Samul Rosa: 'Não sou escravo do Skank'

Estadão

26 de agosto de 2012 | 13h00

foto: Divulgação

PEDRO ANTUNES

 O mineiro Samuel Rosa, de 46 anos, atende o telefone ainda mastigando: “Rapaz, você pode ligar em dez minutinhos que estamos terminando de almoçar?”. Ele fala de sua casa, num condomínio em Nova Lima, na região da Grande Belo Horizonte. Líder de uma das maiores banda de pop rock nacional desde os anos 1990, o Skank, ele já pode se dar ao luxo de tirar um tempo para almoçar com a família e programar suas turnês de acordo com a tabela de jogos do Cruzeiro, seu time de coração.

São 21 anos na estrada com o Skank, isso sem contar os oito anos anteriores com o Passo Alto, banda que já contava com o tecladista Henrique Portugal. Tudo devidamente recompensado com 6 milhões de discos vendidos, prêmio no Grammy Latino (melhor álbum brasileiro de rock, em 2004), 12 estatuetas do VMB e 10 do Prêmio Multishow. Agora, ele e a banda podem fazer tudo com calma.

Estão lançando o disco Skank 91 (Sony Music, R$ 24,90), uma reunião de gravações que não entraram no primeiro disco da banda (Skank, de 1992) e algumas versões ao vivo, do mesmo ano. Um item para colecionadores e curiosos.

Ao JT, Rosa fala do começo da banda, de sua tentativa de estudar Psicologia, de jogar futebol. E conta sobre a experiência de ser pai de filhos pré-adolescentes, com uma rotina mais controlada. “Pronto, deu tempo até de tomar um cafezinho.”

 

O almoço em família é sagrado?

Para mim, é a principal refeição do dia. Posso tomar um café da manhã ruim, acordar tarde, não faço questão de jantar. Mas, depois de uma certa idade, não gosto de passar sem comer direito no almoço.

Mas com os filhos (Juliano, de 13, e Ana, de 10) na escola, você sempre tocando, é possível almoçar com a família reunida?

Faço questão! Como estou viajando há 20 anos, faço questão de comer comida caseira e não abro mão de comer em casa.

Por falar em filhos, eles estão chegando à adolescência. É uma fase complicada?

Vejo traços de adolescente no Juliano desde os 9 anos. São algumas coisas próprias da idade, como contestação, não aceitar as coisas. O que eu vejo, mesmo, é que os pais perdem a paciência. Já não é mais uma fase bonitinha.

E a Ana vai completar 10 anos. Logo, vai arrumar namoradinhos… Está preparado?

Acho que estou. Não fico bravo, só finjo, mas juro que não fico. Nunca quis chegar ao futuro e perceber que não vi os meus filhos crescerem, como já ouvi de muita gente nessa área. Vivemos em uma época em que trabalhar muito é bonito, sabe? Encontro no Skank pessoas que pensam semelhante: temos o período de trabalhar menos, ficar com os filhos. Deu para ser pai, estar perto quando eles precisam.

É possível ser presente?

Não troco eles por nada. Vou sempre preferir estar com eles. Fazemos oito ou nove shows por mês e isso já é muito. Nada na estrada me faz querer ficar longe de casa. Do show, a gente não cansa, não, mas da estrada… Cair na estrada é um rompimento temporário com seus amigos, sua companheira e seus filhos. O show é maravilhoso, tomar uma cerveja, mas no hotel é solidão de novo. Também não consigo compor na estrada.

Acredita que isso é um reflexo da idade? Logo você chega aos 50 anos. Isso assusta?

Calma, deixa eu curtir! Estou no meio dos 40 (risos). Tenho a humildade de perceber que não consigo fazer algumas coisas.

Cair na estrada, por exemplo?

Acho as coisas mais cansativas hoje do que eram. É normal. As condições hoje são muito melhores. Antigamente, pegávamos o ônibus numa quarta-feira de manhã e voltávamos na segunda. Se fosse começar hoje, não sei se aguentaria. O mais gostoso é conseguir usufruir disso tudo. Se só pensar em conquistar, estou escravizado. Se pensar “a máquina tem de continuar funcionando”, aí f… O mais legal de ter condições é escolher qual é a hora de trabalhar, quando e quanto. É a maior riqueza que se tem. Quando vejo um multimilionário dizendo que não pode ficar 30 dias sem trabalhar, então, não ficou rico, não ganhou dinheiro. O cara ficou escravo. Não sou escravo do Skank.

Faria projetos sem eles?

Faria, mas falta tempo, disposição. Tenho um projeto com o Lô Borges que quero transformar em discos, planejo um álbum com o Nando (Reis). Tenho medo é de me sobrecarregar. Tem de ser na hora certa, porque toma tempo. Quero viver, jogar minhas peladinhas, sair com as crianças, tirar férias. Não sou workaholic e acho que isso é uma doença.

E o que representa lançar esse disco agora?

Não é comemorativo, não ficamos jogando confete em nós mesmos. Mas, estimulados pela internet, ouvimos fãs perguntando sobre faixas inéditas, que nunca foram lançadas. Os fãs podem esperar isso do Skank. Consideramos a nossa história importante e temos muito material inédito.

Qual é a sensação de ouvir o som embrionário da banda?

Acho que tem um traço do que seria o pop rock dos anos 1990. Sabíamos dos riscos de ser uma banda de brancos tocando reggae e usando naipe de metais. Seríamos comparados aos Paralamas do Sucesso. Mas muita gente fez isso depois. O Rappa tinha isso. Os Los Hermanos fazem isso até hoje.

Traz alguma nostalgia?

Tenho receio de dizer que tudo era lindo e maravilhoso. Não tínhamos 16 anos. Tínhamos uns 23 ou 24, existia uma pressão social para que a gente resolvesse a vida. Foi uma fase de muita angústia, de investir cada centavo no primeiro disco (Skank, 1992). Temos uma tendência a romantizar as coisas, mas não era fácil.

Muitos perrengues?

Estávamos quase sendo colocados para fora de casa! Alguns amigos estavam quase se formando na faculdade e diziam: “Você ainda está acreditando?”. Eu negociava em casa de quem moraria lá até o disco sair. Não é romântico ficar sem grana para tomar uma cerveja no fim de semana.

Você cursou psicologia, que era a carreira do seu pai, certo?

A psicologia era um ambiente muito familiar para mim, mas não estava com vontade de estudar. Era tanta coisa para ler, de uma complexidade tão grande. Eles pedem para jovens de 19 anos lerem Lacan (filósofo francês Jacques Lacan, que viveu de 1901 a 1981), gente!

Havia uma pressão em casa?

Na verdade, meu pai falou: “Estou vendo que o negócio na psicologia não está bom e acho que você deveria resolver seu assunto na música, porque você não vai se perdoar”. Foi como quando falaram para o Dom Pedro I proclamar a República no Brasil antes que outro o fizesse (risos).

Como ficou o futebol nessa história toda?

Sou daqueles aficionados que têm desconforto estomacal antes dos jogos. A agenda é toda de acordo com a tabela do campeonato. A casa inteira aqui briga comigo.

Tentou ser jogador profissional?

Eu tinha um tio-avô já falecido que era um atleticano roxo. O maior desgosto dele era eu ser cruzeirense. Fiz uma experiência no futebol de campo por alguns meses, mas fui dispensado.

Mas como jogava?

Sempre joguei de meia-atacante. Mas qualquer comparação vai soar pretensiosa. E não vou me comparar a nenhum perna-de-pau, né? (risos).

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