Roger Waters apresenta ópera no Brasil

Estadão

30 Abril 2013 | 06h54

Roberto Nascimento – O Estado de S.Paulo

A escala épica em que Roger Waters costuma trabalhar faz de sua ópera Ça Ira – Há Esperança, um trabalho coerente. Que o diga os que assistiram à epopeia audiovisual The Wall, um clássico atestado do eficaz populismo artístico que Waters pratica como poucos, remontado no Morumbi, em 2012.

Antecessor de Ça IraThe Wall trouxe questões complexas sobre direitos humanos e a liberdade do indivíduo, resumidas ao espetáculo pop, falando às vísceras através do colossal. Coloque-a em um teatro, substitua as guitarras por violinos, adicione árias, e o resultado não será distante da ópera sobre a revolução francesa que Waters estreia no Teatro Municipal, por quatro noites, a partir desta quinta-feira.

 

Roger Waters - Marcio Fernandes/ Estadão
Marcio Fernandes/ Estadão
Roger Waters

“O mote é a liberdade”, explica o ex-integrante do Pink Floyd em entrevista coletiva. “A revolução francesa derrubou a ideia de que o poder está nas mãos de poucos, mas ainda não somos livres. Chegou a hora de nos desfazermos do extremismo religioso, de abolirmos estados controladores”, completa, após frisar que Ça Ira não é uma ópera-rock, e sim um espetáculo construído nos moldes da tradição erudita.

A música foi composta nos anos 80, a partir de um libreto do letrista e roteirista francês Étienne Roda-Gil e de sua mulher Nadine, mas o trabalho foi engavetado após a morte de Nadine. Ganhou os palcos apenas em 2005 (passou por Manaus, em 2008), e chega reformulado a São Paulo, com música nova e um cenário contemporâneo, desenvolvido por André Heller-Lopes. A montagem tem referências na vida do artista Arthur Bispo do Rosário, e usa elementos de seu confinamento a um manicômio para discutir sanidade e liberdade.

A música, no entanto, bebe em Brahms, Beethoven e Puccini, inspirações um tanto conservadoras para um herói do rock progressivo, mestre da psicodelia calculada, coautor de verdadeiras sinfonias modernas como Dark Side of the Moon The Wall (esta última quase inteiramente sua).

“Busquei no meu coração melodias e estruturas fáceis de compreender. A música erudita do século 20 é por vezes demasiadamente cerebral. Quis trabalhar no idioma de Berlioz, de Puccini”, explica Waters, que procurou a ajuda do maestro Rick Wentworth, autor de trilhas como as de Piratas do Caribe e A Fantástica Fábrica de Chocolate, para dar um verniz orquestral respeitável à música.

Mesmo assim, Waters se distancia da ideia de um musical popularesco. Durante o voo ao Brasil, forçou-se a assistir à nova versão hollywoodiana de Os Miseráveis, e achou o filme um “monte de m…”. A gênese de Ça Ira se fez em 1988, quando Roda-Gil lhe mostrou o libreto. Waters se identificou com a espirituosa abertura, em francês, e fechou-se em um estúdio para compor. Se houve alguma preocupação com o desafio de compor em um idioma completamente novo? Não. “Comecei pela primeira página. Cantei, toquei e gravei. Fui até a página 50”, conta ele.

Adicionou o arranjo com um gravador multicanais, fez uma demo. “O (François) Mitterrand chegou a ouvir. Gostou. Quis fazer algo para uma das comemorações da revolução, mas nada aconteceu até 95, quando Rick e eu começamos a trabalhar”, explica.

Quando finalmente estreou, em Roma, em 2005, não havia sido a primeira vez que grandes de sua geração se aventuraram pelo território erudito. Paul McCartney já havia composto para orquestra; Billy Joel peças para piano. Stuart Copeland, baterista do Police, já tinha composto a própria ópera, assim como Elvis Costello, que encenou seu trabalho acompanhado de um balé.

“Demorou para que chegássemos a um consenso sobre som e montagem. Mas aprendi muito durante o processo”, conta o maestro Rick Wentworth. “Ça Ira diz muito sobre a visão conceitual de Roger, assim como The Wall. Ele estudou arquitetura antes de ser músico, e a ideia estrutural parece vir facilmente a ele”, completa.

Ça Ira será encenada com um ótimo elenco nacional, que inclui a soprano Gabriella Pace, o tenor Giovanni Tristacci, o barítono Leonardo Neiva, além de Lina Mendes, também soprano. Roger Waters acompanhou todos os detalhes da nova montagem.

ÇA IRA- HÁ ESPERANÇA
Teatro Municipal de São Paulo. 2, 4, 7 e 9 de maio.
R$ 40 a R$ 100. Ingressos pelo site ingressorapido.com.br

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