Rita Lee: hoje é o primeiro dia do resto de sua vida

Estadão

28 Janeiro 2012 | 22h30

Pedro Antunes

Quando saiu dos Mutantes, em 1972, ela se viu como a ovelha negra da família – o que acabou se tornando um dos seus maiores sucessos, vindo do disco Fruto Proibido, lançado três anos depois. Já o amigo Caetano Veloso a descreveu de outra forma, comparando-a com São Paulo, em Sampa. Caótica, polêmica, desbocada, criativa, irreverente.

Rita Lee talvez seja um misto das duas definições ou, melhor, ela se esquive de qualquer definição, como manda a cartilha do bom rock’n’roll. O certo é que a cantora e compositora é um dos maiores nomes da música nacional de todos os tempos. E a noite de hoje é tão especial – e triste.

Quando sair do palco montado na Praia Nova Atalaia, em Aracaju (SE), será o seu último adeus. Rita Lee irá aposentar o microfone. O anúncio foi feito no sábado passado, após sua performance no Circo Voador, no Rio. Curiosamente, o aviso do último adeus veio na sua estreia na casa de espetáculos carioca.

No dia seguinte, em sua conta no microblog Twitter, ela fez questão de dizer que estava se aposentando dos palcos, não da música: “Não significa parar de cantar, ‘au contraire’, vou ser rato de estúdio, tenho material para gravar mais 5 discos de inéditas”.

A cantora pretende lançar, em março, um novo álbum de inéditas, chamado Reza, quebrando um hiato de nove anos desde Balacobaco. Em julho, virá o disco Bossa n’Movies, cujo princípio é transformar famosas trilhas de filmes em bossa nova. No segundo semestre, também irá estrear uma peça baseada no livro Rita Lee Mora ao Lado, de Henrique Bartsch, protagonizada por Mel Lisboa.

Rita Lee cantando na Virada Cultural de São Paulo (FOTO: ERNESTO RODRIGUES/AE)

Rita afirmou, em seu Twitter, que o corpo não aguenta mais. “Eu preciso.” Ronnie Von, apresentador da TV Gazeta, amigo desde os anos 60 e quem batizou os Mutantes, entende que, mais do que o desgaste físico, existe um cansaço mental.

“Viajar é muito duro. O problema não é se apresentar, estar no palco, isso é ótimo. Mas a gente esquece que é preciso chegar aos lugares, tem a separação, tudo isso cansa”, explica o também músico Ronnie, que se disse nostálgico com o anúncio, ao lembrar de colocar os discos dos Beatles para “Ritinha” ouvir.

O produtor Arnaldo Saccomani, que produziu o clássico dos Mutantes A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, de 1970, recebeu a notícia de forma a aumentar seu desgostoso com o rock nacional. “A Rita, parada, é melhor do que qualquer um que está aí. Desde quando a vi, no estúdio, nos anos 70, sabia que ela era única”, afirma ele. “Comparo a aposentadoria da Rita Lee com a morte do Renato Russo (em 1996).”

“É um direito dela”, comentou a cantora e compositora Andreia Dias, que costumava cantar Ovelha Negra em bares. “Ela marcou história, mas agora quer descansar”, completou. É como a própria Rita Lee cantou em 1972: “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”. E a vida dela, a partir de amanhã, será longe dos palcos. Infelizmente.

  Colaborou Adriana Del Ré

Mais conteúdo sobre:

MutantesRita Lee