Roberto de Carvalho: 'O brilho é de Rita Lee, o ímã é ela'

Estadão

28 de abril de 2012 | 17h00

Julio Maria

É Rita mesmo quem diz: 70% do que sai nos discos sai da cabeça do marido Roberto de Carvalho. Guitarrista escolado em harmonias da bossa, foi ele quem a colocou em outro estágio, depois das fases com Mutantes e Tutti Frutti. Seu nome só não sai nas capas porque ele mesmo prefere assim.

Mesmo os rocks mais declarados saem com algo de harmonia de música brasileira. Esta, aliás, parece ser uma marca nos discos da Rita desde que estão juntos…

Bem sacado, sendo assim os rocks não ficam sendo um simples sucateamento do que vem de fora, como sempre aconteceu em proporções bíblicas pelos lados de cá. O que se perde com isto é o afeto da legião de cultuadores do sucateamento sumário do que vem da gringa. Mas sério, acho que essa coisa da harmonia brasileira está mais na parte não rock do repertório, na falange Mania de Você, Lança Perfume, etc., porque são músicas que foram compostas como bossa, têm harmonia e melodia de bossa, foram feitas num violão à la João Gilberto. Tenho um patrimônio bossa-noveiro de peso na minha formação e opção estética.

Há muita gente que lembra dos discos de Rita com o Tutti Frutti ou com os Mutantes, que prefere suas pegadas mais rock and roll. Você vê com clareza essa ruptura desde que trabalha com ela?

Não vejo uma ruptura, vejo a trajetória natural de uma artista dotada de um potencial descomunal de talento e carisma como a Rita, que jamais poderia ter se limitado a permanecer como diva de gueto. Então, ficou mais pop? Ficou, claro, mas não especificamente por minha causa. Esse é o caminho óbvio de uma estrela dessa magnitude. Então todo meu amor aos saudosistas, porque também sou um deles, mas as estrelas têm necessidade de brilhar antes de explodir, doa a quem doer.

Acha que acaba pouco valorizado quando as matérias sobre um álbum como esse que fazem juntos não citam seu nome?

Ao longo dos tempos, nas matérias sobre os discos, o assunto em que menos se fala é música. Você pode ver, em entrevistas com a Rita, pelo menos 90% do que for indagado não vai dizer respeito à música. Sempre foi assim. O que acho muito normal porque ela tem uma personalidade que transcende o fato musical puro e simples, além de ser a autora única de toda a parte textual, o que não é pouca coisa. E uma lição importante que nem todos entenderam ao longo da vida: se você está ao lado de uma pessoa que tem o brilho e o magnetismo da Rita, você tem que se sentir valorizado por estar ali, e não desvalorizado. Porque ela está ocupando um espaço muito maior do que você. O brilho é dela. O ímã é ela. E o inimigo é o ego, cego, de quem não saca isto. Zilhões de equívocos já foram cometidos por conta da leitura equivocada desta realidade em infinitas áreas de atuação.

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