'Ram' volta às lojas para relembrar dias de luta de Paul McCartney

Estadão

31 de agosto de 2012 | 06h45

Bento Araújo – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

Em 1971, Paul McCartney era conhecido mais por ser “o homem que separou os Beatles” do que por outra coisa. Para piorar, havia processado seus ex-companheiros. Não à toa que Ram, seu segundo álbum pós-Beatles, foi recebido de maneira agressiva pela crítica e pelas viúvas do quarteto. O panorama era hostil e McCartney atravessava o período mais turbulento de sua vida.

A saída foi fugir com a família para uma fazenda isolada na Escócia. Lá, Paul escreveu as canções que surgiriam em Ram. Impedindo que ele mergulhasse numa profunda depressão estava Linda McCartney, que participou efetivamente do disco, o primeiro e único creditado a Paul e Linda McCartney. O relançamento dessa obra crucial do beatle chega às lojas em duas luxuosas versões.

Ir para o campo em busca de inspiração não era nenhuma novidade. O Traffic, de Steve Winwood e Jim Capaldi, havia feito isso em 1967. O Led Zeppelin fez o mesmo ao compor seu terceiro trabalho, em 1970, para espanto de seus fãs.

Ram não chega a ser “legendário” como a atual campanha publicitária da famigerada Archive Collection (a linha especial de reedições dos álbuns de Paul) sugere. Sua irregularidade é seu charme maior. Brilhante apenas ocasionalmente, é fascinante do ponto de vista histórico.

Típica obra raramente revisitada pelo seu criador, que faz questão de mantê-la como um pequeno segredo. Ao contrário do que foi feito em 1971, hoje você não precisa comparar Ram com All Things Must Pass, ou Imagine, álbuns de George Harrison e John Lennon lançados naquele mesmo ano.

Paul McCartney em Florianópolis (FOTO: HERMES BEZERRA/AE)

Falando em Lennon, obviamente ele foi crucial na concepção de Ram. A primeira faixa, Too Many People é totalmente anti-Lennon e Yoko, com Macca cantando: “Muitas pessoas estão pregando práticas”.

Lennon ficou ofendido também com certas piadinhas contidas em Dear Boy e 3 Legs, esta última um suposto ataque aos três outros Beatles. Mas nada se compara a Another Day, o lado principal de um compacto lançado por Paul em fevereiro de 1971, registrado nas sessões de Ram, porém não incluído no álbum original, mas sim nos extras deste relançamento. Foi essa teoricamente inofensiva canção que despertou a ira de Lennon, que respondeu também em forma de música com How Do You Sleep?.

Paul e Linda voaram sozinhos, sem banda, para Nova York. O intuito foi gravar com músicos norte-americanos. O processo de recrutar os novos soldados para a batalha de McCartney foi traumático.

Para conter sentimentos exacerbados, Paul dizia que estava somente recrutando pessoal para a gravação de um jingle publicitário, e não um novo álbum. A estratégia deu certo. Tão certo que produziu uma pérola do porte de Uncle Albert/Admiral Halsey, cujo teor nostálgico e efeitos sonoros ousados lhe renderam um Grammy.

 

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