Rolling Stones: 'Sgt. Pepper's' salvou a carreira da banda

Estadão

20 de junho de 2012 | 16h00

Marcelo Moreira

Quando aos rivais locais, os Rolling Stones, estes foram sábios em não tentar bater de frente com os Beatles e tentar competir de igual para igual, especialmente na época de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Os integrantes das duas bandas eram bons amigos desde 1963 e frequentavam as casas de uns e outros.

Em público estimulavam a rivalidade entre os fãs, mas nos bastidores combinavam as datas de lançamentos de compactos (singles) para que não houvesse uma concorrência predatória.

Hoje desbocados e desdenhosos a respeito dos então concorrentes, Mick Jagger e Keith Richards eram reverentes a John Lennon e Paul McCartney. A dupla cerebral dos Beatles ofereceu uma música aos Stones depois que a estreia deles em compacto, uma versão do rock americano “Come On”, não decolou.

“I Wanna Be Your Man” era só um esboço de canção quando Lennon McCartney, foram visitar os Stones no estúdio, no centro de Londres. O clima era de marasmo total, com falta de ideias e a busca incessante de versões de blues americanos para o próximo compacto.

Mick Jagger visita Lennon e McCartney nos estúdios Abbey Road no final de 1966, durante as gravações de 'Revolver'

A conversa acabou amenizando o clima e Lennon desatou a falar sobre a turnê inglesa que fizeram naquele ano. Quando iam embora, Jagger brincou: “Vocês vieram, tomaram o nosso chá e comeram nossos biscoitos. Será que não têm uma música aí no bolso para nos ajudar?”. A surpresa veio com a resposta de McCartney: “Temos sim, mas ainda não está pronta. Vamos dá-la a vocês, certo John?”, perguntou ao companheiro, que concordou. “Ligamos nesta semana e mandamos.”

Não se passaram 20 minutos e Lennon e McCartney voltaram ao estúdio, no meio de uma tentativa de solo de Richards. “Esqueceram algo?”, perguntou Jagger. “Não, terminamos a música no elevador.” “I Wanna Be Your Man” se tornou o cartão de visitas de verdade dos Stones para a Inglaterra, com bom desempenho nas paradas. A música também foi incluída no segundo LP dos Beatles, “With the Beatles”, cantada por Ringo Starr.

Quatro anos depois, a amizade estava cada vez mais estreita. Era comum ver Jagger, Richards e Brian Jones nos estúdios de Abbey Road durante a gravação de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.

Nem mesmo um desabafo de John Lennon em 1966 azedou a amizade. “Tudo o que nós fazemos os Stones copiam seis meses depois”. Ele se referia à cítara da música “Paint It Black”, que Jagger e Jones decidiram incluir após ouvir “Norwegian Wood”, faixa do álbum “Rubber Soul”, lançado seis meses antes.

Fascinados com o resultado de “Sgt. Peppers”, os Stones não se importaram em passar recibo e decidiram que iriam gravar o seu próprio “Sgt. Peppers” assim que o álbum dos Beatles chegou às lojas. Sem qualquer planejamento, foram para o estúdio e mergulharam fundo na psicodelia e nas invencionices de estúdio para produzir o esquisito “Their Satanic Majesties Request”, lançado em dezembro de 1967.

 

Capa do LP 'Their Satanic Majesties Request'

Caótico, desconjuntado e sem foco, o álbum fracassou nas paradas e foi duramente criticado. Ficou claro que era uma tentativa de copiar o álbum dos Beatles, mas sem imaginação e com canções infinitamente mais fracas.

Os próprios Stones declararam anos depois que aquele foi um grande erro na carreira, mas que foi necessário para recolocar a banda nos trilhos, de volta ao blues e ao rock visceral, sem se preocupar em ombrear os rivais. Foi a maior decisão que eles tomaram em sua carreira.

O resultado foi uma quadra de ouro, de tirar o fôlego: “Beggar’s Banquet” (1968), “Let It Bleed” (1969), “Sticky Fingers” (1971) e o álbum duplo “Exile on Main Street” (1972), os melhores trabalhos dos Rolling Stones. Não consta que até hoje Jagger e Richards tenham agradecido a McCartney pelo empurrãozinho.

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