | 07h26

Tatiana de Mello Dias

Faz um tempo que a música está online. Além de comprar um CD ou baixar MP3, surgiu uma terceira opção: escutar um disco sem tê-lo: os arquivos ficam gravados em servidores externos.

O modelo prosperou e hoje é visto como o filão mais promissor do ainda incipiente mercado de música digital. É que, entre os modelos de consumo de música que já surgiram, o streaming parece ser o que mais deu certo.

Veja o Spotify. O site sueco criado em 2007 já é uma das maiores empresas de internet no mundo. Um milhão de pessoas foram convencidas a pagar por música – dos 10 milhões de assinantes, 10% optam pelo modelo pago. Isso só na Europa.

Por trás do Spotify está a emblemática presença de Sean Parker, um dos criadores do Napster e investidor da web – hoje talvez mais conhecido como o investidor do Facebook interpretado por Justin Timberlake no filme A Rede Social.

Ele disse em um debate no ano passado que o Spotify é uma forma de “consertar o estrago que comecei com o Napster”. “Temos de criar um novo modelo. ” Para Parker, o streaming dá às pessoas o que elas querem: conveniência e acessibilidade. Ouvir música quantas vezes quiser, de graça, a partir do seu computador.

Só que o Spotify ainda não conquistou um território crucial para determinar seu futuro. Faltam os EUA. O serviço ainda não chegou a um consenso com as gravadoras para custear os direitos autorais e garantir sua legalização por lá.
Mas Parker já mexeu seus pauzinhos: ele acaba de se tornar, junto a um grupo de investidores, acionista da Warner e, assim, tem voz ativa em pelo menos uma das grandes gravadoras que precisará convencer.

Google e Amazon seguem a trilha. Em palestra recente, o presidente da Motorola, Sanjay Jha, deixou escapar que o Google lançará um serviço de música para smartphones e tablets. “Se você olhar para os serviços móveis do Google, há o de vídeo, há o de música, quer dizer, vai haver um serviço de música”, disse.

O player para Android acaba de ser atualizado – e, na versão 3.0, o streaming ganhou o espaço mais nobre do display. Os passos da Amazon são mais concretos. A empresa acaba de anunciar o CloudDrive, serviço online de armazenamento em que usuários podem guardar até 5 GB de conteúdo de graça e acessá-lo de qualquer dispositivo.

Dá para comprar ainda mais espaço – até 1 TB. E, com ele, o CloudPlayer, aplicativo que permitirá a reprodução de músicas armazenadas ali. É possível, por exemplo, criar listas de reprodução. O CloudPlayer já está disponível para celulares Android.

No Reino Unido, a Universal deve lançar em breve um serviço streaming com a Virgin Media. “O streaming é diferente de download.

Você está falando da compra de 175 milhões de músicas avulsas ao ano no mercado de downloads comparadas a 7 bilhões de transmissões de música por streaming pago”, diz David Joseph, principal executivo da Universal. “Streaming e modelos de assinatura são o futuro do negócio. ”

NO BRASIL

Aqui ainda há poucas opções para quem que quer pagar para ouvir música em streaming. Embora o acesso ao ótimo Grooveshark seja liberado, não há planos de trazer o Spotify para cá – apesar de o modelo parecer promissor para indústria fonográfica aqui.

“Nos EUA, o download unitário funciona bem por causa do iTunes. É uma solução verticalizada, mas é um player da Apple que deu certo, tem preço acessível, tudo direitinho. No Brasil, com toda a relação da cadeia de valores, o download unitário fica caro”, explica Miguel Cariello, gerente do Escute, serviço de música online da Som Livre.

O site tem assinaturas que variam de R$ 5 a R$ 15 para acesso ao catálogo em streaming e download. “Ao sair do modelo de entrega de produto e passar para um modelo de serviços, chega-se a um preço mais justo para o consumidor, além de manter todo mundo remunerado. ”

Carrielo não diz quantos assinantes o serviço tem. O número é baixo, diz ele, porque o serviço acabou de estrear e o consumidor ainda está “começando a entender” o modelo.

“A gente ainda tem a coisa de ter a música no computador. Mas, mesmo assim, o streaming é a grande execução. ” Segundo ele, 80% do público opta pelo plano de R$ 15, que permite acesso a todo o catálogo (três milhões de músicas) em streaming e download.

Além do Escute, há também o Sonora, do Terra, e sites como o Kboing, que fornecem diferentes maneiras de consumir música. Mas os dois maiores – o Sonora e o Escute – têm “uma lista grande de desrespeito ao consumidor”, segundo estudo inédito do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).

O instituto avaliou os serviços Escute, Sonora e UOL Megastore (que não tem streaming) e percebeu problemas como arquivos cujo DRM bloqueia o uso após o fim da assinatura ou a transferência de arquivos do PC para o celular e a exigência do pagamento de um pacote para quem quer adquirir apenas uma música.

No entanto, acima de todos os problemas, está a propaganda que leva o consumidor a pensar que o serviço ilimitado – quando, na verdade, ele é cheio de restrições.

“A propaganda é uma tentativa de retomada da indústria fonográfica, que perdeu muito por fazer essa campanha contra quem faz download”, diz Guilherme Varella, advogado do Idec. “A lei de direito autoral abre essa margem para a empresa atuar de forma abusiva”.

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