Saiu da plateia e substituiu Keith Moon na bateria

Estadão

12 Abril 2011 | 08h32

Marcelo Moreira

Imagine um show de uma banda gigante, do Metallica, por exemplo. O show começa e Lars Ulrich, o baterista, demonstra que está esquisito, não está bem. Erra bastante e em passagens fáceis. Atravessa com frequência a música e mostra apatia, coisa que nunca acontecia.

Em determinado momento do show, desmaia sobre a bateria. Há uma paralisação de 15 minutos. Ulrich volta, meio cambaleante, e tenta continuar o show. duas músicas depois, desaba novamente sobre os bumbos, desacordado. Não volta mais para  apresentação.

Muito irritado, James Hetfield, o guitarrista e vocalista, em vez de encerrar ali o evento e pedir desculpas, surpreende todo mundo e pergunta à plateia se tem algum baterista por lá. Mais surpreendente ainda, um maluco se apresenta e o show continua, de forma trágica, por mais três músicas.

A situação é absurda demais para ser imaginada, mesmo por roteiristas de cinema. Mas isso realmente aconteceu, e com uma banda gigante. O protagonista foi Keith Moon, que apagou durante um show do Who em San Francisco, na Califórnia, em 1973.

Uma das maiores presepadas do rock, se não a maior, ocorreu no  dia 20 de novembro de 1973, no Cow Palace, em San Francisco. Durante a apresentação do Who, que abria a temporada norte-americana de shows do álbum “Quadrophenia”, no meio da música “Won´t Get Fooled Again”, Moon desmaia em cima da bateria.

O monstro Keith Moon em foto de 1976

O guitarrista Pete Townshend avisa à platéia que eles terão que esperar enquanto tentam “ressuscitar” o baterista. Foram 15 minutos de espera até o retorno do maluco Moon, que começou o show esquisito e meio grogue. No retorno, não deu certo: o baterista continuava aéreo e errando e desaba de vez  durante a música “Magic Bus”. A banda surpreende e continua sem ele na música “See Me, Feel Me”, sem bateria.

Quando termina esta música, Pete Townshend apela para a platéia e faz a surpreendente pergunta: “Alguém aí pode tocar a bateria? Quero dizer, alguém bom!”

Ante a perplexidade geral, e depois de um silêncio que durou alguns segundos, o empresário de turnê Bill Graham percebe um garoto de 19 anos, morador local, chamado Scott Halpin, sendo empurrado por um amigo do lado direito do palco. Quando deu por si, Halpin já estava no backstage com Graham e com o roadie de Keith Moon, recebendo uma rápida aula sobre a bateria de Moon.

Achando que era um sonho e tremendo de nervoso, recebeu apoio imediato do cantor Roger Daltrey, apesar da indiferença aparente de Townshend e de John Entwistle. O garoto tentou tocar três músicas, seguindo de perto as orientações de Townshend, que berrava ao lado da bateria.

Imagem rara, tirada de um vídeo caseiro, de Scott Halpin prestes a iniciar sua apresentação com o Who

Halpin bem que tentou, mas o desempenho, para ser bonzinho, foi sofríve ao exremo, nas palavras de Entwistle anos depois. foram executadas “Smokestack Lightning/Spoonfull”, “Naked Eye” e a clássica “My Generaration”, no bis antecipado, já que as dificuldades do “novo” baterista eram imensas.

Após o show, Halpin e um amigo que o acompanhava foram convidados para a tradicional festa e bebedeira os final dos shows da banda no camarim e recebeu a “gratidão eterna” de Daltrey, segundo contou a um jornal de San Francisco, além da promessa de receber “em breve” um cheque de mil libras de presente. Nunca recebeu o dinheiro.

Os excessos de Moon com bebidas e estimulantes sempre foram notórios desde o início da carreira do Who. Nunca foi chegado a cocaína e heroína, embora fontes dizem que as tenha usado de vez em quanto, mas adorava beber e misturar com remédios.

Há duas versões para Moon ter apagado naquele dia: antes do início da apresentação, ele bebia com duas garotas no camarim sem saber que alguém havia colocado tranqüilizantes de macacos na bebida. Uma dessas duas garotas teria sido internada em um hospital em estado grave.

Outra versão dá conta que ele ouviu de alguém que tranquilizantes para cavalos “davam o maior barato”. Maluco e louco por “novidades”, teria ido atrás da coisa e a misturado com bebida. Seja como for, nenhuma das versões foi confirmada e o baterista sempre se recusou a falar sobre o assunto em público até a sua morte, em setembro de 1978.

Já Scott Halpin permaneceu em sua vidinha medíocre em San Francisco e nunca tocou bateria profissionalmente. Estdu e trabalhou com artes gráficas e design, além de ter administrado um clube punk e new wave na cidade nos anos 70.

Em 1995 mudou-se para o Estado de Indiana para trabalhar com artes visuais na cidade de Bloomington. Morreu em fevereiro de 2008, aos 54 anos anos, vítima de câncer no cérebro. Nunca recebeu nem mesmo um telefonema ou cartão de Natal dos membros do Who.