Rory Gallagher reaparece em CDs remasterizados e com bônus

Estadão

03 de janeiro de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

A maior banda do mundo perde um de seus guitarristas em meio a uma maré de baixa criatividade e abusos hométicos de álcool e drogas. Apesar de o guitarrista “demitido” ser excelente e um prodígio, ninguém se preocupa. Afinal, são os melhores e qualquer outro instrumentista de altíssimo nível bateria na mãe para assumir o posto.

Só que um irlandês meio maluco – mas muito confiante – recusou e preferiu ficar tocando blues com seu trio em palcos menos nobres no interior da Irlanda e da Inglaterra. E garantiu até o final de sua vida prolífica que não se arrependeu de descartar logo de cara o que ele chamou de “sondagem”.

Rory Gallagher é o nome da figura. A lenda diz que ele foi convidado a substituir Mick Taylor nos Rolling Stones na virada de 1974 para 1975. Keith Richards, o mestre das seis cordas da banda, estava irado com o que chamou de petulância de Taylor ao tentar “ensinar” aos outros membros como tocar.

Após a saída pouco amigável do colega, afirmou a uma revista inglesa que a banda tinha convidado Gallagher. Posteriormente, desmentiu e disse que os empresários dos Stones apenas fizeram uma sondagem.

O irlandês nunca gostou de tocar no assunto. Sempre afirmou que foi apenas sondado, mas em algumas vezes disse que recebeu um convite formal pessoalmente de Mick Jagger.

O virtuoso guitarrista Rory Gallagher, um dos maiores talentos subestimados do rock, ganha mais uma homenagem. Em dezembro passado teve seis de seus álbuns dos anos 70 relançados em edições remasterizadas e com faixas-bônus.

O pacote inclui os seis primeiros álbuns solo de Gallagher: “Rory Gallagher” (1971), “Deuce” (1971), “Live In Europe!” (1972), “Blueprint” (1973), “Tattoo” (1973) and “Irish Tour ’74” (1974).

A mistura furiosa de rock e blues encantou toda a cena britânica setentista, estupefata com o virtuosismo e com a pegada pesada e marcante. Os álbuns agora reeditados representam o auge do músico em termos de performance em estúdio e nos palcos.

Os dois álbuns ao vivo são mágicos e indispensáveis para quem gosta de rock e para quem quer entender a música britânica dos anos 70.

Para muitos especialistas, Gallagher foi um guitarrista excepcional e os álbuns deste pacote demonstra isso, mas ele só atingiria a maturidade como cantor e compositor em duas obras posteriores, os também excelentes “Calling Card” e “Photo-Finish”, ambos editados na segunda metade da década de 70. O segundo, inclusive, é considerado o seu melhor trabalho.

“Deuce” e “Blueprint” em nada devem aos chamados “melhores álbuns”. Mostram um artista furioso, sedento por palco e inflamado, com solos improváveis e uma velocidade de deixar Alvun Lee (Ten Years After) e Robin Trower preocupados.

Seja em músicas próprias ou versões de canções inglesas ou blues norte-americanos, Gallagher imprime a sua personalidade, em gravações propositalmente cruas, que captam a força do guitarrista e de sua banda afiada e entrosada.

As perfomances ao vivo foram elogiadas por gente como Ritchie Blackmore e Roger Glover, do Deep Purple, Rod Stewart e Ron Woods, dos Faces (este último herdaria a vaga nos Stones) e por Pete Townshend, do Who. Era um músico de poucos efeitos, mas de muito feeling e muita energia, com um conhecimento absurdo de timbragens e amplificadores.

Foram 16 álbuns em 30 anos de carreira, desde o surgimento do Taste, sua primeira banda profissional, em 1965, até a sua morte, em 1995, causa por uma infecção hospitalar após um malsucedido transplante de fígado – era um beberrão de primeira e alcoólatra assumido.

Quando de sua morte, a revista Rolling Stone norte-americana colheu alguns depoimentos de músicos não muito importantes na história do rock: “Rory foi um dos grandes guitarristas de todos os tempos e um grande cavalheiro, uma pessoa muito simples”, declarou Bono Vox, líder do U2, outra banda irlandesa.

Correm pela internet textos com versões de uma suposta declaração de Jimi Hendrix a respeito do irlandês maluco. Ninguém nunca atestou a veracidade, mas é excelente com lenda. Após a apresentação de Hendrix no Festival da Ilha de Wight de 1970, que também teve o Taste atração, um repórter perguntou: ”Como é a sensação de ser o melhor guitarrista do mundo?” Hendrix não perdeu tempo: “Eu não sei. Vá perguntar a Rory Gallagher.”

Tudo o que sabemos sobre:

Rory Gallagher

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.