Referência internacional, Andre Matos aposta na versatilidade

Estadão

14 de setembro de 2012 | 06h49

Marcelo Moreira

O adolescente de pouco mais de 15 anos era um pouco metido. Fazia parte do estereótipo do músico de heavy metal ter cara de mau e mostrar confiança extrema. Mas isso em um garoto cantor que aspirava a ser uma mistura de Bruce Dickinson (Iron Maiden) e Rob Halford (Judas Priest) era uma afronta a quem achava que conhecia rock pesado. Só que o garoto abriu a boca e as brincadeiras de “Menudos do metal” cessaram.

Um pouco estridente, mas afinado ao extremo e com voz potente, Andre Matos chamou a atenção logo de cara nas primeiras apresentações do Viper em São Paulo, entre 1985 e 1986, e mais ainda quando na mesma época a banda de adolescentes gravou e lançou “Soldiers of Sunrise”. Quem viu a banda na época ficou impressionado com a garra dos meninos, mas especialmente com o potencial do vocalista.

Vinte e sete anos depois, Matos está conseguindo o que todo músico almeja e poucos conseguem: esticar o seu auge na carreira, evoluindo e mostrando trabalhos cada vez melhores. Aos 41 anos e quilometragem imensa por vários segmentos musicais, o maestro pode ser considerado um artista completo.

“The Turn of the Lights” é o seu terceiro álbum solo, recém-lançado. Depois de passagens em alto nível por Viper, Angra e Shaman, embarcou em uma carreira solo com uma sólida experiência internacional e um padrão de excelência que o tornou referência no heavy metal. O resultado é ótimo: melódico, virtuoso e arranjado de forma soberba, o novo álbum mostra um vocalista e uma banda com pleno domínio do repertório e com execução primorosa. “É um prazer ver o resultado final exatamente como o planejado, e feito inteiramente no Brasil.”

Dividido entre Estocolmo, capital sueca onde mora com família, e São Paulo, Matos já dá retoques finais na turnê nacional para a divulgação do trabalho mais recente, enquanto cumpre as últimas datas da surpreendente e bem-sucedida turnê de retorno do Viper.

“Claro que o resultado deste projeto com meus amigos de sempre foi além do esperado. Deveríamos fazer shows somente em julho e começo de agosto, e avançamos para setembro por conta da demanda intensa e convites de todos os lados. Tocar no (festival) Porão do Rock para 10 mil pessoas é para marcar a definitivamente a carreira de qualquer artista”, diz o cantor.

Então é o fim do Viper? “Desde o começo foi um projeto com começo, meio e fim. Vai resultar em um DVD, e assim esse rápido ciclo se encerra. Todos na banda têm seus compromissos e suas prioridades. Tocar com esses caras 22 anos depois de minha saída foi algo mágico e insano, minha carreira solo é a prioridade.”

“The Turn of the Lights”, já á venda no Brasil, é bem diferente do anterior, “Mentalize”. Não tão rápido e pesado, mas é mais versátil. Passeia pelo hard rock, pelo heavy tradicional, com pitadas do “antigo” speed metal (metal melódico?), além das baladas de muito bom gosto, como a épica “Gaza” (que mostra um parentesco com excelente “Lisbon”, do Angra, gravada por Matos) e melancólica “Sometimes”.

A abertura, com “Liberty”, remete aos bons momentos do Shaman, com um trabalho primoroso de guitarras de Hugo Mariutti e André Hernandes.

Coprodutor do álbum, Mariutti deixou sua marca de forma impressionante em todas músicas, com solos precisos e arranjos variados e intrincados. Se ele já havia mostrado sua técnica admirável em “Stop Human Atrocity”, de sua outra banda, Remove Silence, no novo de Andre Matos ele avança em busca de harmonias diferentes. A velocidade dá lugar à melodia perfeita.

“O som é mais moderno neste álbum, mais contemporâneo, com timbres um pouco diferentes. O álbum combina elementos dos dois álbuns anteriores, mas buscamos uma sonoridade que nos aproximasse de um metal mais vigoroso, mas sem a inclusão de elementos estranhos à proposta que norteou sempre o nosso trabalho. Fiquei plenamente satisfeito com o que fizemos no estúdio e com o resultado obtido pelos produtores Brendan Duffey e Adriano Daga”, afirmou Matos.

A estabilidade está fazendo bem à carreira do cantor. No comando total de seu próprio “negócio”, deixou as turbulências dos dias mais angustiantes do Angra e do Shaman para planejar com serenidade e tranquilidade o percurso de seu trabalho como artista solo.

Com uma banda coesa e afinada com a proposta de Matos, as perspectivas são de trabalho intenso e ampliação do reconhecimento internacional, mesmo que para isso o quinteto tenha de forçadamente aceitar um “sexto” elemento – o Skype, programa de computador que permite comunicação de voz e vídeo grátis entre os usuários do software.

“Mesmo estando a 12 mil quilômetros de distância me comunico intensamente com a banda em São Paulo. Às vezes componho e ensaio com o Hugo (Mariutti) por horas a fio neste formato. Essa é uma das grandes coisas que a internet nos legou.  Pena que, por outro lado, tenha desarticulado e, de certa forma, destroçado a forma como a música sempre foi encarada, triturando os direitos autorais e ainda não oferecendo uma forma aceitável de remuneração ao artista por conta de sua obra”, finaliza o cantor.

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