Safra boa de rock pesado – terceira parte: Slasher, Forka, Warpath, Trayce…

Estadão

30 de novembro de 2012 | 06h48

Marcelo Moreira

Thrash metal nunca foi um subestilo musical com muitos adeptos no Brasil. A agressividade e a brutalidade muitas vezes tornaram o som indigesto e pouco atraente para toda uma geração de bandas que tentaram, mas abdicaram do subgênero. Felizmente essa tendência foi abandonada no século XXI. Cada vez mais bandas de excelente qualidade adotam o thrash como modo de vida, espalhando desgrança e barulheira em meio a todo tipo de protesto. Os bons exemplos não param de surgir.

Forka – São Paulo – À primeira ouvida parece que o Pantera ressurgiu com uma veia europeia à la Destruction. A banda do ABC paulista não economiza na porrada e distorção, em uma qualidade de produção excelente no álbum “Enough”. As guitarras na cara e a timbragem muito pesada dão o tom no CD inteiro, sem trégua para os ouvidos. A dúvida que fica: o nível ótimo obtido em estúdio tem como ser reproduzido, pelo menos em parte, ao vivo? Se isso for possível, é inimaginável que esta banda ainda não tenha chamado a atenção de grandes selos nacionais e estrangeiros.

Slasher – São Paulo – Outra agradável surpresa em 2012. Esta banda de Itapira, no interior do Estado, faz um heavy metal moderno, sem que isso se traduza em invencionices – leia-se barulhinhos eletrônicos e sonoridades artificiais. A produção é bem simples – simplória em alguns momentos -, mas entrega o que promete: thrash metal old school de respeito, com sonoridde do século XXI e um vocal totalmente desgracento. Merece destaque o interessante trabalho de guitarras, alternando com sabedoria as influências euripeia e norte-americana. O álbum mais recente do grupo é “Pray for the Dead”.

Warpath – Pará – Uma banda perfeita para espantar as coisas inomináveis oriundas do Pará, como o tal tecnobrega e a mais inominável ainda Gaby Amarantos. O quarteto de Belém investe tudo na fúria e no massacre sonoro – sintomaticamente, o nome do álbum mais recente é “Massacre”. Thrash metal oitentista puro, com vocal calcado na banda alemã Destruction e instrumental resvalando no death metal. Uma porrada com estilo, em uma produção que soa correta, sem exageros – embora o som da bateria pudesse ter recebido um tratamento mais caprichoso. Ouça “Bombs with a American Stamps” e “Atomic Discharge – To Kills is a Sentence”.

Division Hell – Paraná – Mais extremo, investe com todas as forças em um death metal oitentista, com influências de doom metal à la Candlemass. Sua música não ficaria deslocada se fosse instituída como trilha sonora do inferno. O peso é absurdo, com timbres de guitarras catastróficos e de muito bom gosto. O primeiro EP, “ApokaliptikA”, é de 2011, com três músicas de muito boa qualidade. Que não haja demora para que os curitibanos lancem o CD completo.

Trayce – São Paulo – Heavy metal sem firulas, direto, cru, na cara e com passagens quase punk. O Trayce é um grupo bastante focado e que consegue conseguir o máximo na simplicidade de arranjos e na execução linear e correta. Muita gente vai torcer o nariz para as escorregadas em direção ao metalcore, e já é possível vislumbrar as críticas de que fazem um “som da moda”. Nada mais enganoso. É uma banda competente e estruturada, com um trabaoho de respeito na praça, o recente CD “Bittersweet”.

Trayce

Voodoo Shyne – São Paulo – Assim como a ótima banda Slippery, mais um artista interessante do interior de São Paulo abraça o hard rock com competência. O baixista e cantor Voodoo Shyne é de Jaguariúna e tem conseguido chamar a atenção mesmo em uma região conhecida pelos concorridos rodeios e shows inacreditáveis de duplas sertanejas de todos quilates de ruidade. “Satan’s Gonna Like It” é o nome de seu primeiro álbum repleto de referências setentistas, de  Alice Cooper a Thin Lizzy, passando pelo bom humor e pelos riffs pegajosos do Kiss e pela urgência pesada do Motorhead e do Judas Priest (em sua primeira fase). É um trabalho de muito bom gosto, com produção honesta e competente, embora algumas músicas pudessem ter ficado um pouco mais pesadas.G grande virtude do trabalho é a honestidade, já que não tem grandes novidades em relação ao som. Trata-se da realização de um projeto pessoal, o que deve ser louvado. Memsoq ue soem um pouco “datadas”, as faixas Rock’n’Roll Proud”, “Devil Overrated” são bem divertidas.

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