São Paulo não comporta eventos gratuitos de grande porte

Estadão

28 de maio de 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

Eventos gratuitos na cidade de São Paulo com atrações de peso estão se tornando um tormento para organizadores, público e população em geral. O show gratuito da banda inglesa Franz Ferdinand no Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, teve cenas dignas de brigas de torcidas organizadas de clube de futebol e policiais militares: pancadaria, bombas de efeito moral e gás de pimenta para conter o tumulto.

E por que houve tumulto? Porque teve gente que não conseguiu entrar no parque onde fica o Museu do Ipiranga. Em show gratuito quem chega primeiro e antes entra e fica lá na frente. Quem chega depois não entra – se entra, fica no fundo. Simples assim.

No entanto, como já virou rotina na cidade de São Paulo, quem não consegue entrar se sente “lesado” e “traído” e resolve causar tumulto. Em eventos pagos, ainda que tenham razão (caso tenham pago ingresso e não consigam entrar por graves problemas de organização e fraude), os supostos prejudicados jamais têm o direito de quebrar tudo e causar tumulto.

A rotina dos que não conseguem entrar de protestar quebrando tudo ocorre em jogos de futebol, casa de show e até no Metrô. Quebrar tudo parece ser a solução para os males diversos de nossa sociedade.

Algo não ia bem no Parque da Independência já por volta das 13h30, quando a fila para entrar dobrava a esquina e subia pela rua Bom Pastor até a outra esquina, com a rua dos Patriotas – uma fila de estimados 700 metros.

Fãs subiram em árvores e se equilibraram em grades para tentar ver o show do Franz Ferdinand. Outros tentaram invadir pulando as cercas e forçando o portão de entrada, mas foram rechaçados pela Polícia Militar com bombas e gás de pimenta (FOTOS: MÁRCIO FERNANDES/AE)

Às 15h30, a fila não parava de crescer e já ultrapassava o portão do Sesc Ipiranga, na mesma rua Bom Pastor. O fechamento dos portões ocorreu por volta de 17h30, quando a PM e os organizadores julgaram que a lotação quase total já tinha sido atingida.

Foi o estopim da confusão, com tentativa de invasão, gente forçando o portão de entrada e outros querendo invadir pulando as grades em alguns pontos ao redor do parque.

Os policiais não tiveram outra opção a não ser intervir com cassetetes agindo sem cerimônia e gás de pimenta voando sem piedade nos olhos dos fãs que tentavam entrar à força.

E, infelizmente, como ocorre em tumultos envolvendo grande contingente de pessoas, os casos de excesso de força e até de violência são corriqueiros – mistura de policiais despreparados para lidar com multidões e problemas na organização do evento, como falta de planejamento.

Mas há um terceiro elemento complicador para sabotar as tentativas de controle em eventos desse tipo: a falta de educação de parcela significativa de parte do público. Evento gratuito com atração de peso em local fechado é um convite à confusão, justamente por atrair gente demais – e gente demais disposta a entrar de qualquer jeito, nem que seja para criar confusão.

Quando o Parque do Ibirapuera era sede de shows gratuitos promovidos por uma rede de supermercados, incluindo atrações importantes da música brasileira e internacional, foram raríssimos os registros de confusão, justamente por ser um local maior e mais aberto, capa de comportar com folga mais de 120 mil pessoas, como já fora registrado. É assim também no Central Park, em Nova York, e no Hyde Park, em Londres.

Eventos desse porte sem que seja necessário pagar em locais estreitos ou fechados são um convite à confusão. Três anos atrás o guitarrista e cantor Lulu Santos encerrou um festival promovido por uma operadora de telefonia no mesmo Parque da Independência.

Não houve tumulto, mas teve confusão porque lotou cedo demais. A polícia interveio em um tímido protesto em frente ao portão principal e teve trabalho para conter pessoas que tentaram pular a cerca de ferro em diversos pontos do parque.

Mike Muir, vocal do Suicidal Tendencies: show foi intenso na Virada Cultural, mas muito bagunçado e com segurança deficiente (Foto: MARCOS BIZZOTTO/AE)

Na Virada Cultural deste ano também houve problemas em vários locais – nada tão grave como o que ocorreu no Ipiranga no último final de semana.

O show da banda norte-americana de heavy metal /hardcore Suicidal Tendencies atraiu um grande público ensandecido na manhã de domingo e ocorreu o que se esperava, pouca segurança, organização falha, muita briga e até mesmo invasão de palco por parte de parcela do público.

Por sorte não houve maiores consequências. Na verdade, deve-se agradecer ao vocalista Mike Muir, profissional da mais alta categoria e muito experiente, que percebeu logo como estava o ambiente e tratou de levar o show com fúria e peso, mas com muita serenidade e sobriedade para evitar confusões maiores.

Infelizmente é preciso reavaliar a realização de certos tipos de eventos gratuitos em São Paulo. Planejamento corriqueiramente malfeito e público mal educado e pouco afeito a atrações desse tipo estão no topo da lista de contraindicações.

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