Robert Glasper valoriza a mistura jazz/hip hop

Estadão

13 de maio de 2012 | 17h00

Emanuel Bomfim

Passam-se os anos e não é de estranhar que a mesma indagação ainda ecoe com tanta força por quem pensa a música: o jazz tem salvação? É como se toda a vanguarda tivesse se esgotado no trompete de Miles Davis.  Reside, em grande parte, o receio de que o novo desvirtue as normas sagradas de um gênero que sempre pregou a liberdade.  Não é irônico?

Robert Glasper, herdeiro de uma visão modernista do gênero, calcada principalmente no post-bop, é a própria personificação do novo. É comum encontrar definições sobre ele como “o futuro do jazz”.  Sua intenção, no entanto, escapa de qualquer massagem envaidecida no ego.  Fiel às suas origens nada herméticas, apenas busca fluência num filho distante do próprio jazz: o hip hop.

“Definitivamente, eu acho que o jazz precisa ser influenciado por elementos externos para ser relevante”, opina o pianista e produtor em entrevista aoEstado.  O já memorável Black Radio , seu mais novo álbum, possui dois núcleos atuantes para buscar uma fusão eficiente entre o fraseado jazzístico e a batida rap.  O primeiro é a própria banda de Glasper, versátil por excelência.

O segundo é o elenco de vozes que dão sentido a um disco que é, ao mesmo tempo, artesanal e sintético.  A espinha dorsal é o jazz, mas a musculatura se desenvolve pelo R&B, neo-soul, rock e hip hop.

“Escolhi estes convidados porque já trabalhei com eles antes”, explica o músico norte-americano.  São nomes como Mos Def, Ledisi, Lupe Fiasco, Chrisette Michele e a diva Erykah Badu.  “Ela costumava ficar próxima a mim lá no Brooklyn.  Eu a conheço há anos”, conta.  Apesar da multiplicidade de talentos que permeiam o trabalho, o disco está longe de soar como uma miscelânea de all stars.  Todos parecem ser incorporados ao grupo e ao espírito visionário de seu protagonista.

Filho da cantora de R&B Kim Yvette, Robert Glasper nasceu em Houston e cresceu tocando em igrejas e acompanhando a mãe por estúdios.  O primeiro disco, Mood, veio em 2003, editado por um selo indie.  Em pouco tempo, ganhou um contrato com a influente Blue Note.  De lá, lançou Canvas (2005) e In My Element(2007), com formação centrada num trio e discreta aproximação com o hip hop. Double Booked
, de 2009, inaugura este caminho mais experimental na vida do artista.  Mas nada se compara ao atual Black Radio.  “Sim, de fato este é o registro em que fui mais longe”, declara o aplicado instrumentista.

O novo álbum pode ser entendido com uma extensão natural do que artistas do neo-soul já propuseram anteriormente, como D’Angelo com
Voodoo, a senhorita Badu com Mama’s Gun , ou mesmo o trompetista Roy Hargrove à frente do RH Factor.

Glasper se vê inserido nesta seara, porém acredita ter azeitado melhor o intercâmbio criativo entre o jazz e o hip hop, até pela proposital escassez de solos e improvisos ao longo dos temas.  A estrutura não é estritamente jazz, mas os comentários, disparados a todo momento no piano, o são.

Da sensual versão de Cherish the Day , com Lala Hathaway, ao rap futurista Always Shine , o músico parece não só dar ao jazz uma cara pop, como encontra um sentido de preservação para sua “caixa preta”.  Glasper, em sua verdade black, se mostra um homem do presente.

OS CONVIDADOS

Erykah Badu

Espécie de unanimidade entre os fãs de R&B, texana surgiu nos anos 90 com uma mistura que evocava o santo graal da black music, aplicado a seu gingado jazzístico.

Chrisette Michele

Sensação no cast da Def Jam, a nova- iorquina é um daqueles raros casos em que o jazz aprendido na infância e adolescência
resultou num neo-soul flutuante.

Mos Def
Nasceu Dante Terrel Smith, virou Mos Def e hoje adotou o nome árabe Yasiin.  Tem carreira exemplar no cinema, mas foi com seu hip hop politizado que ganhou projeção e fama.

Lala Hathaway

Filha do soul man Donny Hathaway, a cantora apareceu nos anos 90 com um R&B envolvente, romântico e versátil o suficiente para fugir de baladas insossas.

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