Roger Waters e seu espetáculo brilhante e multidimensional

Estadão

30 de março de 2012 | 21h00

Roberta Pennafort

'The Wall' é festa para os olhos e para os ouvidos - Fábio Motta/ AE
Fábio Motta/ AE
‘The Wall’ é festa para os olhos e para os ouvidos

Se você passou a adolescência viajandão ouvindo o Pink Floyd e não tem ingresso para o show de Roger Waters de domingo nem de terça, no Morumbi, dê seu jeito. Se nunca foi tão fã, mas teme perder um grande espetáculo, corra também. The Wall, derivado do mais bem-sucedido disco da banda, de 33 anos atrás, com o qual o baixista Roger Waters viaja pelo mundo há dois, é festa para olhos e ouvidos.

Sim, custa caro. Sim, você provavelmente só saberá cantar inteiras duas faixas, Another Brick in The Wall e Comfortably Numb. Mas uma ópera-rock dessas dimensões, com som perfeito, imagens fantásticas e um senhor bem intencionado de 68 anos dando tudo de si não se vê facilmente. Lembre-se que faz cinco anos desde a última vez, quando ele veio apresentar The Dark Side of The Moon.

Dito isso, aqui vai outro aviso: o teatro de The Wall pode cansar os menos dispostos. É muita informação para duas horas de show. Tudo começa em meio a fogos de artifício. Soldados com bandeiras que aludem a regimes ditatoriais e personalistas entram em cena.

O muro-telão de resolução inacreditável que domina o cenário começa a entrar em ação, para ser construído em cena e, depois, derrubado. Tem 137 metros de extensão, onze de altura e mais de 400 “tijolos”.

(AP Photo/Victor R. Caivano)

Nele vão passar pichações anticapitalistas, fotos de militares mortos em conflitos diversos, crianças famélicas, inocentes de várias nacionalidades – entre eles, tem destaque o brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia inglesa em 2005 e extensivamente homenageado por Waters na turnê.

São doze músicos no palco, três guitarristas fazendo as vezes de David Gilmour. O álbum duplo é todo executado, de In The Flesh? a Outside The Wall. Há um intervalo de 20 minutos entre os discos um e dois, providencial para o descanso das retinas.

As mensagens políticas contra os efeitos devastadores do totalitarismo, terrorismo e outros “ismos” vão perdendo o impacto ao longo da noite.

Algumas são tolas, como a animação em que aviões, durante Goodbye Blue Sky, despejam, como se fossem bombas, símbolos diversos, da concha da Shell e do M do Mc Donald’s à estrela de Davi (as declarações anti-israelenses e pró-Palestina de Waters renderam reclamações da Federação Israelita do Estado do Rio.) Outras são poderosas: o vídeo que mostra crianças americanas recebendo os pais, militares, de volta, ao som de Bring The Boys Back Home, é emocionante.

Ouvem-se helicópteros, choro de criança, risos, todos aqueles barulhinhos. A massa sonora toma todo o ambiente, as caixas de som são distribuídas por vários cantos. A tecnologia é tanta que no show do Rio, quinta-feira, no Engenhão, quando um avião comercial sobrevoou o estádio, um garoto ficou em dúvida e perguntou ao pai: “Será que é de verdade ou também foi ele que trouxe?” Cerca de 50 mil pessoas assistiram; no Morumbi, esperam-se 70 mil por noite.

Pais e filhos eram fáceis de reconhecer: o cinquentão e o adolescente, duas camisetas de tijolinhos. “Esse não é meu disco preferido, mas não poderia perder, nem deixar de trazer a família”, dizia, com orgulho, Paulo Aquino, de 55 anos, com a mulher e dois moleques, de 15 e 19 anos. “Sou baixista, como Roger, e ouço Pink Floyd direto há uns três anos”, contava o mais novo, Carlo. A noitada custou indigestos R$ 2.300, mas todos saíram satisfeitos.

Na quarta-feira, dia de chuva forte no Rio, Waters havia afirmado em entrevista para poucos jornalistas – de cunho mais político do que artístico, já que queria anunciar seu apoio ao Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre, em novembro -, que não lhe importava se chovesse durante o show. “A chuva não é perigosa, só é molhada. Mas com vento não dá para tocar, porque as pessoas iriam morrer”. Parecia piada.

Só ao se deparar com a megaestrutura montada no Engenhão é que se entende o porquê do alarde. Técnicos trabalham suspensos boa parte do tempo. Câmeras acompanham Waters de cima para que as melhores imagens sejam projetadas. Músicos surgem no alto do muro em momentos de solo. Os bonecos de 10 metros de altura (o professor de Another Brick in the Wall, a mãe, a mulher de Don’t Leave Me Now) também requerem atenção.

Não se deve perder tempo discutindo o preço e a temperatura da cerveja. O muro está vivo, muda a todo minuto. “Existe um muro entre a realidade das nossas vidas e o que nos é mostrado, que passa pela mídia, pela sociedade de consumo”, Waters disse na entrevista.

“Quando escrevi The Wall tinha meus 30 e poucos anos, e àquela época eu achava que era só sobre mim. Eu me dei conta nos 30 anos seguintes que não era isso, que (o tema) tem implicações maiores. É por isso que criamos efeitos visuais que ampliem seu significado, e façam dessa uma história de muito mais gente.”

 Serviço:

THE WALL
Estádio do Morumbi. Praça Roberto Gomes Pedrosa, 1, 4003-0696. Dom. (esgotado), 19h30; 3ª, 21 h. R$ 90 a R$ 900.

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