Runaways: boa música soterrada por toneladas de clichês

Estadão

15 de outubro de 2010 | 01h40

Marcelo Moreira

O mundo do rock é bom demais para render bons filmes. Essa é a única conclusão possível quando se assiste a “The Runaways – Garotas do Rock”, que chega aos cinemas brasileiros. Parece que a visão predominante na indústria norte-americana sobre a abordagem do tema é simples: “mais do que entretenimento e contar uma boa história, temos de exagerar e entupir o filme com todos – e os piores – clichês possíveis”.

O resultado são filmes lamentáveis como “Rock Star” (com Mark Wahlberg e Jennifer Aniston), “Almost Famous – Quase Famosos”, Detroit Rock City” e ““Sweetwater: A True Rock Story”, de 1999”. Nada que possa ser remotamente comparado ao ótimo “Still Crazy – Ainda Muito Loucos” ou a “Control” (que narra a vida de Ian Curtis, do Joy Division). Não por coincidência, esses dois últimos são ingleses.

“The Runaways”, assim como “Rock Star”, parte de uma ideia básica excelente, que renderia um ótimo roteiro se fosse levado a sério. Em “Rock Star” a ideia era mostrar como um moleque que canta numa banda que faz versões de uma banda famosa consegue o posto de vocalista da mesma banda – baseado em fatos reais, na história de Tim Owens, que se tornou cantor do Judas Priest. O roteiro foi totalmente estragado.

Com o filme das meninas ocorreu o mesmo. A ideia – como ninguém pensou em filmar isso antes? – é excelente, com a primeira banda de rock formada por mulheres a realmente chamar a atenção do machista mundo do rock pesado – seja hard rock ou heavy metal.

Formação clássica da banda Runaways: Cherie está no centro e Joan Jett é a última à direita

É evidente que o cinema tem seus truques para tornar palatável uma história baseada em fatos reais – caso contrário, seria um documentário. O problema é que quase tudo em “Garotas do Rock” é clichê, é excesso. Alguns dizem que seria pedir demais para que a diretora Floria Sigismondi, que não resistiu aos clichês prontos pedindo para serem explorados e abusados em uma história que  “pedia” isso.

Os clichês são irritantes. Tem lá a menininha revoltadinha, carente, vinda de família desestruturada e obcecada pelo sucesso; tem o empresário ganancioso e inescrupuloso, com um pé na pedofilia; tem a “trajetória” previsível da abnda que enfrenta todas as dificuldades (ohhhhhhh) antes de chegar ao estrelato; tem a banalização da fama, com várias situações absurdas e irreais, totalmente exageradas pelo roteiro ou totalmente inventadas – em alguns momentos, parece que estamos assistindo a um filme sobre o Led Zeppelin ou Motley Crue…

A outrora atriz infantil Dakota Fanning (que fez a filha de Tom Cruise em “Guerra dos Mundos”) foi muito elogiada no papel da problemática vocalista Cherie Currie. Realmente, é a melhor coisa do filme. Aos 16 anos de idade, já atuou em 26 filmes. E é a sua vasta experiência com tão pouca idade que evitou que escorregasse nos piores clichês. Ela quase salvou o filme.

Primeiro álbum das Runaways

O mesmo não se pode dizer de Kristen Stewart como a rebelde e bocuda guitarrista Joan Jett (aquela do megahit “I Love Rock’n Roll”.

A estrela da série “Crepúsculo” ousou ao tentar um papel tão radicalmente oposto ao da romântica-ingênua Bella dos filmes de vampiro baseado nos livros de Stephenie Meyer. Não convence como roqueira, como rebelde e, infelizmente, como atriz. Se Dakota conseguiu na maioria das vezes driblar o roteiro ruim ou as armadilhas dos clichês, Kristen caiu de cabeça neles.

Cena do filme, com Dakota Fanning (Cherie, a loira) e Kristen Stewart (Joan Jett, a morena)

Assim, o que era uma excelente ideia de resgatar uma parte bastante interessante da história do rock para as novas gerações se transformou apenas em mais um filminho com cara de Sessão da Tarde sobre o mundo da música, a despeito de uma ou outra cena um pouco mais ousada.

E quem não fica muito bem na questão são as próprias Runaways, que têm sua importância não tão valorizada em razão de “recursos dramáticos” que preferem realçar menos a parte musical – que é o que importa – e mais a psicologia rasteira dos problemas pessoais e interpessoais.

A ida ao cinema para ver “The Runaways” não fica invalidada. É um programinha que vai entreter até certo ponto. Mas quem for e desconhecer a existência da banda original vai continuar sem saber. A banda da tela não passará de um grupo fictício. Esse é o grande pecado do filme.

Cherie Currie em 1976

As verdadeiras Runaways fizeram história porque conseguiram transcender à armação e ao artificialismo da criação do grupo. Aprenderam no tranco a tocar e a compor e, a despeito das diferenças evidentes e das brigas internas, conseguiram o que parecia impossível: foram realmente uma banda de rock durante m tempo, transitando entre o hard rock e o pop, com algumas escorregadelas no punk.

A armação foi criada por Kim Fowley, um empresário em muito prestígio e com ideias escassas. Entre as poucas que sobraram, a mais estapafúrdia era criar uma banda só com mulheres, que tocassem de verdade, para furar o bloqueio machista do rock pesado. Ninguém apostava que daria certo. Nem mesmo as meninas que foram recrutadas para a banda “artificial”.

Lita Ford na capa de seu álbum homônimo

O filme tem o roteiro baseado em “Neon Angel: A Memoir of the Runaways”, da vocalista Cherie Currie, que tentou ser a líder e estrela do grupo, e foca os dois primeiros anos das garotas juntas, entre 1975 e 1977, período dos dois primeiros álbuns e da primeira turnê nacional pelos Estados Unidos, arrancando elogios de gente como Gene Simmons, baixista e vocalista do Kiss, e do guitarrista Eddie Van Halen.

Até mesmo Cherie achava que tudo tinha como dar errado. Garota bonitinha, mas sem futuro, assim como a irmã gêmea Marie, era filha de pai alcoólatra e mãe desmiolada – que abandonou a família para fugir com um amante para a Indonésia. A sorte mudou quando alguém se interessou pela “beleza exótica” da menina de 15 anos e a indicou para Kim Fowley e Joan Jett, a guitarrista já contratada e que realmente sabia tocar.

Cherie descobriu nos primeiros ensaios que sabia cantar – ou que pelo menos demoraria menos tempo do que outras para melhorar. E neste ponto o filme derrapa feio, porque não explica o porquê o projeto deu certo, e não virou apenas um grupo artificial, como eram os Monkees no início da carreira. Quem explica é Joan Jett em uma entrevista à Rolling Stone nos anos 90:

“Nós realmente queríamos fazer parte daquilo, queríamos ser uma banda. Estudamos, nos esforçamos e aprendemos a tocar para fazermos tudo certo e sermos vistas como banda. Não éramos como outras bandas ou como um elenco de de um filme, que são contratados apenas para desempenhar seus papéis temporariamente e depois cada um para seu lado.”

E realmente deu certo por quase cinco anos, mesmo com as vaidades, as brigas e as profundas diferenças entre as meninas. Cherie Currie (vocal), Joan Jett e Lita Ford (guitarras), Jackie Fox (baixo, que substituiu a original, Micki Steele) e Sandy West (bateria) entraram de cabeça e aliaram apresentações energéticas e bombásticas com composições hard pop que caíram no gosto de quem torcia o nariz ao punk rock e aos dinossauros da época.

O filme termina quando as garotas estão no auge do sucesso, em 1977, às vésperas de uma turnê japonesa. Coincidentemente, é o início da decadência, por as brigas se tornaram insuportáveis, com Jackie Fox deixando a banda ainda em Tóquio – Joan tocou baixo em algumas apresentações no Japão.

Joan Jett na capa de seu álbum "Take Friends"

Na volta a Los Angeles, uma nova baixista entrou, Vicki Blue, de 17 anos, mas não durou muito, logo substituída por Laurie McAllister em 1978. Antes, no final do ano anterior, que saiu chutando tudo foi Cherie, deixando Joan Jett como vocalista e guitarrista – e maior estrela, o que incomodou, por sua vez, Lita Ford.

Foram quatro álbuns gravados e mais um ao vivo (“Live in Japan 77”), sendo que os dois primeiros são os melhores – “The Runaways” (1976), “Queens of Noise” (1977), “Waitin’ for the Night” (1977) e  “And Now… The Runaways” (1978). Apesar dos esforços para evoluir e vencer, as brigas e a incapacidade de lidar com as pressões do sucesso implodiram o grupo no começo de 1979.

Quem deu certo depois das Runaways foram guitarristas rivais. Joan Jett e Lita Ford tornaram-se bem-sucedidas artistas solo – a primeira em uma linha mais rock’n roll e pop, a segunda flertando com o heavy metal, para depois descambar para as baladas hard rock. Continuam gravando e fazendo turnês até hoje. Lita inclusive namorou por algum tempo Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath.

Cherie Currie virou atriz, mas sem muito destaque. Tentou voltar à carreira musical com a irmã gêmea Marie, mas sem sucesso. Sandy West tentou montar algumas bandas, também sem êxito. Morreu de câncer em 2006. Micki Steele se deu um pouco melhor, integrou a banda pop feminina Bangles nos ano 80, que fez algum sucesso, mas também sucumbiu no acirrado mercado roqueiro da época.

 

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