Quem já tocou e gravou em 'Ladyland', de Hendrix

Estadão

08 de setembro de 2010 | 16h45

Ben Sisario – THE NEW YORK TIMES NOVA YORK – O Estado de S.Paulo

Como o próprio Electric Lady Studios, a reunião foi um ótimo exemplo de grandes celebridades escondidas bem diante dos olhares de todos, repleta de nomes envolvidos na gravação de alguns dos álbuns mais famosos e festejados dos últimos 40 anos, mas cuja participação e importância o grande público desconhece

AC/DC. Sentados ao lado de Kramer no Estúdio A, a subterrânea câmara principal do Electric Lady – que conserva as paredes arredondadas originais e o teto em espiral -, estavam Tony Platt, que em 1980 mixou Back in Black, do AC/DC, naquela sala; John Storyk, o arquiteto e perito em acústica que projetou o estúdio; e a dupla Robert Margouleff e Malcolm Cecil, os magos do sintetizador recrutados por Stevie Wonder no início da década de 1970.

FOTO; REPRODUÇÃO

FOTO; REPRODUÇÃO

Entre os cerca de 80 profissionais da música presentes no encontro, estes nomes famosos entre poucos ofuscaram dois outros participantes mais conhecidos do grande público: Lenny Kaye, guitarrista do Patti Smith Group, e Janie Hendrix, meia-irmã de Jimi.

Com o sentimentalismo e a precisão dignos de engenheiros de som de longas carreiras, eles contaram histórias de guerra no front do estúdio (o amplificador de Jimi ficava ali, junto à parede; o baterista de Stevie gostava de se instalar daquele lado); extraíram suspiros da plateia com uma apresentação de fotos retratando antigos consoles de mixagem; e tentaram determinar qual era o aspecto do Electric Lady que conferia ao estúdio sua atmosfera única. O espírito de seu fundador foi citado mais de uma vez, bem como a mistura entre tecnologia e clima convidativo.

Keith Richards. “Todos os estúdios que vemos hoje partem do princípio de oferecer um ambiente amigável para a produção da arte”, disse Margouleff, contendo as lágrimas. “Esta foi uma das principais invenções do Electric Lady.” Para muitos artistas, o estúdio de Hendrix se tornou um segundo lar.

A porta para o banheiro do andar de cima tem um pequeno buraco, grande o bastante para acomodar um cabo nos momentos em que Keith Richards quisesse editar suas sequências de guitarra na privacidade mais reservada possível. Para Jimmy Page, o toque pessoal de Hendrix e Kramer fez toda a diferença quando o Led Zeppelin trabalhou na mixagem de Houses of the Holy naquele estúdio, em 1972.

Equipamento de gravação do estúdio B do Electric Lady Studio (Michael Nagle/The New York Times)

Equipamento de gravação do estúdio B do Electric Lady Studio (Michael Nagle/The New York Times)

“Eddie Kramer era um engenheiro de som excelente”, afirmou Page em entrevista concedida pelo telefone. “Para trabalhar num estúdio que levaria o nome de Hendrix, ele garantiu que o lugar fosse atraente e dotado de uma boa acústica, para que os músicos quisessem tocar naquele cômodo.”

Mas, no universo dos estúdios de gravação, no qual tempo é dinheiro e a inspiração precisa fluir ao longo de repetidas tomadas, até fatores intangíveis como o clima têm uma função específica, e os princípios por trás do projeto do Electric Lady se tornaram populares atualmente.

Storyk explicou que, além do clima e da iluminação, Hendrix fez pedidos que representaram mudanças visionárias para a arquitetura dos estúdios, como salas de controle grandes o bastante para acomodar simultaneamente artistas e engenheiros de som, possibilitando que trabalhassem juntos com mais conforto.

Tais planos, somados a complicações como o lençol freático muito próximo do subsolo do edifício, significaram um processo de construção prolongado e caro.

O alvará original de construção do estúdio emitido pela prefeitura de Nova York estima o custo da obra em US$ 125 mil, mas Storyk lembra que o valor final chegou a US$ 1 milhão. Depois de projetar o Electric Lady, aos 22 anos, Storyk foi o responsável pela arquitetura de muitos estúdios e casas de espetáculo espalhados pelo mundo.

“Era a primeira vez que um artista construía um estúdio. Isso estava ocorrendo em alguns casos isolados pelo mundo, mas nenhum daqueles projetos era tão famoso quanto o de Jimi”, revelou Storyk. As inovações do Electric Lady com vista a um melhor aproveitamento por parte do artista – acompanhadas pela mística de Hendrix – ajudaram o estúdio a sobreviver a uma era em que as grandes instalações multifuncionais de gravação cedem espaço para salas menores e de foco mais definido.

Clapton. Ecoando o seu modelo, muitos estúdios novos, como o Roc the Mic, de Jay-Z, em Manhattan (projetado por Storyk), são criados para atender às necessidades específicas de um músico. Entre os artistas que gravaram recentemente no Electric Lady estão Eric Clapton, Coldplay, Rihanna, The Strokes e Sheryl Crow. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Combate Rock nº 2 – Jimi Hendrix by mmoreirasp

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