Roger Waters: árias de uma imponente ópera-rock

Estadão

03 de abril de 2012 | 19h40

ROBERTO NASCIMENTO – O Estado de S.Paulo

 Eis que Roger Waters lotou o Estádio do Morumbi no último domingo domingo para a primeira de duas apresentações paulistanas da ópera rock The Wall, uma blitz demagógica de imagem e som baseada no disco e filme de mesmo nome. Como já foi dito nestas páginas e em outras publicações, o nível técnico do show é impecável.

Trata-se de um marco na história do espetáculo musical de arena, algo superior à turnê 360°, do U2, que é, por sua vez, a única a concorrer no nível de grandiosidade em que opera Roger Waters.

Waters arrepia o Morumbi com Another Brick in the Wall - JF Diorio/AE
JF Diorio/AE
Waters arrepia o Morumbi com Another Brick in the Wall 

Sobre a famosa muralha de Roger, projetam-se imagens de alta definição: um mar cor de sangue, uma fileira de bandeiras militares que lembram foices, martelos ou suásticas, um emaranhado de minhocas que aos poucos desliza até tomar conta do cenário, anunciando o pesadelo lisérgico que caracteriza a parte final do show. Ao redor do estádio, torres de alto-falantes são distribuídas em pontos estratégicos da arquibancada, de modo que a experiência sonora se torna tridimensional e arrebatadora, com helicópteros, alarmes e aviões bombardeando os sentidos incessantemente.

Mas todo esse frufru não esconde o fato de que The Wall é um espetáculo raso e sensacionalista em suas aspirações políticas, aguado e repetitivo em seu conteúdo musical. O disco de 1979, que leva o mesmo nome, foi concebido como uma reflexão autobiográfica das crises de Roger Waters na época. Em seu nível mais pessoal, trata-se de um mergulho no bê-á-bá de uma família disfuncional: pais distantes e uma adolescência isolada que resultam, mais tarde, em uma muralha de isolamento e comportamento autodestrutivo, cercado pelo qual vive o personagem Pink (interpretado pelo cantor Bob Geldof no filme de Alan Parker, de 1983, que originou os conceitos visuais do show).

Mas os trechos de The Wall que há 30 anos foram odes à subversão adolescente, esta capturada com efeito na cena do filme de Parker em que alunos marcham em direção a um triturador de carne, cantando a clássica Another Brick in the Wall, hoje foi extrapolado para incluir um vale-tudo demagógico. Ao topo de seu banquinho, Mr. Waters não deixa barato para ninguém. Ele quer destituir marcas de carros e empresas de combustíveis. Quer condenar os responsáveis pela pobreza mundial, porque, afinal de contas, nenhum dos milhares que assistem a seu show trabalha em uma multinacional.

Sobra até para o finado Steve Jobs, em uma parte do show em que palavras como iFollow são projetadas na muralha, sugerindo que a Apple é o Big Brother do século 21.

Se The Wall fosse um grande disco independentemente de seu enredo, Roger Waters não precisaria de tanta pólvora para segurar a atenção do público durante duas horas, com um anticlimático intervalo de 20 minutos que separa a boa primeira, da maçante segunda parte de seu show. Mas o fato é que o disco não chega perto dos outros marcos setentistas do Floyd: não é um Meddle, nem um Wish You Were Here, para não falar de um Dark Side of The Moon.

Seu ápice musical chega com menos de 20 minutos de show, quando a guitarra de Dave Kilminster (substituto de David Gilmour) toca aquele ré recorrente e anuncia o pugilismo adolescente de Another Brick in the Wall.

É impossível não se arrepiar quando Waters e um coral de crianças paulistanas dizem aos professores para deixarem as crianças em “leave the kids alone”. Mas aquele ré da guitarra é um motivo usado diversas vezes por Waters, e não é um tema tão glorioso para ser repetido cinco vezes e sustentar a primeira metade de um show.

As outras boas canções do disco, Hey You, Is There Anybody Out There, Comfortably Numb, são clássicos, mas não seguram o ímpeto do que Waters alcança com Another Brick in The Wall. Assim, o baixista apela para a teatralidade: grita através de um megafone, alveja o público com uma metralhadora de festim.

São tiros certeiros, pois ele os mantém hipnotizados pelo seu ‘cirque du soleil’ musical do início ao fim, como uma plateia é hipnotizada por um hábil chefe de Estado. O show de domingo teve início pouco depois das 19h30,e trouxe um público de todas idades para assistir a The Wall. Não será diferente na noite de hoje, quando Waters volta ao Morumbi.

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