Ritchie Blackmore mergulha ainda mais fundo na música medieval

Estadão

08 de agosto de 2012 | 06h57

Marcelo Moreira

Genioso, mimado e autoritário, um dos maiores guitarristas do rock decide abandonar a estrada, se interna em sua nova casa de campo em um Estado montanhoso dos Estados Unidos e começa a criar o seu novo projeto, um grupo de música medieval acústico, tendo a própria mulher como vocalista, com o uso eventual de instrumentos elétricos, e de preferência com canções a serem executadas somente em castelos europeus.

O que seria maluquice para qualquer artista bem-sucedido virou o principal projeto da carreira de Ritchie Blackmore, o fundador do Deep Purple, um dos mais importantes grupos de rock.

 Blackmore’s Night é o quinteto de folk rock formado pelo guitarrista de 68 anos em 1997 ao lado de Candice Night, sua esposa desde 1992. A dupla acaba de lançar um novo ao vivo, “A Knight in York – Live 2012”, que sai em CD e DVD, ainda registrando parte da turnê de divulgação do último trabaho de estúdio, “Autumn Sky”, de 2010.

O novo trabalho foi filmado e gravado no Grand Opera House da cidade histórica de York, na Inglaterra, em setemnbro de 2011 – um dos berços da cultura medieval britânica. Com nova formação e uma performance espetacular, Blackmore e sua nova banda chegaram ao auge do projeto. O grupo é único ao mergulhar de tal forma no universo medieval e transplantá-lo para o século XXI de forma magistralmente simples e próxima do popular.  

O Blackmore’s Night surgiu depois do desencanto do guitarrista com o fracasso da segunda encarnação da banda Rainbow, que ele criou em 1975 ao sair da primeira vez do Deep Purple. O Rainbow durou até 1984, quando Blackmore e o vocalista Ian Gillan articularam a volta do Purple com a sua formação clássica.

Mesmo com muitas brigas, Blackmore aguentou o Deep Purple até 1993, quando se desentendeu com todos os membros. Um ano de molho foi o suficiente para ressuscitar o Rainbow, que durou somente um ano, acabando em 1996 por conta de vendas baixas de ingressos e CDs.

Blackmores_night4Uma das formações da banda Blackmore’s Night

A maluquice da música medieval acabou se revelando a decisão mais acertada do guitarrista às portas do século XXI. “Under a Violet Moon”, de 1997, a estreia do Blackmore’s Night em CD, causou um impacto tão grande no mercado que logo se transformou em sucesso de vendas na Europa.

E a premissa inicial foi posta à prova: gravar CDs e fazer shows somente em castelos medievais, “para aproveitar a acústica inigualável destes locais imporváveis e majestosos”, segundo o próprio Blackmore na revista norte-americana Rolling Stone.

E assim foi durante as três primeiras turnês do grupo, tocando quase semrpe e somente na Europa, com poucas escapadas para os Estados Unidos e Japão.

blackmores-night-1O casal Ritchie Blackmore e Candice Night (sentados à frente) em sessão acústica na Europa

Grande parte do sucesso deve-se à excelente performance de Candice Night, a bela esposa. Afinada e muito técnica, consegue imprimir a delicadeza necessária à maioria das composições, ser perder a força e a agressividade nas múisicas mais aceleradas, como algumas versões para clássicos do Deep Purple.

Blackmore, por sua vez, mostra-se muito à vontade tocando alaúdes, violas renascentistas e outros instrumentos medievais, surpreendendo até mesmo os fãs que sempre souberam de suas influências eruditas, que vão de Beethoven a Haendel, Vivaldi e Paganini.

“Autumn Sky”, o álbum, é provavelmente o mais inspirado da banda. O nome é em homenagem à filha única do casal, Autumn Esmeralda, nascida em 2009. A cada álbum a banda se aproxima um pouco mais do rock, mas nada que obscureça o folk meedieval e renascentista.

Os destaques “Barbara Allen”, “Highland”, “Dance Of The Darkness” e “Health To The Company” são alguns dos pontos altos do pacote ao vivo lançado agora. Para quem se interessar, vale a pena adquirir também “Past Times and Good Companies”, CD duplo ao vivo de 2004, e o DVD “Paris Moon”.