'Racha' na Galeria do Rock: lojistas de música questionam atividades culturais

Estadão

23 de agosto de 2012 | 06h37

Marcelo Moreira

O clima de harmonia, efervescência e clima de desenvolvimento de um dos pontos turísticos mais importantes de São Paulo chegou ao fim. A diplomacia foi soterrada por um inevitável racha entre “o pessoal da música” e o “pessoal da moda e do comportamento” na Galeria do Rock na última semana.

Na verdade, a questão envolve mais diretamente um grupo de lojistas que ainda vende música em formato físico – CDs e DVDs – e o síndico do conjunto Grandes Galerias, Antonio de Souza Neto.

A quebra do pacto de não agressão surgiu no boletim “O Grito”, em sua edição nº 159, que é um veículo da loja Die Hard, uma das mais antigas na Galeria do Rock. Com o título de Nós Temos Vergonha da Administração da Galeria do Rock”, os proprietários criticam duramente os “projetos culturais” do síndico e denunciam o que chama de “excessiva mercantilização do espaço cultural”, com ênfase do no faturamento e pouco caso com atividades culturais que “realmente tenham relação com a música e o rock”.

Não é de hoje que parte expressiva dos lojistas ligados à música reclamam bastante da mudança de perfil que a Galeria do Rock sofreu nos últimos dez anos, com providencial e intensivo estímulo de Souza Neto.

Reação natural ao movimento de mercado que corrói as vendas de CDs e DVDs, derrotados pelos downloads legais e ilegais de aquivos musicais, alguns comerciantes pedem apoio à administração do espaço para revitalizar a área musical e atrair consumidores mais velhos, acostumados às mídias físicas e ainda fiéis aos CDs e até vinis. Esse grupo afirma estar sendo ignorado e discriminado em suas reivindicações.

Entrada da Galeria do Rock pela avenida São João (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

O fato é que a galeria sofreu uma mudança radical desde 2000. A crise da indústria fonográfica levou ao buraco gravadoras, selos musicais e os pontos de venda de CDs e DVDs no mundo todo.

Hoje praticamente não existem lojas de CD em comércio de rua, apenas em shoppings centers e, em São Paulo, na Galeria do Rock. Nesta, também houve devastação: das estimadas 140 lojas de música no fim dos anos 80 e começo dos anos 80, restam hoje menos de 50. Ou 34, na conta do comerciante Luiz Calanca, proprietário da lendária e resistente Baratos Afins, uma das primeiras a se estabelecer no local há 32 anos.

Os espaços foram lentamente sendo ocupados por estúdios de tatuagem, lojas de roupa e acessórios com o rock como tema e até lojas de bonecos em miniatura de ídolos musicais. Com isso, um novo público passou a frequentar o espaço, bem mais jovem e mais “moderno”, mas que tem outro tipo de relação com a música: não a consome, mas busca na internet ou se contenta com emissoras de rádio de qualidade duvidosa.

“O problema é que a mudança de perfil da galeria estimulada pela administração atual acha que é um grande obra, uma coisa de vanguarda. O síndico é incapaz de perceber que está havendo um sucateamento generalizado do comércio local. Essa molecada que frequenta hoje a Galeria do rock, em sua grande maioria, não consome por dois motivos: não tem dinheiro e não dá valor ao produto cultural que é vendido. Esse pessoal se satisfaz ao comprar uma camiseta ruim e pirata de R$ 15 ou um bottom malfeito que custa R$ 5. Não há mais valor agregado algum”, reclama um antigo lojista de CDs que prefere não se identificar.

A consequência óbvia, na visão deste empresário, é que o consumidor disposto a comprar música não vai mais à galeria, espantado por um público que descaracterizou o espaço e que não dá a mínima para a música.

“O som, as bandas, os artistas, tudo se tornou descartável e o síndico estimula isso. Não dá a mínima para criar situações para que os verdadeiros frequentadores, novos ou antigos, aqueles que gostam de música, venham para cá e comprem coisas específicas, que não existem na internet. Esse pessoal sumiu porque acha que a Galeria do Rock acabou enquanto comércio de música. E quando vê no que a galeria se transformou, passa bem longe mesmo”, diz o lojista.

Esse é um aspecto que é unânime entre os comerciantes de música, mas o que motivou o manifesto da Die Hard foi o que um dos sócios, Fausto Mucin, chama de autoritarismo e cerceamento da liberdade de expressão.

“A galeria só existe e só é o que é graças ao rock. Isso deveria ser levado em conta quando se decide por qualquer iniciativa cultural. Entretanto, prevalece apenas o aspecto comercial e as atividades ‘culturais’ são decidas apenas pelo síndico, sem consulta a quem realmente entende do assunto e que tenta sobreviver com os frutos de tais atividades, que são os lojistas. Mas não somos ouvidos e até mesmo criticados quando reclamamos. Cadê a liberdade de expressão?”, diz Mucin.

O empresário cita dois eventos que poderiam perfeitamente ter sido realizados na Galeria do Rock recentemente: o projeto Rock na Vitrine e a exposição “Na Pele”, sobre a história da tatuagem no Brasil. Ambos estão sendo realizados na vizinha Galeria Olido. Um dos organizadores e apoiadores dos dois eventos é Luiz Calanca, da Baratos Afins. “Ele não recebeu apoio da Galeria do Rock e não pensou duas vezes: foi para a Olido.”

O síndico Antonio Souza Neto responde aos protestos com ironia. “Manifesto? Panfleto contra a administração? Não estou sabendo, mas isso não me surpreende, há muita inveja por aqui.”

Ele não economiza nos elogios à transformação da Galeria do Rock e desdenha das queixas de mudança de perfil de frequentadores. “O CD acabou, mas esses caras (os lojistas de música) ainda se agarraram a uma peça de museu do século passado. Reclamam dos jovens que frequentam hoje o espaço porque eles não compram mais música. O mundo mudou e eles não querem admitir.”

O seu bordão atual é “consegui agregar valor cultural a um local meramente comercial, que conquistou fama internacional e que virou objeto de estudos urbanísticos em vários países”.

Antonio Souza Neto, o síndico da Galeria do Rock (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

Pode-se discutir um ou outro aspecto da afirmação, mas até mesmo seus mais ferrenhos críticos e opositores reconhecem ao menos alguns méritos. O próprio manifesto da Die Hard faz uma ressalva em seu manifesto, logo no começo: “Nosso protesto nada tem a ver com a limpeza, segurança e outros assuntos administrativos que estão se saindo muito bem.”

Mas nem mesmo isso faz Souza Neto aliviar na réplica. “Minha administração é transparente e sempre foi aberto ao diálogo, mas os ressentidos não têm argumentos para me confrontar. Ficam enciumados porque minha administração fez da galeria um ponto turístico e referência cultural paulistana. Há muito ciúme porque a galeria virou tema de novela (“Tempos Modernos”, da TV Globo, entre 2009 e 2010), com um personagem inspirado em mim. Tudo isso incomoda.”

O “racha” explícito na Galeria do Rock, antes mantido nos bastidores, deve acelerar a mudança de lojistas de música para outros pontos do centro de São Paulo, um movimento que o Jornal da Tarde e o Combate rock haviam antecipado em 2009.

A Die Hard é uma candidata a migrar para o Espaço Cultural Nova Barão, a poucos metros da Galeria do Rock e onde já existem 11 lojas de CDs e LPs raros, além de sebos.

“Vamos resistir até o máximo que conseguirmos, mas não tenho ilusão: do jeito que a Galeria do Rock está, a música e a cultura ficarão cada vez mais em segundo plano. A Nova Barão é uma alternativa bem interessante, já temos um espaço alugado lá”, diz Fausto Mucin.

O manifesto dos lojistas de músicas talvez seja o último suspiro de um grupo de idealistas nostálgicos e, de certa forma, conservadores que tentam preservar a música como bem cultural, e não um produto totalmente descartável.

A luta é mais do que inglória, é uma causa perdida, mas tem o grande mérito de mostrar a importância que a Galeria do Rock tem para São Paulo. Se não é possível voltar aos tempos de glória da venda de música física, que pelo menos se mantenha a tradição de reverenciar a música como algo nobre e de valor incalculável.

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